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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
A
cheirada, a tragada
e o sangue
O
conflito na
Rocinha trouxe à baila o papel do
consumidor nos desatinos do tráfico de drogas
Def
Yuri, colunista do site Viva Favela, já citado aqui na semana
passada, chama de "desgraçados" os consumidores eventuais
de drogas. Os "desgraçados", segundo ele, "alimentam, com
seu prazer egoísta", a guerra que tanto sangue tem derramado
nos morros. Há duas espécies de consumidores. A primeira
é a dos viciados, também chamados de dependentes químicos.
Estes são doentes, precisam de tratamento e merecem compaixão.
A segunda é a dos consumidores eventuais, também chamados
de "recreativos". Estes são os "desgraçados". O conflito
entre os grupos rivais de traficantes é pelo privilégio
de abastecê-los. "Depois certamente assistirão ao resultado
do estrago pela televisão, jornais e certamente se esconderão
(são covardes por natureza) e seguirão com sua fúria
consumidora para outra comunidade, onde, tal qual parasitas, continuarão
institucionalizando as ditaduras do medo, dor e opressão",
escreve o colunista.
O
conflito das últimas semanas na Rocinha trouxe à luz
um personagem nem sempre merecedor da atenção devida,
quando se discutem as guerras nas favelas o usuário
de drogas. De modo mais inovador, trouxe ao debate uma questão
antes circunscrita aos especialistas a distinção
entre o usuário viciado e o recreativo. E, mais inovador
ainda, dirigiu o foco para o segundo. Na mesma linha de Def Yuri,
a psiquiatra Maria Thereza de Aquino, coordenadora do Núcleo
de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas
(Nepad), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, disse ao jornal
O Globo: "Ele [o usuário recreativo] usa droga
como quem toma um ou dois chopes. Não é doente. É
responsável porque usa droga de forma irresponsável.
São os verdadeiros inimigos da sociedade".
Trata-se
de uma revolução copernicana no debate. O senso comum
considerava o usuário eventual como o elo menos nocivo da
cadeia. Pelo menos enquanto se mantém eventual, ele não
é afetado por problema de saúde. Em princípio,
portanto, nem está sujeito aos gestos tresloucados, com freqüência
descambando para a violência, nem representa ônus para
os sistemas públicos de saúde. Tal qual vem evoluindo,
no entanto, o debate inverte a equação. Como responsabilizar
o viciado se, doente, falta-lhe a consciência dos atos? Já
o outro usuário, este encontra-se e ele é o
primeiro a fazer questão de afirmá-lo em total
posse das faculdades mentais. Vai daí que empresta fôlego
ao tráfico em plenas condições de saber o que
está fazendo. Def Yuri, que escreve em nome da população
das favelas, uma "gente trabalhadora, que apesar de tudo e de todos
luta bravamente para sobreviver e poder exercer a sua cidadania",
investe com fúria contra os consumidores da Zona Sul carioca.
"Costumo dizer que uma cheirada é uma vida, que um bagulho
é uma vida", escreve. Não a vida de quem cheira ou
fuma essa, diz, não o interessa. É a vida dos
outros, dos que foram ficando no meio do caminho até que
a droga chegasse à boca ou ao nariz do consumidor.
Note-se
que, ao mencionar o "bagulho", o colunista do Viva Favela inclui
os consumidores de maconha no pacote. A maconha costuma gozar de
status privilegiado entre as drogas. Seu caso é parecido
com o da cerveja, que, por artes de forte lobby, conseguiu ficar
de fora da proibição de anúncio de bebidas
alcoólicas antes de determinado horário na televisão.
Tal qual a cerveja entre as bebidas, a maconha, entre as drogas,
seria inocente como a água com açúcar, ou quase.
Pode até ser menos nociva, embora isso não seja consenso
entre os médicos. Resta o fato de que também é
proibida. Portanto, depende de comercialização clandestina,
e sendo assim é, tanto quanto a cocaína, objeto de
lutas sangrentas por pontos-de-venda.
Que
fazer? Há luz no fim do túnel? Apelos à consciência
não resolvem essa questão. Não é pelo
fato de ter sido trazido ao primeiro plano que o consumidor eventual
mudará de hábitos. O mais óbvio dos remédios
seria aquele que os traficantes mais temem: a legalização
das drogas. Não há nisso contradição
com o que ficou dito acima. Com a produção e o comércio
às claras, o mercado ganharia uma ordem. E, pelo menos, a
droga não mataria mais inocentes, como as populações
faveladas hoje reféns da bandidagem. O ministro Gilberto
Gil abriu uma brecha, na semana passada, para essa possibilidade,
embora a anunciasse como quem pisa em ovos. "Como cidadão,
eu posso ter algumas idéias", disse. "E uma delas, com que
muita gente concorda, mas que é uma questão difícil,
é o desaparecimento do tráfico com a liberação."
Esta
saída talvez seja inevitável, a longo prazo. Algo
precisa ficar claro, porém. Não se faz liberação
num país só, e muito menos num país como o
Brasil. O país que a fizer sozinho, ainda mais sendo econômica
e politicamente frágil, como o nosso, virará um pária
diante das outras nações, além de atrair para
suas fronteiras indesejáveis de várias espécies.
A liberação, quando e se vier, terá de ser
por consenso e sob regras internacionais lideradas, segundo
impõe o realismo político, pelos Estados Unidos.
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