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Qual foi o primeiro sinal da doença?
Em março
de 2008, comecei a sentir uma fraqueza nos dedos das mãos. Três meses
depois, já não tinha mais força nos braços. Jogava
beisebol e as bolas não iam a lugar algum. Em agosto, comecei a ter dificuldade
para subir ladeiras. Não sentia uma falta de ar normal. Era algo muito
estranho, difícil de descrever... No começo de setembro, fui ao médico suspeitando já de alguma doença neuromuscular.
Mas, obviamente, não cogitava a hipótese de que fosse a pior de
todas elas.
E como foi receber o diagnóstico de uma
doença progressiva e fatal, para a qual não há cura?
Foi
um choque. Mas logo me acalmei. Fiquei preocupado com meus filhos e minha mulher.
Não pensei no meu sofrimento. A esclerose lateral amiotrófica
não causa dor. No início, os doentes não conseguem sequer
imaginar os sofrimentos que os esperam. Portanto, ficou mais fácil
eu me concentrar nos aspectos mentais e emocionais da doença. Os médicos
queriam me dar antidepressivos, mas nunca quis tomar nenhum remédio que
mudasse o meu humor já abusei muito deles nos anos 60. Até
agora estou conseguindo me manter longe desse tipo de medicação.
Como a doença evoluiu?
Em outubro de 2008, eu
ainda conseguia dirigir. Em novembro, já não podia. Em dezembro,
tinha muita dificuldade para mover minhas mãos e braços. Um dia,
entre fevereiro e março de 2009, eu caminhava para o banheiro quando despenquei
no chão como se fosse o tronco de uma árvore. Minha perna esquerda
se paralisou. Desde então, nunca mais consegui caminhar sem ajuda. Um mês
depois, estava preso a uma cadeira de rodas. Ao mesmo tempo, passei a usar um
aparelho de ventilação artificial para poder dormir mais tranquilamente.
Em seis semanas, dependia integralmente da máquina. Tem sido assim desde
então. A falência muscular foi muito rápida, como se eu tivesse
perdido todos os músculos de uma hora para outra.
Sua
mente se mantém intacta. Qual a sensação de acompanhar a
deterioração física de seu corpo?
Antes de ficar doente,
eu estava em forma e tinha bastante energia para uma pessoa de 60 anos. Eu me
cuidava porque tenho uma esposa treze anos mais jovem e dois filhos adolescentes.
Agora, eu tenho de conviver com o total colapso físico, e isso é
difícil. Perdi 11 dos meus 81 quilos, por causa da atrofia dos músculos.
Só consigo mexer um dedo e movimentar minha cabeça. Sinto muita
falta das minhas pernas. Eu era uma pessoa independente, que gostava de ficar
a sós. Sem conseguir andar, não posso mais ir a nenhum lugar por
conta própria. Hoje já não penso em movimento, penso em permanência.
Em decorrência de todas essas perdas, não me olho mais no espelho.
Já não penso mais em mim como um ser físico. Nos três
meses que se seguiram ao diagnóstico, fiquei em estado de choque e não
fiz absolutamente nada. Foi então que eu comecei a dar uma série
de entrevistas para um livro sobre minhas teorias a respeito do século
XX e descobri que eu podia falar e pensar perfeitamente. As entrevistas tornaram-se
uma distração maravilhosa. Ocorreu-me que eu poderia ditar meus
textos, já que estava incapacitado para escrevê-los. Encontrei aí
a energia e a vontade para voltar a trabalhar. Minha vida se tornou tolerável.
A doença não degenera a mente como degenera o corpo. O melhor de
tudo é que eu estou realmente interessado no que estou fazendo. Descobri
que minha memória é ainda melhor do que eu pensava. Posso conceber
um livro ou um ensaio inteiro na minha cabeça durante a noite.
Não
cansa estar em atividade intelectual 100% do tempo?
Sim. Mas com essa doença
a pessoa fica cansada só por existir. O esforço para mover o dedinho ou falar é comparável ao despendido por uma pessoa
saudável em uma hora de exercícios. Portanto, eu pareço não
fazer nada e, ainda assim, fico exausto.
O senhor já
aceitou o fato de que a morte está próxima?
Sim. Mas a sensação
será diferente quando a morte estiver realmente próxima. No estágio
atual, ela é uma realidade intelectual com evidências físicas,
mas não me afeta emocionalmente na maior parte do tempo. Eu não
tenho medo da morte. Afinal, não estarei aqui para sofrer as conse-quências
da minha própria ausência. Estou mais preocupado com o impacto dela
sobre a minha família.
O que mudou com a proximidade
da morte?
Sempre fui uma pessoa sarcástica, que gosta de comandar, detesta
ineficiência e quer as coisas feitas com rapidez e precisão. Ainda
sou assim. Ao mesmo tempo, detesto a pretensão, o politicamente correto
e a falsa polidez. Essa é uma doença infernal e não há
nenhum mérito em fingir que ela tem aspectos bons. Talvez eu me sinta mais
livre para ser um pouco mais autoindulgente e escrever ensaios sarcásticos
ou simplesmente engraçados. Essa é a liberdade de não ter
de me preocupar mais com minha vida profissional. Outra coisa nova é que
eu aprendi a conviver com uma das piores doenças da face da Terra.
De que forma a doença afetou sua vida profissional?
Eu viajava o tempo todo. Só assim me sentia confiante para escrever. Um
bom historiador tem de ter um quê de jornalista e os bons jornalistas
têm grande mobilidade. Eu voava para a Europa e outros lugares do mundo
pelo menos quatro vezes por ano. E lá ficava viajando de ônibus e
de trem, andava pelas cidades e via as coisas acontecendo. Sempre tive muitos
amigos nesses lugares e costumava encontrá-los para conversar. Frequentemente
dava conferências, uma ótima oportunidade para encontrar e conhecer
mais gente, especialmente estudantes. Ao escrever sobre um país, uma pessoa
ou um problema, meu primeiro instinto sempre foi ir até eles. Mas
eu tenho sorte porque também sou um teórico de política e posso continuar esse trabalho na minha atual condição.
Como
sua mulher e seus filhos lidam com a sua doença?
Para a minha família,
é tudo muito difícil, mas falamos abertamente sobre o assunto. As
coisas devem ser mais pesadas para minha mulher, que tem de desempenhar sozinha
todos os papéis domésticos, fazer o trabalho por dois e ainda conviver
com a perspectiva de ficar viúva precocemente. Creio que no fundo estamos
lidando bem com a situação. Eu fiquei perplexo com o número
de casos de divórcio provocados pela esclerose. Realmente é muito
pesado para quem cuida, principalmente pela ausência de cura, o que causa
uma sensação de grande frustração.
A experiência que o senhor teve no passado com um câncer
se assemelha de alguma maneira à experiência de agora?
Em 2002, tive
um sarcoma no braço esquerdo. Mas o câncer, por si só, não
ameaçava minha vida. Além disso, câncer é frequentemente
curável: responde a cirurgias, radiação e quimioterapia.
Os oncologistas são proativos e otimistas. Já os neurologistas,
que tratam a esclerose lateral amiotrófica, são pessimistas e não
podem fazer muita coisa. Tirando a dor (o câncer dói; a esclerose,
não), preferiria ter um câncer.
O senhor já
pediu aos seus médicos um prognóstico a respeito de quanto tempo
eles lhe dão de vida?
Sim, mas eles não servem para nada! A
informação que eu tive foi que a expectativa média de vida
para uma pessoa com a minha doença é de um a três anos
a partir do diagnóstico. Eles, no entanto, admitem que cada paciente tem
sua própria trajetória... Eu não faço a menor
ideia de quanto tempo ainda vou viver. Como a minha doença progrediu
muito rápido no começo, os médicos acreditavam que eu
já estaria morto a esta hora. Eu e minha família decidimos
viver sem fazer conjecturas sobre o próximo mês. E assim tem
funcionado.
Gina
Levay/Redux![]() |
| Rapidez Em um ano, Judt (em foto de 2006) perdeu os movimentos do corpo e a capacidade de respirar sem aparelhos |
O senhor cogita valer-se da eutanásia?
Minha vida não precisa de ajuda para me deixar. Sofro de uma doença
incurável, progressiva e fatal. No meu caso, a questão que se coloca
é até que ponto deixá-la seguir seu curso. Existem implicações
legais e pode ser muito arriscado para alguém ajudar uma pessoa a morrer.
Mas, no caso de doenças como a minha, se o paciente deixa instruções
a esse respeito, acho que não deveria haver controvérsia alguma.
Se dois ou mais médicos atestam que um paciente está próximo
do fim, por que um profissional de saúde, a esposa ou o filho não
poderiam ser autorizados a ajudá-lo a morrer?
Qual
é o seu limite para continuar vivendo?
Isso muda a cada dia. Dois anos
atrás, eu diria que viver do jeito que vivo hoje seria insuportável.
Agora, penso que o limite vai chegar quando eu não puder mais falar e não
tiver meios de comunicar meus sentimentos e minhas ideias.