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Gustavo
Franco
Fausto e a política
monetária
"Mefistófeles
encanta o imperador
com as maravilhas do papel-moeda.
Embevecido, este ordena a seus
artesãos que multipliquem os tais
papéis, trazendo prosperidade ao reino,
porém de forma fugaz. Tudo era falso
como as fantasias de Carnaval"
Johann Wolfgang
von Goethe, autor da mais célebre das versões do mito de
Fausto, o homem que vende sua alma ao demônio em troca da suprema
excelência em sua profissão, e também por alguns prazeres
terrestres mais rasteiros, conhecia bem os assuntos da economia. Foi uma
espécie de administrador do ducado de Weimar durante muitos anos,
de modo que quando acrescentou em 1832, no fim da vida, alguns capítulos
novos ao Fausto, que começara a escrever sessenta anos antes,
aplicou lições que aprendeu em sua experiência como
uma espécie de "autoridade monetária".
Num
desses capítulos novos, há uma cena antológica, e
de exame obrigatório nas escolas de economia: Mefistófeles
se apresenta ao imperador, numa terça-feira de Carnaval, e o encanta
com as maravilhas do papel-moeda. Embevecido, o imperador ordena a seus
artesãos que multipliquem os tais papéis, que circulam "rápidos
e festivos como raios de primavera", trazendo prosperidade e desenvolvimento
ao reino, porém apenas de forma fugaz. Tudo era falso como as fantasias
de Carnaval e de Mefistófeles. Segue-se a inflação,
a crise e o sofrimento. O imperador havia sido enganado, como Fausto,
ao abdicar de valores permanentes, a alma, em troca de realizações
efêmeras.
Goethe tinha
em mente as primeiras experiências desastrosas com a moeda fiduciária
(a moeda-papel, sem o "lastro" em metais que emergem do ventre da natureza)
no século XVIII, sendo certo que, desde então, e diante
de centenas de desastres financeiros similares em toda parte, a humanidade
passou a temer os excessos monetários a ponto de entregar a gestão
do imenso poder de criar valores a partir de pedaços de papel a
castas selecionadas de anacoretas: os bancos centrais.
O poder
desses guardiões da moeda só fez crescer nos anos que se
seguiram, e o brutal aumento de sua independência mais recentemente
pode ser interpretado como uma ratificação convicta da recusa
em fazer qualquer barganha com os encantos do papel-moeda. Na Europa unificada,
inclusive, as nações repudiaram por completo o papel, subordinando-se
a um ente supranacional para seu suprimento e em bases sempre modestas.
É
de notar que esse crescimento do poder dos BCs ocorreu num momento em
que aumentaram muito as dúvidas sobre qual era a verdadeira sabedoria
em matéria de política monetária. As regras monetaristas
convencionais de fixação de uma taxa de crescimento para
os "agregados monetários", com o tempo e a inovação
financeira, foram se igualando em eficácia ao sacrifício
de virgens no altar da estabilidade.
Os BCs,
portanto, chegaram ao poder quando as variações em torno
da moeda fiduciária foram se tornando mais perigosas e tentadoras.
Porém, simultaneamente, começou a faltar-lhes a doutrina.
Em muitos países cresceu o sentimento de que era preciso evitar
os excessos dos BCs em sua freqüentemente insana tentativa de abater
inflações minúsculas através de violentíssimo
"controle da base monetária".
É
da natureza dos religiosos do BC enxergar apenas virtude no sacrifício,
mas o mundo laico pode entender que, sem prejuízo da nobre missão
dos bancos centrais, a decisão sobre a flagelação
do organismo econômico deve pertencer aos políticos eleitos.
Estes, por sua vez, embora sempre propensos ao excesso, trouxeram para
si a escolha de uma taxa de inflação, maior que zero, uma
"meta", e aos anacoretas do BC caberia apenas obedecer. Cria-se, assim,
uma autonomia relativa, dita "operacional", com vistas a conciliar a monástica
propensão ao martírio, própria das autoridades monetárias,
com as necessidades do desenvolvimento.
Mas, como
no Brasil, desde Juscelino, o pendor faustiano para o excesso é
imenso, e este é o país do Carnaval, essa conciliação,
na prática, é muito difícil. O BC vê-se forçado
ao excesso, pois apenas enxerga excesso, na direção contrária,
dentro do mesmo governo. Os juros são altos, e assim permanecerão,
muito mais em razão de "fundamentos econômicos" frágeis,
temas da esfera dos políticos, que da vilania ou austeridade do
BC.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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