Entrevista: Kátia Abreu
Contra os preconceitos
A senadora
e presidente da entidade que representa os produtores rurais diz que o sucessor
de Lula precisa assumir um compromisso com a propriedade privada

Diogo
Schelp
Lailson Santos
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"A
norma usada pelo governo para definir
trabalho escravo é uma punição
à existência da propriedade privada no campo" |
Sobre
a mesa da presidência da Confederação da Agricultura e Pecuária
(CNA), em Brasília, há um grande coelho azul igual ao que a Mônica,
personagem do cartunista Mauricio de Sousa, utiliza para bater naqueles que a
provocam. O bicho de pelúcia foi um presente que a equipe da CNA deu à
presidente da entidade, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), de 48 anos, como
brincadeira em referência à sua fama de briguenta. No Senado ou no
comando da confederação, ela tem procurado provar que muitas das
medidas do governo que atrapalham o desenvolvimento do agronegócio e aumentam
a insegurança jurídica no país são orientadas por
preconceito ideológico. Agropecuarista desde os 25 anos de idade, quando,
grávida do terceiro filho, ficou viúva e teve de assumir a fazenda
do marido, a senadora concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Qual
é a imagem que os brasileiros têm dos produtores rurais?
A ideia prevalente, e errada, é que o agronegócio exporta tudo
o que produz, cabendo aos pequenos produtores abastecer o mercado interno. Pequenos,
médios e grandes produtores destinam ao mercado interno 70% de tudo o que
colhem ou criam. Também é muito forte e igualmente errada a noção
de que fazendeiro vive de destruir a natureza e escravizar trabalhadores. Obviamente,
como em qualquer atividade, ocorrem alguns abusos no campo. Mas o jogo duro de
nossos adversários isolou os produtores do debate e espalhou essa ideia
terrorista sobre a nossa atividade. Esses preconceitos precisam ser desfeitos.
Como?
Mostrando na prática que não somos
escravocratas e que não destruímos o meio ambiente. Nós temos
um projeto em parceria com a Embrapa dedicado a pesquisar e difundir boas práticas
que permitam unir produção rural e proteção do ambiente.
Essa história de trabalho escravo também precisa ser abordada com
ações que produzam respostas práticas. Nós treinamos
200 instrutores para inspecionar fazendas pelo Brasil e avaliar as condições
de vida dos empregados. Já visitamos mais de 1 000 fazendas. O que
se vê é uma imensa boa vontade da maioria dos proprietários
de cumprir tudo o que a lei manda e seguir direito as normas reguladoras. Ocorre
que a norma que rege o trabalho no campo, a NR-31, tem 252 itens. Em qualquer
atividade, cumprir 252 critérios é muito difícil. Nas fazendas,
isso é uma exorbitância. Até em uma fazenda-modelo um fiscal
vai encontrar pelo menos um item dos 252 que não está de acordo
com a norma.
Por que nas fazendas isso seria uma exorbitância?
Imagine que um determinado trabalhador seja responsável por tirar leite
das vacas da fazenda. Um belo dia, o dono acha que o mais adequado é mudar
a função do empregado e ele passa a, digamos, ser encarregado de
roçar o pasto. Parece simples, mas não é. A norma legal determina
que, para mudar de função, o trabalhador precisa antes de mais nada
se submeter a um exame médico, que é apenas o primeiro passo de
um complexo processo de transferência de uma vaga para outra. Bem, essa
exigência seria burocrática e custosa até mesmo em um escritório
de contabilidade na cidade. Nas pequenas e médias fazendas, que são
80% das propriedades rurais brasileiras, ela é um absurdo. Quem não
sabe que, nessas fazendas, o mesmo trabalhador costuma exercer diversas funções
no decorrer do dia? Ele tira leite de manhã cedo, trata das galinhas às
10 horas, às 4 da tarde cuida dos porcos e depois vai roçar o pasto.
Outras regras abusivas e difíceis de ser cumpridas à risca por todos
os fazendeiros são as que determinam as dimensões exatas dos beliches,
a espessura dos colchões ou a altura das mesas nos refeitórios.
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| "Quero
fazer um desafio aos ministros: administrar
uma fazenda de qualquer tamanho em uma nova
fronteira agrícola e aplicar as leis
trabalhistas, ambientais e agrárias
completas na propriedade" |
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Um
produtor pode ser acusado de manter trabalho escravo apenas por descumprir detalhes
como esses?
Sim. A Organização Internacional do Trabalho define
o trabalho forçado como aquele feito sob armas, com proibição
de ir e vir ou sem salário. Isso, sim, é trabalho escravo, e quem
o pratica deve ir para a cadeia. O problema é que, pelas normas em vigor
no Brasil, um beliche fora do padrão exigido pode levar o fazendeiro a
responder por maus-tratos aos empregados. A NR-31 é uma punição
à existência em si da propriedade privada no campo. Não estou
fazendo a defesa dos que maltratam funcionários ou dos que lançam
mão de trabalho infantil. Essa gente tem de ser punida mesmo. Ponto. Estou
chamando atenção para o absurdo. Imagine a seguinte situação:
é hora do almoço, o trabalhador desce do trator, pega a marmita
e decide comer sob uma árvore. Um fiscal pode enquadrar o fazendeiro por
manter trabalho escravo simplesmente porque não providenciou uma tenda
para o almoço do tratorista. Isso é bem diferente de chegar a uma
fazenda e encontrar o pessoal todo comendo sob o sol inclemente. São duas
situações diferentes. Mas elas provocam as mesmas punições.
Isso confunde o pessoal do campo, que passa a se sentir sempre um fora da lei.
Meu ponto de vista é que deveria prevalecer o bom senso. Nas minhas palestras,
eu recomendo aos produtores rurais que avaliem a comida, o banheiro e o alojamento
dos empregados por um critério simples: se eles forem bons o bastante para
seus próprios filhos e netos, então eles são adequados também
para os empregados.
Qual o interesse do governo em punir o
produtor rural?
Isso é um componente ideológico da esquerda
fundamentalista que conseguiu se manifestar no atual governo. Essa parcela atrasada
da esquerda acredita apenas no coletivo e não admite a produção
individual, privada. O que está sendo feito neste país me deixa
indignada e triste, pois não é fácil de desmanchar: estão
jogando os pequenos contra os grandes produtores. Isso está acontecendo
no IBGE, cujo Censo Agropecuário está cheio de informações
falsas, desonestas, distorcidas por razões puramente ideológicas.
O que há de errado no censo?
A melhor definição
de agricultura familiar, utilizada até pelo Banco Central, é baseada
em três princípios. Primeiro, o tamanho da terra, que deve ser de,
no máximo, quatro módulos rurais. Segundo, que utilize mão
de obra predominantemente familiar. Terceiro, que a maior parte do faturamento
da família venha dessa propriedade. O que o IBGE fez neste governo? Matou
os critérios de mão de obra e de renda da propriedade. Com isso,
todos os proprietários com até quatro módulos entraram na
categoria agricultura familiar. Qual o objetivo disso? Desmoralizar o agronegócio,
a grande empresa e a propriedade privada.
Por que isso desmoraliza
o agronegócio?
Para dar a ideia de que os pequenos produtores sustentam
a produção nacional, mas recebem menos crédito agrícola
que os médios e grandes, que exportam tudo. Esse argumento, baseado em
estatísticas distorcidas, não traz ganhos ao país. Concordo
que precisamos encontrar as diferenças entre os agricultores, mas elas
devem se basear em produção e renda, para amparar toda a cadeia
e não provocar um conflito entre pequenos e grandes. Afinal, existe propriedade
pequena no Paraná que é muito mais produtiva e rica do que uma grande
fazenda no Centro-Oeste. Além disso, as informações equivocadas
do IBGE dão prejuízo ao setor, porque não se pode fazer planejamento
estratégico de investimento em cima de previsões falsas. Em todos
os países desenvolvidos, a pesquisa pública é um santuário.
Nem a ditadura militar interferiu nos institutos de pesquisa. O IBGE e o Ipea
foram aparelhados pelos ideólogos dos ministérios do Desenvolvimento
Agrário e do Meio Ambiente.
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| "Temos uma lei que
garante o investimento em portos e um decreto que
o cerceia. Só encontro duas explicações:
o preconceito contra a empresa privada ou
a proteção a um cartel existente" |
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Essa é uma postura
do governo Lula em geral ou apenas de uma minoria no poder?
Há pessoas
no governo que não são xiitas. O ministro do Desenvolvimento Agrário (Guilherme Cassel) e o ex-titular da Pasta de Meio Ambiente (Carlos
Minc), contudo, em vez de encontrar soluções para os problemas,
passaram os últimos anos dividindo o país para aumentar a sua torcida.
Eles não tinham o direito de fazer isso. Um ministro de estado deve proteger
o Brasil, não apenas alguns brasileiros. Quero fazer um desafio aos ministros
do Trabalho, do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário: que eles administrem
uma fazenda de qualquer tamanho em uma região de nova fronteira agrícola
e tentem aplicar as legislações trabalhistas, ambientais e agrárias
completas na propriedade. Mas não podem fazer milagre, porque nós
vamos acompanhar. Se, depois de três anos, eles conseguirem manter o emprego
e a renda nessa propriedade, fazemos uma vaquinha, compramos a terra para eles
e damos o braço a torcer, reconhecendo que estavam certos.
O
que mais atrapalha os negócios no campo?
A insegurança jurídica.
Se não há estabilidade nem confiança, as plantas e a produção
de carne recusam-se a prosperar. Nas empresas urbanas é a mesma coisa.
Não se podem utilizar bandeiras sociais ou ambientais para ferir a segurança
jurídica. Não vejo problema em dar terras aos índios, aos
quilombolas ou aos sem-terra. Mas tudo isso precisa ser feito em concordância
com o direito de propriedade. Neste mês, apresentei uma proposta ao Ministério
da Justiça para estabelecer um Plano Nacional de Combate às Invasões. Existem planos do governo para coibir o tráfico de drogas, a venda
ilegal de animais silvestres e a pirataria. Por que não combater também
o crime organizado no campo?
A senhora é contra a reforma
agrária?
Não. Sou contra a invasão. Sou contra tomar
a terra com um índice de produtividade imbecil, que não é
compatível com a atualidade da gestão do empresariado brasileiro.
Hoje, os saudosistas de esquerda destroem pé de laranja e invadem órgãos
de pesquisa porque o latifúndio improdutivo não existe mais. Os
radicais não se conformam com isso. Há quarenta anos, éramos
um dos maiores importadores de comida do mundo. Atualmente, não só
somos autossuficientes como nos tornamos o segundo maior exportador de alimentos.
O que o produtor rural quer do próximo presidente?
Precisamos que o próximo presidente entenda que dividir o país
entre pequenos e grandes é uma visão simplista e ruinosa. É
necessário que ele saiba que existe uma classe média rural que não
tem a escala das grandes empresas agrícolas, mas que também não
se enquadra na agricultura familiar. Essa classe média rural é vulnerável
às oscilações de preços e de clima, mas não
tem condições de se proteger sozinha disso. Nesse ponto, o estado
pode ajudar. Mas a primeira pergunta que faremos aos candidatos será: o
que eles pensam a respeito da propriedade privada?
Que medidas
podem servir a todos esses três estratos sociais da agricultura?
A
medida universal é investir na infraestrutura. Se a movimentação
nos portos continuar crescendo à taxa atual, de 12% ao ano, em oito anos
nós precisaremos de um outro Brasil portuário. A ironia é
que o Brasil tem uma das leis de portos mais avançadas do mundo. Mas, em
2008, o governo aprovou um decreto que vem impedindo novos investimentos privados
na construção de portos. O decreto interessa basicamente a empresários
que participaram da privatização dos portos públicos, sendo
Daniel Dantas o maior deles, e que não querem a abertura da concorrência.
Isso faria cair as tarifas, e os portos ficariam mais eficientes. Para resumir,
temos uma lei que garante o investimento e um decreto que o cerceia. Só
encontro duas explicações possíveis: o preconceito contra
a empresa privada ou a proteção a um cartel existente.
A
senhora sonha em ser candidata a vice-presidente na chapa de José Serra?
Preciso deixar que a decisão partidária prevaleça. Ninguém
pode querer ser vice de alguém. As pessoas querem ser o personagem principal,
aquele que terá a caneta na mão para implementar as suas decisões,
ideais e planos. O vice é apenas um coadjuvante. Mas fico orgulhosa quando
meu nome é citado por eu ser de um estado novo, o Tocantins, por ser mulher
e por representar o setor agropecuário, que nunca teve muito espaço
nas chapas majoritárias e na política nacional.
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