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Tales
Alvarenga
Um
estopim de atritos
"E
se, por acaso,
os narcotraficantes também
perceberem uma oportunidade de ganhos com
o uso dos inimputáveis povos indígenas?"
Em
períodos diversos dos últimos cinco séculos,
os índios foram massacrados nas Américas. Os conquistadores
europeus não pareciam seguros a respeito da exata localização
do índio na escala zoológica. Na dúvida, quando
não podiam explorar, executavam. Nos Estados Unidos, chegou-se
a distribuir roupas contaminadas por doenças transmissíveis
a populações indígenas. No Brasil, estima-se
que eles seriam 3 milhões no Descobrimento. Hoje, seus aglomerados
somam 15% do total original. O índio brasileiro foi perseguido
por bandeirantes, tornou-se caça de traficantes de escravos,
morreu nas mãos de posseiros de terra e, quando aculturado,
perdeu a identidade.
Houve
um genocídio nas Américas e o Brasil é um dos
países que procuraram proteger as tribos através de
legislação especial. Não se faz isso como forma
de compensar esses povos, porque o que aconteceu é irreparável.
O objetivo é evitar que os índios continuem sofrendo
atrocidades. Até aí, tudo muito bem. O que não
se deve fazer é conferir aos índios uma posição
de inimputabilidade que os coloque acima de qualquer lei, quando
são eles os que cometem crimes. É exatamente isso
que está acontecendo no órgão máximo
do setor no governo, a Fundação Nacional do Índio
(Funai). Em Rondônia, 100 cintas-largas acabam de assassinar
29 garimpeiros de diamante a tiros, flechadas e golpes de borduna,
na reserva indígena Roosevelt. Muitos dos garimpeiros foram
mortos amarrados. E o que diz o presidente da Funai, Mércio
Pereira Gomes? Eis o que ele diz: "Não posso ficar condenando
os índios por defenderem seu território. Os garimpeiros
sabiam do risco".
Segundo
o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, os índios
devem ser investigados e julgados "dentro de suas peculiaridades".
Pode-se deduzir daí que, sendo selvagens e ingênuos
como criancinhas, devem ser julgados como tal. As peculiaridades,
no caso dos cintas-largas, é que eles usam camisas pólo
e calças jeans, dirigem carros e fazem negócios de
diamantes com contrabandistas que pousam de avião em pistas
dentro da reserva. Segundo relatos locais, eles também coletam
diamantes e negociam participação naquilo que é
descoberto pelos garimpeiros. Teriam cometido o massacre por se
sentir lesados nessa participação.
O
índio é protegido por um estatuto legal diferente,
mas isso não significa que possa sair por aí fazendo
o que lhe der na cabeça. Pode-se entender a dificuldade do
governo em enfrentar desafios à lei que eclodem no fundo
da selva, especialmente quando as metrópoles estão
também passando por surtos de violência. O problema
está na atitude diante do desafio. Quando os ativistas do
Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra cometem crimes como invasão
e depredação de propriedade alheia, ocupação
forçada de prédios públicos e, às vezes,
captura de um ou outro refém, o governo, por simpatia ideológica,
finge que não vê. Até os índios percebem
esse acobertamento. Tanto que já estão falando em
reunir as forças do "Movimento Indígena" com o Movimento
dos Sem-Terra. Não é um projeto inocente. Já
existem hoje no Brasil 124 áreas indígenas em conflito,
segundo a Funai. Há aí um estopim de atritos. Pior:
muitas reservas indígenas ficam em áreas da Amazônia
usadas pelo narcotráfico. Apenas para efeito de raciocínio:
e se, por acaso, os narcotraficantes também perceberem uma
oportunidade de ganhos com o uso dos inimputáveis povos indígenas?
O que dirá a Funai?
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