MInas Gerais

Imitação de Jânio

Itamar usa a oposição
para espicaçar FHC

Foto: André Brant/1o Plano
O governador cumprimenta Brizola, depois de condecorar Lula e Olívio: marketing caro


Em 1961, o então presidente da República Jânio Quadros condecorou o guerrilheiro esquerdista Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Como Jânio não rezava pela cartilha marxista, na época muitos acharam que, ao tomar a decisão, ele estivesse duas doses a mais do que o resto da humanidade. Não estava. Ao homenagear Che Guevara, Jânio queria alvejar os adversários da direitista UDN, o partido que o ajudara a ser eleito e com o qual havia rompido. O tiro janista saiu pela culatra, mas a medalha concedida ao guerrilheiro entrou para a História como um clássico da provocação política. Quase quarenta anos depois, o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, resolveu imitar Jânio. No dia de Tiradentes, em Ouro Preto, o socialista de estilo montanhês distribuiu medalhas da Inconfidência, a mais alta honraria do governo mineiro, a personalidades da oposição. Só para espicaçar o presidente Fernando Henrique Cardoso, seu desafeto.

Na falta de um revolucionário autêntico, lá estavam Lula, Brizola, José Dirceu, Olívio Dutra, Miguel Arraes e até representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Devidamente engalanados, os homenageados não decepcionaram. "Fernando Henrique é imperador, falsário e vendilhão da pátria", começou Lula. "O presidente deve renunciar", emendou Brizola. "Nós vamos dizer aos homens do poder que não tentem tirar os nossos rios, nossas hidrelétricas, porque, aí sim, teremos o confronto", completou o anfitrião. Faltou lembrar que por muito menos Tiradentes foi enforcado.

Apesar do aspecto mambembe, o circo armado por Itamar contou com o apoio de marketeiros e levou três meses para ser planejado. Uma semana antes, foram veiculados comerciais em todas as emissoras de TV do Estado e espalharam-se centenas de cartazes pelas principais cidades de Minas. No dia da festinha, 300 ônibus contratados pelo governo estadual despejaram manifestantes em Ouro Preto. Oficialmente, o protesto de Itamar sangrou os combalidos cofres mineiros em 294.000 reais. Mas, segundo cálculos de um conceituado publicitário de Belo Horizonte, a farra saiu por 1 milhão. Che Guevara custou mais barato.

 





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