|
|
Especial
Como pegar um corrupto
Manual
que ensina a farejar fraudes
no poder público já ajudou a cassar
prefeito e vereadores

Monica
Weinberg
Ricardo Benichio
 |
"AVENTURA
ROMÂNTICA"
Trevisan, um dos fundadores da associação: às vezes dá certo,
sim |
A pequena cidade de Ribeirão Bonito, no interior de São
Paulo, tem 11.000 habitantes e apenas uma sala de cinema, atualmente
desativada. Se suas dimensões parecem modestas, sua importância
simbólica para o país não. Ribeirão
Bonito virou referência nacional no combate à corrupção.
A história começou quando, diante dos rumores de malversação
de dinheiro público na prefeitura, um grupo de cinco ex-moradores
do município, incluindo o empresário Antoninho Trevisan,
sócio da consultoria Trevisan Auditores e Consultores, de
São Paulo, decidiu arregaçar as mangas e investigar
o assunto por conta própria. Reunidos em uma ONG, a Amigos
Associados de Ribeirão Bonito (Amarribo), começaram
um trabalho que, depois de envolver o Ministério Público
e mobilizar toda a cidade, incluindo o padre, terminou com a cassação
do prefeito e de um vereador por improbidade administrativa. A experiência
rendeu ainda outro fruto: baseados nela, os membros da associação
montaram uma cartilha que ensina moradores de outros municípios
a detectar a existência de corrupção nos poderes
municipais e ajuda a erradicá-la (leia
quadro abaixo). A cartilha foi distribuída
em 4.600 cidades brasileiras e, desde o ano passado, já ajudou
pelo menos três delas a livrar-se de um punhado de "saúvas"
graúdas e esfomeadas.
Em
um caso recente, a iniciativa partiu de um grupo de estudantes e
líderes comunitários da cidade de Juazeiro do Norte,
no Ceará. Com o apoio de um vereador, eles conseguiram comprovar
que o presidente da Câmara Municipal, José João
Alves de Almeida, tinha o hábito de engordar seu salário
com dinheiro público. Como corruptos acostumados à
impunidade nem sempre se dão ao trabalho de inventar novos
métodos de roubalheira, o escolhido pelo vereador foi exatamente
um dos previstos na cartilha da Amarribo. Almeida usou empresas-fantasma
para desviar, rumo ao próprio bolso, dinheiro supostamente
destinado ao pagamento de serviços prestados ao poder público.
Para
chegar a essa conclusão, os estudantes de Juazeiro, cartilha
em punho, recolheram notas fiscais emitidas pela Câmara e
buscaram na junta comercial da cidade os endereços das empresas
favorecidas. Ao checarem os locais, descobriram que onde deveriam
estar instaladas empresas fornecedoras de material para a Câmara
existiam apenas casas abandonadas. "Fotografamos e saímos
em disparada", conta a estudante Aparecida Alves, 25 anos. Com as
provas na mão, o grupo bateu à porta do Ministério
Público. Passados sete meses, o vereador responde, além
do processo por improbidade administrativa, a um inquérito
da Polícia Federal. Fuça daqui, fuça dali,
surgiram indícios de que ele vinha praticando uma nova modalidade
de saque ao contribuinte: a agiotagem com dinheiro público.
Segundo a denúncia, o vereador Almeida emprestava o dinheiro
da Câmara a juros: devolvia o principal e embolsava os "rendimentos".
A
cartilha da Amarribo, reconhecem seus autores, tem um raio de ação
limitado. Parte das dicas que ela propõe é aplicável
somente em cidades até médio porte. Fiscalizar se
a merenda escolar de fato inclui a carne que a prefeitura diz ter
comprado, por exemplo, é tarefa impossível para moradores
de metrópoles com a complexidade de São Paulo ou do
Rio de Janeiro. "A corrupção nas pequenas e médias
cidades brasileiras é mais ostensiva e primária do
que nas grandes", diz o advogado José Chizzotti, um dos fundadores
da associação. Com três anos de existência,
a Amarribo já inspirou a criação de outras
31 ONGs semelhantes no país. O propósito é
o mesmo: estimular cidadãos a fiscalizar e, eventualmente,
ajudar a punir autoridades que, eleitas para administrar o dinheiro
público, resolvem embolsá-lo. "A corrupção
está tão ostensiva que não dá mais para
ficar de fora", diz Regina Paiva Ramos, uma das articuladoras do
que pretende ser mais uma ONG de caça às saúvas.
Moradora de São Sebastião, Litoral Norte de São
Paulo, ela faz parte do grupo de moradores que resolveram procurar
a Amarribo no decorrer da investigação que, na semana
pasada, culminou no decreto do bloqueio dos bens e da quebra do
sigilo bancário do prefeito da cidade, Paulo Julião
(PSDB) acusado de envolvimento em licitações
fraudulentas. "No começo, éramos vistos como cinco
cavaleiros que haviam embarcado numa aventura romântica e
divertida de caça à corrupção", diz
Trevisan. "As pessoas estão acostumadas a achar que não
vai dar certo." Como se vê, muitas vezes dá, sim.
|
Caça
à saúva
Cartilha
criada pela ONG Amigos Associados de Ribeirão
Bonito ensina como detectar indícios de corrupção
nos poderes municipais. Com base nela, pelo menos três
cidades brasileiras já conseguiram laçar
autoridades corruptas. Conheça as dicas principais
FIQUE
ATENTO AOS INDÍCIOS DE ROUBALHEIRA
Resistência à prestação
de contas, aprovação de amigose parentes
em concursos públicos e ostentação
de sinais de riqueza por parte das autoridades municipais
ou de seus familiares são os indicativos mais
óbvios da existência de maracutaia na prefeitura
BUSQUE
PROVAS
Um caminho simples é conferir se há
registro legal de empresas que prestam serviços
à prefeitura. O uso de empresas de fachada
de publicidade ou organização de eventos,
por exemplo é um recurso empregado com
freqüência por quem quer desviar dinheiro
público
MANTENHA
O FOCO
Concentrar esforços na busca de uma única
e boa prova é mais produtivo do
que tentar investigar todas as denúncias que
venham a surgir. A comprovação de uma
simples compra sem nota fiscal, por exemplo, já
é um bom começo
PROCURE
O MINISTÉRIO PÚBLICO
É o caminho mais ágil e mais acessível.
O órgão tem poder para solicitar informações,
requerer documentos e tomar depoimentos dos suspeitos
BRIGUE
POR UMA
"CPI"
Procure vereadores e pressione-os a trabalhar pela instauração
de uma comissão que apure as denúncias
na Câmara. Na prática, é a via mais
rápida para cassar um mandato
FAÇA
BARULHO
Procure a imprensa, crie um grupo para acompanhar
as investigações e organize eventos que
ajudem a manter o caso vivo. As
medidas também servirão para protegê-lo
de eventuais retaliações por parte das autoridades
suspeitas |
|
|