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"Nunca
fui santa"
Se há alguém que não tem medo
de ser feliz é a atriz da Rede Globo.
Ela fala o que pensa e, mesmo
assim,
é uma simpatia
Ricardo Valladares
 |
"Sem
modéstia, sou
uma professora para os atores jovens. E
tenho faro para
saber quem vai ser bom" |
A
atriz Suzana Vieira faz parte de uma elite na Rede Globo. Dona de enorme
carisma, e simpaticíssima, ela está entre aqueles nomes
que comprovadamente ajudam a levantar a audiência de uma novela.
Por isso, conquistou respeito da direção da emissora e um
salário que supera os 50 000 reais por mês. Suzana, cujo
nome de batismo é Sônia Maria Vieira Gonçalves, alcançou
esse status em 43 anos de profissão. Ela entrou para a televisão
como dançarina na extinta TV Tupi e, dez anos depois, transferiu-se
para a Globo. Hoje, Suzana contabiliza mais de quarenta atuações
em novelas e minisséries. Entre seus papéis antológicos
estão a perversa Nice, de Anjo Mau (1976), e a esnobe Branca,
de Por Amor (1997). No atual folhetim das 8, Mulheres Apaixonadas,
ela interpreta Lorena, uma mulher madura, independente e de humor afiado.
A atriz e a personagem têm pontos em comum. Ambas se relacionam
com homens mais jovens: Lorena namora o ex-motorista Expedito, enquanto
Suzana é casada com Carson Gardeazabal, dezoito anos mais novo
que ela. As duas também dizem sempre o que pensam. Nesta entrevista
a VEJA, a atriz fala sobre sexo, vaidade e novelas. Além
disso, Suzana também revela sua verdadeira idade.
Veja Recentemente, a senhora fez uma forte cena de sexo em
Mulheres Apaixonadas. Foi a primeira vez que tirou a roupa numa
novela. Como foi a experiência?
Suzana Fiquei
muito feliz com a repercussão. Aquela cena funcionou como afrodisíaco
para as mulheres de meia-idade. Várias me agradeceram, vieram me
abraçar na rua.
Veja Seu marido não ficou com ciúme?
Suzana
Um pouquinho. Coitado, ele não é de assistir a novelas,
mas bem nesse dia viu o capítulo, ao lado de amigos. Ele ficou
meio aborrecido, disse que eu já tinha feito um monte de novelas
e jamais havia tirado a roupa. Expliquei a ele que a linguagem da televisão
mudou nos últimos anos. E tentei convencê-lo de que as cenas
não eram assim tão explícitas.
Veja Assim como o personagem Expedito, que é seu namorado
na novela, seu marido é bem mais jovem que a senhora. A diferença
de idade atrapalha ou ajuda?
Suzana
No meu caso tem ajudado, porque a juventude traz uma certa irresponsabilidade
que é muito boa para o amor. Homem de 50 anos costuma ser tenso.
É frustrado com a vida, ou está infeliz no emprego. Se teve
sucesso, só pensa nos seus milhões, ou fica correndo atrás
de garotinhas.
Veja A idéia de seu marido vir a se interessar por
uma mulher mais jovem a preocupa?
Suzana
Ele se interessou por mim, meu bem. Acho que, se um dia meu casamento
entrar em crise, não vai ser pela diferença de idade. Os
casamentos acabam porque os interesses das pessoas mudam, por causa do
desgaste natural do convívio, por coisas assim.
Veja A cada temporada surge uma nova leva de atores na televisão.
Como é trabalhar com esse pessoal mais jovem?
Suzana Eu
procuro levar na base da simpatia. Só não gosto quando eles
esquecem que estão no estúdio para trabalhar. Tudo bem se
divertir, mas há um limite. Quando fiz a novela Andando nas
Nuvens, ao lado do Márcio Garcia e do Caio Blat, houve problemas.
O Caio era compenetradíssimo, mas o Márcio era dispersivo
demais. Eu tenho faro para saber quem vai ser bom, e tento ajudar. Sem
modéstia, sou uma verdadeira professora para os atores mais jovens.
Veja
A senhora não esconde que é vaidosa.
Suzana Um
pouco de vaidade é imprescindível. O que já não
tenho mais é aquela ansiedade para ser reconhecida que os atores
mais jovens têm. Eu me acostumei com os ciclos da carreira. Sei
que em certos períodos você é mais lembrada do que
em outros, que uma personagem da novela das 6 tem menos repercussão
do que uma personagem da novela das 8, e por aí vai. Não
me atormento por causa disso. Mas continuo a ter muito orgulho da minha
inteligência. E adoro o fato de estar bonita até hoje, aos
60 anos.
Veja Suas biografias dizem que a senhora tem 57 anos.
Suzana Eu
nunca diminuí a idade, meu amor. Quem diminuiu foi uma revista,
muito tempo atrás. E todo mundo foi copiando. É até
mais bonitinho dizer 57, mas a verdade é que estou prestes a fazer
61. E daí? O que importa é a boa cabeça, a aparência
física, o sex appeal. Se fosse só uma questão
de idade, vários dos melhores atores da Globo estariam em casa
há muito tempo.
Veja
A senhora se cuida muito?
Suzana
Bastante. Adoro passar creme no corpinho, para ficar cheirosa para meu
filho, meus netos e todos os que estão a meu redor e gostam de
mim. Não é por causa da minha profissão, não.
Se fosse faxineira, eu me cuidaria do mesmo jeito. Eu não tomo
refrigerante, parei de fumar há dois anos, mas como tudo o que
quero. Para evitar o acúmulo de gordurinhas, faço esteira
e hidroginástica com pesos. Musculação, não:
é muito chato, coisa para quem não tem no que pensar. Tenho
diversas amiguinhas no meu grupo de hidroginástica, quase todas
mais velhas do que eu. Eu sou uma deusa para elas é muito
divertido. Acho que também tive sorte na genética. Meu pai
era campeão de triatlo. Tem 86 anos e ainda faz caminhadas.
Veja
Já fez plásticas e outras cirurgias estéticas?
Suzana
Fiz
lipo e uma cirurgia de correção nos seios. Mas nada de silicone,
o peito é meu mesmo. Vou lhe dizer uma coisa: não tenho
estrias. No Carnaval, entro na avenida de perna nua, sem meia.
Veja
A senhora tem fama de ser voluntariosa. É assim mesmo?
Suzana
É verdade. Burrice, principalmente, eu não tolero. E o povo
brasileiro adora se fazer de burro. É uma tática para não
se envolver em problemas, para não fazer o que tem de ser feito.
Veja
É mal-humorada no trabalho?
Suzana
Não. Aliás, dificilmente fico mal-humorada. Costumo me recuperar
facilmente dos aborrecimentos e dos sofrimentos. Sem precisar de terapia,
de remédio, de nada. Basta mexer nas plantinhas que cultivo na
minha cobertura. No trabalho, principalmente, sou das mais bem-humoradas.
Eu me faço respeitar, mas não sou louca, meu bem. Caso contrário
não teria chegado aonde cheguei. Não teria completado 33
anos de Rede Globo. Na hora do trabalho, faço o que for preciso.
Não chego atrasada e espero se tiver de esperar. Tenho ensaiado
Mulheres Apaixonadas com crises bravas de labirintite. Não
é porque a Globo manda, é porque sou assim e acho que esse
é o certo.
Veja Já teve alguma briga feia na televisão?
Suzana
Quando fazia Branca, na novela Por Amor, discuti com um diretor.
Ele queria que minha personagem fosse de um jeito, e eu achava que ela
deveria ser de outro. Sei que ele não me suporta, e prefiro nunca
mais falar com esse sujeito. Hoje em dia, os diretores têm muito
poder na Globo. Antigamente, ele estava todo concentrado nas mãos
do Boni.
Veja O que mais mudou nesses anos todos de novelas?
Suzana Hoje
em dia há muita preocupação com o visual e pouca
preocupação com a interpretação. O que não
significa que o trabalho seja mais fácil. Os capítulos duram
quase uma hora, é coisa demais para decorar. É um massacre
para o ator e também para os autores. Eles têm de escrever
uma Ilíada por semana. Não sei como não se
revoltam.
Veja A senhora já disse que preferia ouvir uma fala
de Tony Ramos a admirar a beleza de Thiago Lacerda. Por quê?
Suzana
Vou
retificar uma parte dessa frase, porque o Thiago Lacerda, além
de ser lindo, tornou-se um ator muito bem encaminhado. A questão
é a seguinte: para mim não basta beleza, tem de haver talento.
É o talento que me deixa fascinada. Foi isso que quis dizer. Não
tenho problemas com o uso da aparência, nem mesmo com a nudez. Às
vezes faz sentido dramático, e também pode ser bonito. Mas,
quando um derrière vale mais do que o talento artístico,
isso significa uma inversão de valores.
Veja A senhora posou nua três vezes. Posaria de novo?
Suzana Não
teria o menor problema, mas acho que não vão me convidar
mais. Antigamente, os cachês não eram milionários.
Davam, no máximo, para comprar um carro. Hoje, as revistas pagam
mundos e fundos às moças e elas nem precisam ter
talento, mexer com o imaginário das pessoas. Basta um bom traseiro.
Só se fala em mulher pelada e só se paga por mulher pelada.
É medíocre.
Veja A senhora, ao lado de Antonio Fagundes, Tarcísio
Meira, Glória Menezes e Tony Ramos, faz parte de uma elite de atores
da Rede Globo, cujos salários estão acima dos 50.000
reais por mês. Acha justa essa remuneração?
Suzana
Em comparação com os atores americanos, mexicanos e até
indianos, nós ganhamos pouco. Afinal de contas, a gente faz a alegria
do povo. Mas não vou ficar reclamando. Conseguimos chegar até
aí, e está muito bom. Meu negócio é mostrar
o meu talento. Eu não quero ser produtora, não quero ter
uma empresa própria. Acho chatérrimo. Já basta administrar
meus contratos. A Globo não gosta muito quando arranjamos intermediários
para negociar contratos. Por mim, tudo bem. Eu aposto na relação
empregador-empregado.
Veja
Um salário como o seu garante um ótimo padrão
de vida. Como usa o seu dinheiro?
Suzana
Eu tenho um belo apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro, uma bela
casa de verão, um belo carro importado. Mas não sou de ostentar.
Também faço um pouco de caridade. Ajudo algumas entidades,
recebo muitas cartas e de vez em quando me envolvo em alguma situação.
Mas não estou querendo dizer que sou boazinha. Não sou do
tipo que acorda de manhã e diz "hoje vou fazer o bem da humanidade".
Assim como existem os invejosos, existem aquelas pessoas que acham que
os artistas têm de ser santos. Nunca fui santa, meu bem.
Veja
A senhora já disse que adora fazer compras em barraca
de camelô e na feira. Continua assim?
Suzana
Camelô eu adoro mesmo. Tem coisas que só compro com eles,
como ralo de pia e lixa para calo. À feira eu não tenho
ido muito. Troquei pelo supermercado.
Veja A senhora tem medo de andar no Rio de Janeiro?
Suzana
Tenho. Eu costumava ir para o Projac, os estúdios da Globo, pela
Linha Amarela. Mas agora não vou mais. Com todos esses atentados,
esses tiroteios, ficou muito assustador. Sou vulnerável como qualquer
brasileiro, e tenho medo.
Veja
A senhora já usou alguma droga?
Suzana
Já fumei maconha, mas tenho pavor de sair do meu normal. Acho também
que as drogas viraram um problema social muito grave, sobretudo no Rio.
Foi uma coisa que me atormentou quando meu filho estava crescendo.
Veja
Mulheres Apaixonadas tem duas personagens lésbicas. Se
um neto lhe perguntasse a respeito do assunto, o que diria a ele?
Suzana
Não sei. Freqüentemente me pergunto se as novelas devem mesmo
abordar todos os assuntos livremente. Se tivesse um filho para criar,
não sei se gostaria que ele visse tudo que se mostra na televisão.
Jamais teria conseguido explicar ao meu filho pequeno o uso de uma camisinha.
Acho que não estaria preparada para ser mãe hoje em dia.
Veja Por que a senhora nunca faz cinema?
Suzana
Porque
tem panelinha. Em toda a carreira só fiz duas pontas em filmes
e uma participação um pouquinho maior em Nunca Fomos
Tão Felizes, do Murilo Salles. Já tive mágoa
por não ser chamada, e depois desta entrevista é que não
vou ser mesmo. Tudo bem. Mas continuo achando um absurdo que bons atores
não sejam aproveitados no cinema por causa de panelinhas.
Veja
A senhora já atuou em novelas mexicanas. Como foi?
Suzana
Foi muito engraçado. Fiz duas, no começo dos anos 80. Nem
lembro o nome delas. As atrizes lá chegavam de limusine, com casaco
de pele, todas maquiadas. Eu, de calça jeans e camiseta, parecia
um ET no meio delas. Só o ponto eletrônico me causou problemas.
Eu ficava com enjôo e labirintite. Mas fui obrigada a usar, porque
era norma do sindicato dos atores.
Veja
A senhora gosta de novela mexicana?
Suzana Adoro,
acho uma delícia o absurdo dessas novelas. Os autores não
querem agradar a gregos e troianos, não estão preocupados
com o intelectual que por acaso esteja com a TV ligada. Já a Globo
tem essa necessidade, o que torna o trabalho mais difícil. Eu sou
uma grega que adora aquela cafonada. Sou fã daquela atriz famosa,
a Thalia.
Veja
Como é sua relação com o público?
Suzana
Das
melhores, até quando faço vilãs como Branca. Foram
raros os problemas. Uma vez, em 1976, quando fazia a inescrupulosa Nice,
de Anjo Mau, abri a porta de casa e uma vizinha pulou em cima de
mim. Ela achava que eu tinha um caso com o marido dela. Na cabeça
dessa vizinha, eu era a megera que saía com todos os maridos que
encontrava. Além disso, a empregada dela havia escutado alguns
comentários dele sobre mim. A mulher me encheu de sopapos. Naquele
dia, cheguei atrasada às gravações e ainda levei
uma advertência da Globo.
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