Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A cheirada, a tragada
e o sangue

O conflito na Rocinha trouxe à baila o papel do
consumidor nos desatinos do tráfico
de drogas

Def Yuri, colunista do site Viva Favela, já citado aqui na semana passada, chama de "desgraçados" os consumidores eventuais de drogas. Os "desgraçados", segundo ele, "alimentam, com seu prazer egoísta", a guerra que tanto sangue tem derramado nos morros. Há duas espécies de consumidores. A primeira é a dos viciados, também chamados de dependentes químicos. Estes são doentes, precisam de tratamento e merecem compaixão. A segunda é a dos consumidores eventuais, também chamados de "recreativos". Estes são os "desgraçados". O conflito entre os grupos rivais de traficantes é pelo privilégio de abastecê-los. "Depois certamente assistirão ao resultado do estrago pela televisão, jornais e certamente se esconderão (são covardes por natureza) e seguirão com sua fúria consumidora para outra comunidade, onde, tal qual parasitas, continuarão institucionalizando as ditaduras do medo, dor e opressão", escreve o colunista.

O conflito das últimas semanas na Rocinha trouxe à luz um personagem nem sempre merecedor da atenção devida, quando se discutem as guerras nas favelas – o usuário de drogas. De modo mais inovador, trouxe ao debate uma questão antes circunscrita aos especialistas – a distinção entre o usuário viciado e o recreativo. E, mais inovador ainda, dirigiu o foco para o segundo. Na mesma linha de Def Yuri, a psiquiatra Maria Thereza de Aquino, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, disse ao jornal O Globo: "Ele [o usuário recreativo] usa droga como quem toma um ou dois chopes. Não é doente. É responsável porque usa droga de forma irresponsável. São os verdadeiros inimigos da sociedade".

Trata-se de uma revolução copernicana no debate. O senso comum considerava o usuário eventual como o elo menos nocivo da cadeia. Pelo menos enquanto se mantém eventual, ele não é afetado por problema de saúde. Em princípio, portanto, nem está sujeito aos gestos tresloucados, com freqüência descambando para a violência, nem representa ônus para os sistemas públicos de saúde. Tal qual vem evoluindo, no entanto, o debate inverte a equação. Como responsabilizar o viciado se, doente, falta-lhe a consciência dos atos? Já o outro usuário, este encontra-se – e ele é o primeiro a fazer questão de afirmá-lo – em total posse das faculdades mentais. Vai daí que empresta fôlego ao tráfico em plenas condições de saber o que está fazendo. Def Yuri, que escreve em nome da população das favelas, uma "gente trabalhadora, que apesar de tudo e de todos luta bravamente para sobreviver e poder exercer a sua cidadania", investe com fúria contra os consumidores da Zona Sul carioca. "Costumo dizer que uma cheirada é uma vida, que um bagulho é uma vida", escreve. Não a vida de quem cheira ou fuma – essa, diz, não o interessa. É a vida dos outros, dos que foram ficando no meio do caminho até que a droga chegasse à boca ou ao nariz do consumidor.

Note-se que, ao mencionar o "bagulho", o colunista do Viva Favela inclui os consumidores de maconha no pacote. A maconha costuma gozar de status privilegiado entre as drogas. Seu caso é parecido com o da cerveja, que, por artes de forte lobby, conseguiu ficar de fora da proibição de anúncio de bebidas alcoólicas antes de determinado horário na televisão. Tal qual a cerveja entre as bebidas, a maconha, entre as drogas, seria inocente como a água com açúcar, ou quase. Pode até ser menos nociva, embora isso não seja consenso entre os médicos. Resta o fato de que também é proibida. Portanto, depende de comercialização clandestina, e sendo assim é, tanto quanto a cocaína, objeto de lutas sangrentas por pontos-de-venda.

Que fazer? Há luz no fim do túnel? Apelos à consciência não resolvem essa questão. Não é pelo fato de ter sido trazido ao primeiro plano que o consumidor eventual mudará de hábitos. O mais óbvio dos remédios seria aquele que os traficantes mais temem: a legalização das drogas. Não há nisso contradição com o que ficou dito acima. Com a produção e o comércio às claras, o mercado ganharia uma ordem. E, pelo menos, a droga não mataria mais inocentes, como as populações faveladas hoje reféns da bandidagem. O ministro Gilberto Gil abriu uma brecha, na semana passada, para essa possibilidade, embora a anunciasse como quem pisa em ovos. "Como cidadão, eu posso ter algumas idéias", disse. "E uma delas, com que muita gente concorda, mas que é uma questão difícil, é o desaparecimento do tráfico com a liberação."

Esta saída talvez seja inevitável, a longo prazo. Algo precisa ficar claro, porém. Não se faz liberação num país só, e muito menos num país como o Brasil. O país que a fizer sozinho, ainda mais sendo econômica e politicamente frágil, como o nosso, virará um pária diante das outras nações, além de atrair para suas fronteiras indesejáveis de várias espécies. A liberação, quando e se vier, terá de ser por consenso e sob regras internacionais – lideradas, segundo impõe o realismo político, pelos Estados Unidos.

 
 
 
 
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