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Ponto
de vista: Lya Luft
Uma afirmação
dura
"Cada
vez que um de nós consome uma droga
qualquer, está botando no cano de uma arma
a
bala perdida ou não que vai
matar uma
criança, uma mãe de família, um trabalhador"
Porque
somos imperfeitos podemos melhorar.
A
perfeição seria o tédio, e desse, sim, eu poderia
morrer. Bocejar até o final, contemplando a ordem celeste,
os anjos rechonchudos naquela disciplina: ninguém dando um
escorregão, ninguém botando a língua para São
Pedro. Quando era criança, eu morria de medo dessa ordem
impenetrável na qual não haveria lugar para mim.
Ilustração Ale Setti
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Outro dia conheci um grupo de homens e mulheres dos mais variados
níveis culturais e sociais, que fizeram da imperfeição
a sua razão de vitória. Das pedras que tiveram de
quebrar, construíram seu caminho, alguns até seu castelo.
Gente que se livrou ou ainda luta para se libertar
da dependência química. Senti-me privilegiada por estar
com eles, mais para aprender do que para falar. Percebi novamente
quanto nós, que não vivemos esse drama, tendemos a
nos portar como eternos adolescentes, facilmente preconceituosos,
rápidos em nosso julgamento e superficiais na nossa compreensão.
E quanto disfarçamos nossos próprios medos em lugar
de enfrentá-los como o fazem esses anônimos guerreiros.
Fingimos
ser superiores, batendo grandes papos sobre dinheiro, futebol, política.
Não estamos nem aí. Botamos tapa-olhos para não
enxergar o que se passa, vestimos máscaras para que a verdade
não nos cuspa na cara e nos defendemos do rumor que nos ameaça
botando fones de ouvido enquanto caminhamos na esteira para ficar
em forma.
Mas,
individualmente, temos medo e solidão. Como país,
estamos acuados. A violência é generalizada, o narcotráfico
nos deixa desprotegidos, mais pessoas foram assassinadas por aqui
do que nas guerras ao redor do mundo nos últimos anos. Estão
cada vez mais altos os muros do medo e do silêncio.
A
gente se lamenta, dá palpites e entrevistas, organiza seminários.
Resultado? Parece que nenhum. Talvez seja mesmo melhor não
saber a quem a situação interessa, nem por que sugestões
e explicações aparecem e desaparecem das páginas
de jornal e telas de televisão.
Quando
nada se pode fazer, só nos resta a resignação.
Mas sou da tribo (não tão pequena) dos que não
se conformam. Não acredito em revolução, a
não ser pessoal. Em algumas coisas sou antipaticamente individualista.
Não sou boazinha, e quem julga meus livros bonzinhos está
lendo com os óculos da sua própria burrice. Mas acho
que, quando o complicado não resolve, pode-se tentar o mais
simples. Às vezes ser simples é ser original.
Cada
vez que, seja por trágica dependência, seja por aquilo
que minha mãe chamava "fazer-se de interessante", um de nós
consome uma droga qualquer (mesmo o cigarrinho de maconha dividido
com a turma), está botando no cano de uma arma a bala
perdida ou não que vai matar uma criança, uma
mãe de família, um trabalhador. É uma afirmação
dura? É. A vida pode ser muito dura e, o que é pior,
muitas vezes por responsabilidade nossa.
Num
jantar, há muitos anos, um conhecido disse que costumava
fazer-se de pai amigão, fumando maconha com os filhos adolescentes.
Um dos meninos viria a sofrer gravíssimos problemas de dependência
pelo resto da vida. O pai era culpado? Não creio. A vida
não é tão simples, nem eu sou tão moralista.
Mas talvez a gente brinque demais na beira do abismo.
Voltando
ao começo deste artigo: aquelas pessoas que lutavam contra
a dependência química renovaram minha convicção
de que, no que se refere à questão da violência
ligada ao narcotráfico, sermos os eternos queixosos que não
fazem nada é outra forma de violência perigosa
porque sutil. É colaborar com os que vão nos atingir
no coração: diretamente com uma bala, ou com a morte
praticamente anunciada de alguém que amamos.
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