A raiz da diferença

Estudo dos gêmeos tenta explicar
o papel da genética na formação
da personalidade

Maurício Cardoso

Foto: David Teplica MD, MFA, Cortesia The Collected Image, Evanston, Illinois
Natureza e criação
Clones perfeitos, os gêmeos, com suas múltiplas semelhanças físicas e psíquicas, ajudam a explicar por que somos o que somos

Jim Lewis e Jim Springer são irmãos gêmeos idênticos. O que os distingue é o fato de terem crescido separados um do outro, criados por famílias diferentes, em casas distintas, situadas em cidades distantes no Estado americano de Ohio. Jim e Jim se conheceram quando já estavam com 39 anos. O reencontro revelou uma série de inacreditáveis coincidências. Os dois haviam casado duas vezes. As primeiras mulheres de ambos chamavam-se Linda. As segundas esposas também tinham o mesmo nome, Betty. O primeiro filho de Jim Lewis foi batizado de James Alan. O de Jim Springer chamou-se James Allen. "Toy" foi o nome que ambos deram a seus cães de estimação na infância. Adultos, os irmãos desenvolveram preferência pela cerveja Miller Light e pelos cigarros Salem. Ambos dirigiam Chevrolet. Quando se encontraram pela primeira vez, em 1979, os dois mediam 1,83 e pesavam 81 quilos, tinham o mesmo tom de voz, os gestos idênticos e os mesmos tiques nervosos. Ambos tinham o hábito de roer as unhas.

Jim Lewis e Jim Springer são um caso clássico de gêmeos idênticos separados ainda no berço e criados por famílias diferentes. Foi a partir dele que o psicólogo Thomas Bouchard teve a idéia de montar um ambicioso projeto de pesquisa a respeito das influências relativas da genética e das circunstâncias ambientais na formação da personalidade. Agora, duas décadas depois, com 8.000 pares de gêmeos estudados no Centro de Pesquisas de Gêmeos e Adotados da Universidade de Minnesota, Bouchard e seus colegas estão colhendo uma batelada de respostas esclarecedoras sobre como se forma a personalidade humana. Para os cientistas, os gêmeos são o laboratório ideal para realizar as experiências que tentam responder à pergunta que há milênios acompanha cada pai e mãe e que poderia ser formulada assim: a herança biológica vai determinar que tipo de pessoa se tornarão nossos filhos ou a educação que dermos a eles e suas experiências de vida serão decisivas?

Fotos: David Teplica

Padrão de felicidade
As pessoas têm uma sensação de bem-estar genética. Eventos da vida podem afetá-la, mas ela sempre volta ao nível normal


Como se sabe, os gêmeos idênticos são clones, seres geneticamente iguais. O fato de terem sido criados por famílias diferentes pode ser esclarecedor (veja quadro). Os pesquisadores partem do pressuposto de que nesses casos as semelhanças que os gêmeos apresentam nos estudos são herdadas, enquanto as diferenças são fruto da criação que receberam dos pais somada às experiências de vida. Caso fechado, portanto? Em termos teóricos, sim. Mas permanecem as dúvidas. "A genética nunca conta mais do que 50% da história da pessoa. Desprezar a outra metade é um erro", diz o psicólogo Roberto Plomin, da Universidade da Pensilvânia. "As novas estratégias de pesquisa, que reconhecem a influência de múltiplos genes e de fatores não genéticos, são mais promissoras."

Mistérios do amor
Nem os cientistas nem os amantes sabem explicar por que uma pessoa se apaixona por um gêmeo e não por seu par idêntico

Submetendo os gêmeos idênticos a testes psicológicos, os pesquisadores de Minnesota conseguiram chegar ao que chamaram de índice de "hereditariedade dos traços comportamentais". Como todo índice, esse fornece um valor numérico. Pelo que sustentam Bouchard e seus colegas, pode-se medir e comparar em que grau certos componentes da personalidade das pessoas são determinados pela herança genética dos pais. Os resultados são surpreendentemente exatos. Eles descobriram, por exemplo, que a suscetibilidade, a propensão a ser influenciado pelos outros, é um traço 60% hereditário. Como se chegou a tal valor? Simples. Seis em cada dez pares de gêmeos idênticos pesquisados compartilhavam essa característica independentemente do tipo de educação que receberam em suas diferentes famílias. A capacidade de obter prazer estético observando uma tela num museu seria 55% produto dos genes com que a pessoa vem ao mundo. As doenças mentais mostraram ter uma carga genética muito mais forte do que as doenças físicas. O autismo, a esquizofrenia, as neuroses e a depressão são em grande parte hereditárias. Em 90% dos casos em que um gêmeo é autista, o outro também apresenta a mesma deficiência. No caso da esquizofrenia esse valor chega a 50%.

Antes de tentar entender seu real significado é interessante conhecer alguns outros resultados obtidos nos estudos de Minnesota. Segundo os pesquisadores, existe uma vasta categoria de traços de personalidade que deve sua existência tanto à genética quanto às influências externas. Nessa categoria se incluem a alienação política, a extroversão, o tradicionalismo, a capacidade de liderança, a escolha da carreira, a aversão a correr riscos e a vulnerabilidade ao stress. Um dos estudos concluiu que a felicidade é 50% genética. Ou seja, a riqueza, a saúde e a estabilidade dos casamentos contam tanto quanto os genes quando se trata de determinar se uma pessoa é feliz. Continuando com as conclusões dos estudos: tanto o pessimismo quanto o otimismo são fortemente influenciados pelos genes que trazemos ao mundo no coração de nossas células. Fatores externos, infelizmente, podem afetar mais o otimismo do que o pessimismo. Num toque de suprema ousadia, os pesquisadores chegaram a definir até que o hábito de consumir café é mais facilmente herdado do que o de beber chá.

Segredos do lar
Os ensinamentos paternos e as experiências domésticas têm uma influência moderada e relativa na formação da personalidade das crianças

O que haveria de realmente significativo em tudo isso? Muita coisa. A principal é a medição científica de algo de que já se desconfiava abstratamente há muito tempo: os pais passam aos filhos não apenas a cor dos olhos e dos cabelos mas características mais sutis, como a tendência à insônia, a disposição para o riso ou a vontade de filiar-se a um partido político. Genes não são sinônimo de destino, mas ajudam a moldar o caminho das pessoas no mundo. A genialidade de Ayrton Senna ao volante deve-se a sua genética, que fez dele uma pessoa biologicamente capaz de ser um tricampeão mundial de automobilismo. Caso ele nunca tivesse entrado num autódromo, porém, esse prodígio não se teria manifestado da mesma maneira. À luz dos estudos dos gêmeos de Minnesota, o fenômeno Ayrton Senna parece um caso simples. Se tivesse tido filhos, quase certamente, alguns deles seriam também grandes pilotos de competição. Eles teriam juntado mais facilmente a herança genética propícia com o ambiente favorável. De fato, atualmente tanto na Fórmula 1 quanto na Indy o número de pilotos filhos de pilotos é enorme. Para citar alguns: Christian Fittipaldi, Jacques Villeneuve, Michael Andretti e Damon Hill.

O psiquiatra americano Stanley Greenspan parece ter encontrado a exata medida entre a influência dos genes e a do ambiente. "Não existe uma corrida de cavalos entre os genes e a criação para ver quem vai definir um traço da personalidade", disse ele à revista Life. "O que existe é uma dança, uma interação dos diversos fatores." Greenspan tem razão. Há consenso de que a genética é decisiva para produzir indivíduos agressivos e ousados. Entretanto, não se pode automaticamente concluir que, por serem os criminosos agressivos, a criminalidade é hereditária. A herança genética agressiva em uma pessoa criada numa família equilibrada e num ambiente saudável pode muito bem resultar em um adulto honesto. "Os agressivos podem tanto ser marginais de rua como lutadores de boxe, policiais, aventureiros. Não existe o gene da criminalidade", explica Greenspan.

Para o bem e o mal
A agressividade, que está associada à biologia masculina, pode induzir o homem ao crime ou a nobres atos de bravura


A favor do estudo dos gêmeos diga-se que seus resultados têm ajudado outro ramo da ciência, a biologia molecular, a procurar as raízes físicas da personalidade. Dean Horner, biólogo molecular do Instituto Nacional do Câncer, tem em seu laboratório tubos de ensaio lacrados onde armazena material genético retirado de células humanas. Seu banco de dados genético já possui 2.000 amostras marcadas com etiquetas descrevendo o conteúdo: "estudantes universitários", "homossexuais masculinos", "fumantes" e "crianças tímidas". Horner espera um dia localizar nos tubos de ensaio os genes que determinaram as características marcadas nas etiquetas. É uma tarefa quase impossível no atual estágio da ciência. Por enquanto, ele tem conseguido resultados parciais mas muito instigantes. Estudando obsessivamente as amostras de DNA de pessoas que compartilham características semelhantes, o biólogo isolou há seis anos um grupo de genes que podem estar ligados à homossexualidade.

Em 1997 ele descobriu que pessoas com espírito de aventura costumam ter determinados genes ausentes em indivíduos sem essa propensão. Ele foi também o primeiro cientista a descobrir genes que regulam a produção de serotonina, substância química cerebral cuja ausência pode desencadear a depressão psíquica. Horner encontrou esses genes em todas as amostras de DNA de pessoas marcadas em seus tubos de ensaio como "ansiosas". É um avanço gigantesco. Mas muitos anos se passarão ainda até que surja uma terapia genética para a ansiedade. "Pelo estudo dos gêmeos idênticos aprendemos que a ansiedade tem 50% de raiz genética", diz Horner. "Com meu trabalho descobri alguns poucos genes ligados a essa condição psicológica, mas eles devem ser centenas, se não milhares."

Os cientistas tentaram medir outras características pessoais ainda mais abstratas. Niels Waller e Phillip Shaver, da Universidade da Califórnia em Davis, quiseram saber até que ponto são os cromossomos que determinam que duas pessoas se apaixonem. Tiveram uma decepção. Religiosidade, timidez e posicionamento ideológico, acredita-se, são sentimentos e atitudes passados de pai para filho. O romantismo não. "Cada variável psicológica que estudamos tinha sempre um componente hereditário forte", conta Waller. "Ficamos surpresos ao constatar que no amor esse fator praticamente não tem influência." O principal campo de observação dos pesquisadores californianos foram 445 pares de gêmeos. Eles consideraram seis tipos de temperamentos românticos que combinam em maior ou menor proporção o erotismo, a diversão, o pragmatismo, a amizade, o altruísmo ou a obsessão. O amor obsessivo, do gênero atração fatal, seria aquele tipo mais influenciado pela carga de hereditariedade com um índice de 17%. O amor pragmático, aquele que leva uma pessoa a se interessar pela outra para dar o golpe do baú, apareceu apenas em 8% dos casos. O amor erótico, o impulso que faz uma pessoa se apaixonar à primeira vista apenas pela aparência do parceiro, ficou com 5%. Tanto o sentimento que leva as pessoas a namorar com vista a um compromisso até que a morte os separe quanto o que termina antes do próximo Carnaval não têm conotação genética alguma. Não acredite, portanto, quando um conquistador barato disser que age assim por instinto. É pura malandragem.

As gêmeas separadas

Foto: Eugenio Savio
Cici e Carmem: óculos iguais em cidades diferentes


As mineiras Carmem e Conceição Resende, 70 anos, fazem parte do exclusivo clube de gêmeos idênticos criados separados. Assim que as meninas nasceram na cidade mineira de Ibituruna, 180 quilômetros ao sul de Belo Horizonte, Conceição foi entregue pelos pais para ser criada por outra família. Só voltaram a se encontrar aos 4 anos, mas até se tornarem adultas continuaram se vendo pouco e morando em casas diferentes, com estilos de vida distintos. Os pais adotivos de Cici, o apelido de Conceição, tinham melhor condição econômica e puderam dar-lhe uma vida folgada. Filha única, era mimada, tinha boas roupas e ganhava presentes. Morava numa casa espaçosa no centro de Ibituruna. Carmem tinha outros cinco irmãos e uma vida austera. Quando não estava na escola, ajudava a mãe nas tarefas domésticas e a tomar conta dos irmãos menores. A casa apertada para a família numerosa ficava a 20 quilômetros do centro da cidade.

Carmem casou primeiro, mas se separou do marido 36 anos depois. Cici continua casada até hoje. As coincidências na vida das irmãs, que na cidade são conhecidas como as "gêmeas separadas", são impressionantes, e não só pela aparência física. Usam o mesmo estilo de roupa e o mesmo penteado, têm o mesmo timbre de voz e fazem gestos semelhantes, como o de cruzar as mãos sobre o colo. Ambas gostam da cor vermelha, do programa de Hebe Camargo, das músicas de Roberto Carlos e dos filmes de Mazzaropi. Ambas são conservadoras, centradas na família e reprovam a liberalidade sexual. Ambas engravidaram nove vezes, ambas são diabéticas e sempre que uma fica resfriada a outra também fica. Recentemente Cici viajou para São Paulo e aproveitou para comprar óculos novos para corrigir a miopia. Na mesma época, Carmem foi a Lavras e também comprou óculos novos para a vista cansada. Quando se encontraram, dias depois, perceberam com surpresa que haviam comprado o mesmo modelo de óculos.

 

 

 

Com reportagem de: Daniella Camargos,
de Ibituruna, Minas Gerais

 





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