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A raiz da diferença Estudo dos gêmeos
tenta explicar Maurício Cardoso
Jim Lewis e Jim Springer são irmãos gêmeos idênticos. O que os distingue
é o fato de terem crescido separados um do outro, criados por famílias
diferentes, em casas distintas, situadas em cidades distantes no Estado
americano de Ohio. Jim e Jim se conheceram quando já estavam com 39 anos.
O reencontro revelou uma série de inacreditáveis coincidências. Os dois
haviam casado duas vezes. As primeiras mulheres de ambos chamavam-se Linda.
As segundas esposas também tinham o mesmo nome, Betty. O primeiro filho
de Jim Lewis foi batizado de James Alan. O de Jim Springer chamou-se James
Allen. "Toy" foi o nome que ambos deram a seus cães de estimação
na infância. Adultos, os irmãos desenvolveram preferência pela cerveja
Miller Light e pelos cigarros Salem. Ambos dirigiam Chevrolet. Quando
se encontraram pela primeira vez, em 1979, os dois mediam 1,83 e pesavam
81 quilos, tinham o mesmo tom de voz, os gestos idênticos e os mesmos
tiques nervosos. Ambos tinham o hábito de roer as unhas.
Jim Lewis e Jim Springer são um caso clássico de gêmeos idênticos separados ainda no berço e criados por famílias diferentes. Foi a partir dele que o psicólogo Thomas Bouchard teve a idéia de montar um ambicioso projeto de pesquisa a respeito das influências relativas da genética e das circunstâncias ambientais na formação da personalidade. Agora, duas décadas depois, com 8.000 pares de gêmeos estudados no Centro de Pesquisas de Gêmeos e Adotados da Universidade de Minnesota, Bouchard e seus colegas estão colhendo uma batelada de respostas esclarecedoras sobre como se forma a personalidade humana. Para os cientistas, os gêmeos são o laboratório ideal para realizar as experiências que tentam responder à pergunta que há milênios acompanha cada pai e mãe e que poderia ser formulada assim: a herança biológica vai determinar que tipo de pessoa se tornarão nossos filhos ou a educação que dermos a eles e suas experiências de vida serão decisivas?
Submetendo os gêmeos idênticos a testes psicológicos, os pesquisadores de Minnesota conseguiram chegar ao que chamaram de índice de "hereditariedade dos traços comportamentais". Como todo índice, esse fornece um valor numérico. Pelo que sustentam Bouchard e seus colegas, pode-se medir e comparar em que grau certos componentes da personalidade das pessoas são determinados pela herança genética dos pais. Os resultados são surpreendentemente exatos. Eles descobriram, por exemplo, que a suscetibilidade, a propensão a ser influenciado pelos outros, é um traço 60% hereditário. Como se chegou a tal valor? Simples. Seis em cada dez pares de gêmeos idênticos pesquisados compartilhavam essa característica – independentemente do tipo de educação que receberam em suas diferentes famílias. A capacidade de obter prazer estético observando uma tela num museu seria 55% produto dos genes com que a pessoa vem ao mundo. As doenças mentais mostraram ter uma carga genética muito mais forte do que as doenças físicas. O autismo, a esquizofrenia, as neuroses e a depressão são em grande parte hereditárias. Em 90% dos casos em que um gêmeo é autista, o outro também apresenta a mesma deficiência. No caso da esquizofrenia esse valor chega a 50%. Antes de tentar entender seu real significado é interessante conhecer alguns outros resultados obtidos nos estudos de Minnesota. Segundo os pesquisadores, existe uma vasta categoria de traços de personalidade que deve sua existência tanto à genética quanto às influências externas. Nessa categoria se incluem a alienação política, a extroversão, o tradicionalismo, a capacidade de liderança, a escolha da carreira, a aversão a correr riscos e a vulnerabilidade ao stress. Um dos estudos concluiu que a felicidade é 50% genética. Ou seja, a riqueza, a saúde e a estabilidade dos casamentos contam tanto quanto os genes quando se trata de determinar se uma pessoa é feliz. Continuando com as conclusões dos estudos: tanto o pessimismo quanto o otimismo são fortemente influenciados pelos genes que trazemos ao mundo no coração de nossas células. Fatores externos, infelizmente, podem afetar mais o otimismo do que o pessimismo. Num toque de suprema ousadia, os pesquisadores chegaram a definir até que o hábito de consumir café é mais facilmente herdado do que o de beber chá.
O que haveria de realmente significativo em tudo isso? Muita coisa. A principal é a medição científica de algo de que já se desconfiava abstratamente há muito tempo: os pais passam aos filhos não apenas a cor dos olhos e dos cabelos mas características mais sutis, como a tendência à insônia, a disposição para o riso ou a vontade de filiar-se a um partido político. Genes não são sinônimo de destino, mas ajudam a moldar o caminho das pessoas no mundo. A genialidade de Ayrton Senna ao volante deve-se a sua genética, que fez dele uma pessoa biologicamente capaz de ser um tricampeão mundial de automobilismo. Caso ele nunca tivesse entrado num autódromo, porém, esse prodígio não se teria manifestado da mesma maneira. À luz dos estudos dos gêmeos de Minnesota, o fenômeno Ayrton Senna parece um caso simples. Se tivesse tido filhos, quase certamente, alguns deles seriam também grandes pilotos de competição. Eles teriam juntado mais facilmente a herança genética propícia com o ambiente favorável. De fato, atualmente tanto na Fórmula 1 quanto na Indy o número de pilotos filhos de pilotos é enorme. Para citar alguns: Christian Fittipaldi, Jacques Villeneuve, Michael Andretti e Damon Hill. O psiquiatra americano Stanley Greenspan parece ter encontrado a exata medida entre a influência dos genes e a do ambiente. "Não existe uma corrida de cavalos entre os genes e a criação para ver quem vai definir um traço da personalidade", disse ele à revista Life. "O que existe é uma dança, uma interação dos diversos fatores." Greenspan tem razão. Há consenso de que a genética é decisiva para produzir indivíduos agressivos e ousados. Entretanto, não se pode automaticamente concluir que, por serem os criminosos agressivos, a criminalidade é hereditária. A herança genética agressiva em uma pessoa criada numa família equilibrada e num ambiente saudável pode muito bem resultar em um adulto honesto. "Os agressivos podem tanto ser marginais de rua como lutadores de boxe, policiais, aventureiros. Não existe o gene da criminalidade", explica Greenspan.
Em 1997 ele descobriu que pessoas com espírito de aventura costumam ter determinados genes ausentes em indivíduos sem essa propensão. Ele foi também o primeiro cientista a descobrir genes que regulam a produção de serotonina, substância química cerebral cuja ausência pode desencadear a depressão psíquica. Horner encontrou esses genes em todas as amostras de DNA de pessoas marcadas em seus tubos de ensaio como "ansiosas". É um avanço gigantesco. Mas muitos anos se passarão ainda até que surja uma terapia genética para a ansiedade. "Pelo estudo dos gêmeos idênticos aprendemos que a ansiedade tem 50% de raiz genética", diz Horner. "Com meu trabalho descobri alguns poucos genes ligados a essa condição psicológica, mas eles devem ser centenas, se não milhares." Os cientistas tentaram medir outras características pessoais ainda mais abstratas. Niels Waller e Phillip Shaver, da Universidade da Califórnia em Davis, quiseram saber até que ponto são os cromossomos que determinam que duas pessoas se apaixonem. Tiveram uma decepção. Religiosidade, timidez e posicionamento ideológico, acredita-se, são sentimentos e atitudes passados de pai para filho. O romantismo não. "Cada variável psicológica que estudamos tinha sempre um componente hereditário forte", conta Waller. "Ficamos surpresos ao constatar que no amor esse fator praticamente não tem influência." O principal campo de observação dos pesquisadores californianos foram 445 pares de gêmeos. Eles consideraram seis tipos de temperamentos românticos que combinam em maior ou menor proporção o erotismo, a diversão, o pragmatismo, a amizade, o altruísmo ou a obsessão. O amor obsessivo, do gênero atração fatal, seria aquele tipo mais influenciado pela carga de hereditariedade com um índice de 17%. O amor pragmático, aquele que leva uma pessoa a se interessar pela outra para dar o golpe do baú, apareceu apenas em 8% dos casos. O amor erótico, o impulso que faz uma pessoa se apaixonar à primeira vista apenas pela aparência do parceiro, ficou com 5%. Tanto o sentimento que leva as pessoas a namorar com vista a um compromisso até que a morte os separe quanto o que termina antes do próximo Carnaval não têm conotação genética alguma. Não acredite, portanto, quando um conquistador barato disser que age assim por instinto. É pura malandragem.
Com reportagem de:
Daniella Camargos,
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