A condessa desbocada

A ex-mulher de Chiquinho Scarpa
difama o playboy e vira atração dos
leões e ratinhos

Carlos Maranhão

J.R. Duran/VIP Exame
"Resolvi falar a verdade, mantendo a minha classe: ele é gay. Eu o encontrei na cama com dois homens."
Carola Scarpa


São compridíssimos os lindos cabelos tingidos de loiro, as unhas artificiais e, sobretudo, a língua da agora ex-condessa Ana Carolina de Oliveira Scarpa. A princesa Carola, como passou a se intitular, está transformando o fim litigioso de seu casamento com o playboy paulista Francisco Scarpa Filho, o Chiquinho, que durou nove meses exatos, em um interminável espetáculo público. Poderia até ser engraçado, por misturar a infâmia e o faz-de-conta com tiradas de humor e revelações picantes sobre bastidores do café-society. Mas é deprimente. Durante toda a semana passada, a condessa desbocada, com seus vestidos ora insinuantes, ora recatados, e um ar quase angelical que torna ainda mais chocantes as barbaridades que diz, transformou-se na atração máxima dos campeões de sensacionalismo na TV. Na terça-feira, levou o Leão Livre a uma média de audiência de 16 pontos, o dobro da normal, o que colocou a Rede Record, entre 23h45 e 0h45, à frente da Globo e do SBT. Na quinta e na sexta, entrevistada por Ratinho, repetiu em dois capítulos a história escabrosa que já havia contado em vários programas apelativos de rádio e antecipado em pequenos flashes, por meio de fax enviados a redações de revistas e jornais. O ibope do SBT, enquanto ela dava corda para as impudicícias do apresentador, subia dos habituais 22 pontos para 29 (na sexta, teve picos de 36), em meio a diálogos como este:

Por que o casamento não deu certo? perguntou Ratinho. Você gastava muito?

Não, foi porque Chiquinho Scarpa é gay ela respondeu na lata.

Mas antes do casamento não teve nada?

Teve, teve sim... Depois de cinco meses que estávamos juntos.

Cinco meses para c... você?

E o ibope a mil por hora. No Leão Livre, a coisa fora pior ainda. Para explicar o rompimento, Carola disse o seguinte: "Eu o encontrei na cama com dois homens". Ratinho guardou esse trecho para coroar o programa de sexta.

Raul Junior
"Mentiras não precisam de respostas. Sabia quem ela era, mas estava apaixonado. Fui uma besta e me estrepei."
Chiquinho Scarpa


No apartamento de andar inteiro na região dos Jardins, em São Paulo, onde desde a separação mora com a mãe e o filho de 5 anos, seu telefone, antes mudo, passou a tocar noite e dia. Uma secretária atende e anuncia: "Residência da princesa Carola, boa-tarde". A cada um que liga, ela faz o mesmo comentário. "Não estou medindo as conseqüências", explica com a voz suave. "Resolvi falar a verdade nua e crua para desmascarar uma mentira, mas sem entrar em detalhes sórdidos e mantendo minha classe." Aconselhado por seu advogado, Chiquinho decidiu não dar entrevistas. Mas nega todas as acusações.

A história de Carola, paulistana de 28 anos, 1,65 metro e 50 quilos, apesar de algumas lacunas ainda misteriosas, tem elementos de folhetim. Ela é filha do diretor de televisão Carlos Augusto Oliveira, o Guga, que saiu recentemente da Record, e sobrinha de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-todo-poderoso da Globo. A deputada Yeda Crusius (PSDB-RS), ex-ministra do governo Itamar, é sua tia materna. Em 1990, depois de participar como atriz coadjuvante da novela Cortina de Vidro, produzida por seu pai para o SBT, Carola saiu do país. Viveu em Nova York, Miami, Los Angeles e Las Vegas. Foi depois para Israel, com um agente de segurança, pai de seu filho. Nos Estados Unidos, segundo acredita a família Scarpa, ela teria vivido com um mafioso americano que trabalhava para o notório chefão John Gotti Junior. "É verdade, conheci Gotti bastante bem", confirma Carola, que se recusa a dar maiores esclarecimentos sobre esse período nebuloso de sua biografia.

Fotos: Bia Schmidt e Luzinho Coruja
Chiquinho com uma Harley-Davidson de sua frota, em 1983, dando tacadas (abaixo), em 1995, e no casamento, em maio do ano passado: o falso conto de fadas durou nove meses

 

Cris Villares


Em 1997, ela voltou para São Paulo disposta a tentar carreira na televisão. Revelou para várias pessoas que queria tornar-se uma celebridade nacional. "Eu seria uma excelente apresentadora de programa infantil", acredita. Nesse período, encontrou Chiquinho Scarpa e começaram a namorar. Os dois haviam se conhecido dez anos antes numa boate. Ele era então o mais popular e exibicionista playboy brasileiro. Como seu antecessor carioca Jorginho Guinle, que passou a vida em festas, ao lado de belas mulheres, Chiquinho Scarpa nunca trabalhou de verdade. Nem teve necessidade. Suas despesas são custeadas por uma mesada do pai, que chegou a ser dono de 23 fazendas, usinas de açúcar, inúmeros negócios imobiliários e uma cervejaria, além de um prédio de dezessete andares na Avenida Paulista, o ponto comercial mais valorizado da cidade. Embora o patrimônio tenha diminuído, os Scarpa não deixaram de ser ricos.

Há trinta anos Chiquinho vem cumprindo uma rotina estafante. No antigo casarão da família, ele acorda ao meio-dia, faz as mãos e os pés duas vezes por semana, cuida das sobrancelhas e deixa separados os trajes que usará nos sete dias seguintes. Tem um guarda-roupa assombroso, arrumado em três closets. Só de sapatos, são 58 pares. Usa cuecas brancas numeradas, de 1 a 21, para não repeti-las, todas iguais e bordadas com o brasão dos Scarpa e suas iniciais. Devidamente aprumado, sai para ir a eventos, comemorações, casas noturnas e restaurantes da moda. Vai em seu Rolls-Royce 76, acompanhado de seguranças que contrata por dia. Pródigo, deixa gorjetas de 100 reais para garçons, mas em muitos casos cobra cachês entre 2 000 e 5 000 reais por sua presença em festas. Segundo ele, o dinheiro é doado para entidades beneficentes. Suas aparições, de acordo com os registros do próprio Chiquinho, que é uma pessoa minuciosa e organizada, estão registradas em 494 fitas de vídeo e 15 800 recortes de notícias. Ele também colecionava 3.675 pôsteres em que aparece ao lado de amigos, namoradas, colunáveis e personalidades. As fotos estão praticamente perdidas. Durante a crise conjugal, num acesso de fúria, Carola destruiu quase todas.

"Fui uma besta" Chiquinho já fez muita besteira na vida. Em 1977, por exemplo, foi interpelado judicialmente pelo príncipe Rainier, de Mônaco, depois que insinuou na televisão ter vivido uma suposta cena de alcova com a princesa Caroline. Como ele se retratou, Rainier retirou o processo. Oito anos atrás, gerou discursos de protesto na Câmara dos Deputados por causa de uma entrevista delirante em que declarou ser dono de uma "criação de anões", que alugaria para trabalhar como garçons, e de um escravo pessoal em Marrocos. Apesar dessas asneiras e das constantes palhaçadas, ele é considerado pelos amigos um homem leal, divertido e generoso. Cinco de suas ex-namoradas o descrevem como uma pessoa bem-humorada, vaidosa e galante, além de um tanto megalomaníaca. Pelo menos uma delas garante que irá depor em juízo defendendo sua reputação. Nenhuma admite que seja gay. "Era um bom amante", afirma a banqueteira Renata Fontoura, que o namorou durante cinco anos.

O grande erro do playboy, que permanecia solteirão aos 47 anos, foi o casamento. Montado como um megaevento de mídia, com transmissão por dois telões, rendeu aos noivos uma cobertura na imprensa e na televisão superada apenas pelo escândalo da separação. A festa não custou nada para eles. Das 5 000 flores que decoraram a igreja à recepção para 350 pessoas, tudo foi arrumado em troca de algum tipo de publicidade. Eles ganharam dos convidados 1 200 presentes, pelos cálculos sempre exagerados de Chiquinho.

"Eu pensava que estava vivendo um conto de fadas real com meu príncipe", jura Carola. "Achei que era a mulher de minha vida", jura Chiquinho, que durante o breve namoro mandou pintar um enorme quadro do rosto de sua amada e o colocou no banheiro. De tão grande, o retrato ocupa uma parede inteira. Ele casou contra a vontade dos pais e desprezando a opinião dos amigos. A um deles, desabafou na semana passada: "Fui uma besta e me estrepei. Eu sabia quem era ela, mas estava apaixonado". O que Chiquinho mais ouviu em seu círculo é que Carola seria uma alpinista social e que, em diversas ocasiões, uma moça muito parecida com ela, apelidada de "Anjinho", fora vista circulando em um café da noite paulista freqüentado por homens desacompanhados. O então proprietário afirma ter encontrado várias vezes essa pessoa em seu estabelecimento. "Ela é muito oferecida", acha a promoter Alice Cavalcanti, amiga de Chiquinho.

Egberto Nogueira
Claudio Rossi
Ratinho e Leão Livre:
Carola levanta a audiência


O casamento, celebrado com separação de bens, terminou na Quarta-Feira de Cinzas, tendo como gota d'água as últimas brigas e cenas de ciúme do casal nos sambódromos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Logo que Chiquinho saiu de casa, levando a geladeira que colocara no quarto, TV e videocassete, Carola mandou um fax manuscrito para os ex-sogros. Propôs uma separação consensual em troca de um carro Subaru, o apartamento em que moravam e uma pensão mensal de 10 000 reais. Pessoas a quem Chiquinho mostrou o papel afirmam que Carola ameaçou por escrito, caso sua sugestão não fosse aceita, provocar graves danos à imagem da família. O advogado de Scarpa não aceitou e obteve na Justiça uma tutela antecipada que a proíbe de utilizar o título e o sobrenome de casada, pelo menos até a primeira audiência do processo de separação litigiosa, marcada para o próximo dia 6.

Na sexta-feira passada, Boni, o tio mais famoso de Carola, ria de toda a história. "É o melhor programa para ser visto na TV, melhor até que Zorra Total", disse. "Tudo foi muito engraçado, do casamento à separação. No dia do casamento, quando me perguntaram se não tinha dó de ver a pobre da minha sobrinha casando com o Chiquinho, comentei que tinha mais dó do pobre do Chiquinho."

 

Com reportagem de Valéria França
e
Míriam Scavone

 





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