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Edição 1 804 - 28 de maio de 2003
Entrevista: Suzana Vieira

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"Nunca fui santa"

Se há alguém que não tem medo
de ser feliz é a atriz da Rede Globo.
Ela fala o que pensa e, mesmo
assim, é uma simpatia

Ricardo Valladares

 
"Sem modéstia, sou uma professora para os atores jovens. E tenho faro para saber quem vai ser bom"

A atriz Suzana Vieira faz parte de uma elite na Rede Globo. Dona de enorme carisma, e simpaticíssima, ela está entre aqueles nomes que comprovadamente ajudam a levantar a audiência de uma novela. Por isso, conquistou respeito da direção da emissora e um salário que supera os 50 000 reais por mês. Suzana, cujo nome de batismo é Sônia Maria Vieira Gonçalves, alcançou esse status em 43 anos de profissão. Ela entrou para a televisão como dançarina na extinta TV Tupi e, dez anos depois, transferiu-se para a Globo. Hoje, Suzana contabiliza mais de quarenta atuações em novelas e minisséries. Entre seus papéis antológicos estão a perversa Nice, de Anjo Mau (1976), e a esnobe Branca, de Por Amor (1997). No atual folhetim das 8, Mulheres Apaixonadas, ela interpreta Lorena, uma mulher madura, independente e de humor afiado. A atriz e a personagem têm pontos em comum. Ambas se relacionam com homens mais jovens: Lorena namora o ex-motorista Expedito, enquanto Suzana é casada com Carson Gardeazabal, dezoito anos mais novo que ela. As duas também dizem sempre o que pensam. Nesta entrevista a VEJA, a atriz fala sobre sexo, vaidade e novelas. Além disso, Suzana também revela sua verdadeira idade.

Veja – Recentemente, a senhora fez uma forte cena de sexo em Mulheres Apaixonadas. Foi a primeira vez que tirou a roupa numa novela. Como foi a experiência?
Suzana – Fiquei muito feliz com a repercussão. Aquela cena funcionou como afrodisíaco para as mulheres de meia-idade. Várias me agradeceram, vieram me abraçar na rua.

Veja – Seu marido não ficou com ciúme?
Suzana – Um pouquinho. Coitado, ele não é de assistir a novelas, mas bem nesse dia viu o capítulo, ao lado de amigos. Ele ficou meio aborrecido, disse que eu já tinha feito um monte de novelas e jamais havia tirado a roupa. Expliquei a ele que a linguagem da televisão mudou nos últimos anos. E tentei convencê-lo de que as cenas não eram assim tão explícitas.

Veja – Assim como o personagem Expedito, que é seu namorado na novela, seu marido é bem mais jovem que a senhora. A diferença de idade atrapalha ou ajuda?
Suzana – No meu caso tem ajudado, porque a juventude traz uma certa irresponsabilidade que é muito boa para o amor. Homem de 50 anos costuma ser tenso. É frustrado com a vida, ou está infeliz no emprego. Se teve sucesso, só pensa nos seus milhões, ou fica correndo atrás de garotinhas.

Veja – A idéia de seu marido vir a se interessar por uma mulher mais jovem a preocupa?
Suzana – Ele se interessou por mim, meu bem. Acho que, se um dia meu casamento entrar em crise, não vai ser pela diferença de idade. Os casamentos acabam porque os interesses das pessoas mudam, por causa do desgaste natural do convívio, por coisas assim.

Veja – A cada temporada surge uma nova leva de atores na televisão. Como é trabalhar com esse pessoal mais jovem?
Suzana – Eu procuro levar na base da simpatia. Só não gosto quando eles esquecem que estão no estúdio para trabalhar. Tudo bem se divertir, mas há um limite. Quando fiz a novela Andando nas Nuvens, ao lado do Márcio Garcia e do Caio Blat, houve problemas. O Caio era compenetradíssimo, mas o Márcio era dispersivo demais. Eu tenho faro para saber quem vai ser bom, e tento ajudar. Sem modéstia, sou uma verdadeira professora para os atores mais jovens.

Veja – A senhora não esconde que é vaidosa.
Suzana – Um pouco de vaidade é imprescindível. O que já não tenho mais é aquela ansiedade para ser reconhecida que os atores mais jovens têm. Eu me acostumei com os ciclos da carreira. Sei que em certos períodos você é mais lembrada do que em outros, que uma personagem da novela das 6 tem menos repercussão do que uma personagem da novela das 8, e por aí vai. Não me atormento por causa disso. Mas continuo a ter muito orgulho da minha inteligência. E adoro o fato de estar bonita até hoje, aos 60 anos.

Veja – Suas biografias dizem que a senhora tem 57 anos.
Suzana – Eu nunca diminuí a idade, meu amor. Quem diminuiu foi uma revista, muito tempo atrás. E todo mundo foi copiando. É até mais bonitinho dizer 57, mas a verdade é que estou prestes a fazer 61. E daí? O que importa é a boa cabeça, a aparência física, o sex appeal. Se fosse só uma questão de idade, vários dos melhores atores da Globo estariam em casa há muito tempo.

Veja – A senhora se cuida muito?
Suzana – Bastante. Adoro passar creme no corpinho, para ficar cheirosa para meu filho, meus netos e todos os que estão a meu redor e gostam de mim. Não é por causa da minha profissão, não. Se fosse faxineira, eu me cuidaria do mesmo jeito. Eu não tomo refrigerante, parei de fumar há dois anos, mas como tudo o que quero. Para evitar o acúmulo de gordurinhas, faço esteira e hidroginástica com pesos. Musculação, não: é muito chato, coisa para quem não tem no que pensar. Tenho diversas amiguinhas no meu grupo de hidroginástica, quase todas mais velhas do que eu. Eu sou uma deusa para elas – é muito divertido. Acho que também tive sorte na genética. Meu pai era campeão de triatlo. Tem 86 anos e ainda faz caminhadas.

Veja – Já fez plásticas e outras cirurgias estéticas?
Suzana – Fiz lipo e uma cirurgia de correção nos seios. Mas nada de silicone, o peito é meu mesmo. Vou lhe dizer uma coisa: não tenho estrias. No Carnaval, entro na avenida de perna nua, sem meia.

Veja – A senhora tem fama de ser voluntariosa. É assim mesmo?
Suzana – É verdade. Burrice, principalmente, eu não tolero. E o povo brasileiro adora se fazer de burro. É uma tática para não se envolver em problemas, para não fazer o que tem de ser feito.

Veja – É mal-humorada no trabalho?
Suzana – Não. Aliás, dificilmente fico mal-humorada. Costumo me recuperar facilmente dos aborrecimentos e dos sofrimentos. Sem precisar de terapia, de remédio, de nada. Basta mexer nas plantinhas que cultivo na minha cobertura. No trabalho, principalmente, sou das mais bem-humoradas. Eu me faço respeitar, mas não sou louca, meu bem. Caso contrário não teria chegado aonde cheguei. Não teria completado 33 anos de Rede Globo. Na hora do trabalho, faço o que for preciso. Não chego atrasada e espero se tiver de esperar. Tenho ensaiado Mulheres Apaixonadas com crises bravas de labirintite. Não é porque a Globo manda, é porque sou assim e acho que esse é o certo.

Veja – Já teve alguma briga feia na televisão?
Suzana – Quando fazia Branca, na novela Por Amor, discuti com um diretor. Ele queria que minha personagem fosse de um jeito, e eu achava que ela deveria ser de outro. Sei que ele não me suporta, e prefiro nunca mais falar com esse sujeito. Hoje em dia, os diretores têm muito poder na Globo. Antigamente, ele estava todo concentrado nas mãos do Boni.

Veja – O que mais mudou nesses anos todos de novelas?
Suzana – Hoje em dia há muita preocupação com o visual e pouca preocupação com a interpretação. O que não significa que o trabalho seja mais fácil. Os capítulos duram quase uma hora, é coisa demais para decorar. É um massacre para o ator e também para os autores. Eles têm de escrever uma Ilíada por semana. Não sei como não se revoltam.

Veja – A senhora já disse que preferia ouvir uma fala de Tony Ramos a admirar a beleza de Thiago Lacerda. Por quê?
Suzana – Vou retificar uma parte dessa frase, porque o Thiago Lacerda, além de ser lindo, tornou-se um ator muito bem encaminhado. A questão é a seguinte: para mim não basta beleza, tem de haver talento. É o talento que me deixa fascinada. Foi isso que quis dizer. Não tenho problemas com o uso da aparência, nem mesmo com a nudez. Às vezes faz sentido dramático, e também pode ser bonito. Mas, quando um derrière vale mais do que o talento artístico, isso significa uma inversão de valores.

Veja – A senhora posou nua três vezes. Posaria de novo?
Suzana – Não teria o menor problema, mas acho que não vão me convidar mais. Antigamente, os cachês não eram milionários. Davam, no máximo, para comprar um carro. Hoje, as revistas pagam mundos e fundos às moças – e elas nem precisam ter talento, mexer com o imaginário das pessoas. Basta um bom traseiro. Só se fala em mulher pelada e só se paga por mulher pelada. É medíocre.

Veja – A senhora, ao lado de Antonio Fagundes, Tarcísio Meira, Glória Menezes e Tony Ramos, faz parte de uma elite de atores da Rede Globo, cujos salários estão acima dos 50.000 reais por mês. Acha justa essa remuneração?
Suzana –
Em comparação com os atores americanos, mexicanos e até indianos, nós ganhamos pouco. Afinal de contas, a gente faz a alegria do povo. Mas não vou ficar reclamando. Conseguimos chegar até aí, e está muito bom. Meu negócio é mostrar o meu talento. Eu não quero ser produtora, não quero ter uma empresa própria. Acho chatérrimo. Já basta administrar meus contratos. A Globo não gosta muito quando arranjamos intermediários para negociar contratos. Por mim, tudo bem. Eu aposto na relação empregador-empregado.

Veja – Um salário como o seu garante um ótimo padrão de vida. Como usa o seu dinheiro?
Suzana – Eu tenho um belo apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro, uma bela casa de verão, um belo carro importado. Mas não sou de ostentar. Também faço um pouco de caridade. Ajudo algumas entidades, recebo muitas cartas e de vez em quando me envolvo em alguma situação. Mas não estou querendo dizer que sou boazinha. Não sou do tipo que acorda de manhã e diz "hoje vou fazer o bem da humanidade". Assim como existem os invejosos, existem aquelas pessoas que acham que os artistas têm de ser santos. Nunca fui santa, meu bem.

Veja – A senhora já disse que adora fazer compras em barraca de camelô e na feira. Continua assim?
Suzana – Camelô eu adoro mesmo. Tem coisas que só compro com eles, como ralo de pia e lixa para calo. À feira eu não tenho ido muito. Troquei pelo supermercado.

Veja – A senhora tem medo de andar no Rio de Janeiro?
Suzana – Tenho. Eu costumava ir para o Projac, os estúdios da Globo, pela Linha Amarela. Mas agora não vou mais. Com todos esses atentados, esses tiroteios, ficou muito assustador. Sou vulnerável como qualquer brasileiro, e tenho medo.

Veja – A senhora já usou alguma droga?
Suzana – Já fumei maconha, mas tenho pavor de sair do meu normal. Acho também que as drogas viraram um problema social muito grave, sobretudo no Rio. Foi uma coisa que me atormentou quando meu filho estava crescendo.

Veja – Mulheres Apaixonadas tem duas personagens lésbicas. Se um neto lhe perguntasse a respeito do assunto, o que diria a ele?
Suzana – Não sei. Freqüentemente me pergunto se as novelas devem mesmo abordar todos os assuntos livremente. Se tivesse um filho para criar, não sei se gostaria que ele visse tudo que se mostra na televisão. Jamais teria conseguido explicar ao meu filho pequeno o uso de uma camisinha. Acho que não estaria preparada para ser mãe hoje em dia.

Veja – Por que a senhora nunca faz cinema?
Suzana – Porque tem panelinha. Em toda a carreira só fiz duas pontas em filmes e uma participação um pouquinho maior em Nunca Fomos Tão Felizes, do Murilo Salles. Já tive mágoa por não ser chamada, e depois desta entrevista é que não vou ser mesmo. Tudo bem. Mas continuo achando um absurdo que bons atores não sejam aproveitados no cinema por causa de panelinhas.

Veja – A senhora já atuou em novelas mexicanas. Como foi?
Suzana – Foi muito engraçado. Fiz duas, no começo dos anos 80. Nem lembro o nome delas. As atrizes lá chegavam de limusine, com casaco de pele, todas maquiadas. Eu, de calça jeans e camiseta, parecia um ET no meio delas. Só o ponto eletrônico me causou problemas. Eu ficava com enjôo e labirintite. Mas fui obrigada a usar, porque era norma do sindicato dos atores.

Veja – A senhora gosta de novela mexicana?
Suzana – Adoro, acho uma delícia o absurdo dessas novelas. Os autores não querem agradar a gregos e troianos, não estão preocupados com o intelectual que por acaso esteja com a TV ligada. Já a Globo tem essa necessidade, o que torna o trabalho mais difícil. Eu sou uma grega que adora aquela cafonada. Sou fã daquela atriz famosa, a Thalia.

Veja – Como é sua relação com o público?
Suzana – Das melhores, até quando faço vilãs como Branca. Foram raros os problemas. Uma vez, em 1976, quando fazia a inescrupulosa Nice, de Anjo Mau, abri a porta de casa e uma vizinha pulou em cima de mim. Ela achava que eu tinha um caso com o marido dela. Na cabeça dessa vizinha, eu era a megera que saía com todos os maridos que encontrava. Além disso, a empregada dela havia escutado alguns comentários dele sobre mim. A mulher me encheu de sopapos. Naquele dia, cheguei atrasada às gravações e ainda levei uma advertência da Globo.

 
 
   
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