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Diogo
Mainardi
Sou
culpado, confesso
"Eu
supunha que minha única contribuição para
o
mundo do crime fosse entregar meu relógio e
minha carteira à bandidagem.
Mas não. Minha
culpa é me eximir de meus deveres sociais.
Os
narcotraficantes atiram em mim porque não dou
aulas de balé ou teatro na favela"
Acabo
de matar de fome uma criancinha no interior do Acre. Não,
não foi a primeira. Matei muitas outras no passado. E, confesso,
continuarei a matar. Enquanto elas morrem, passeio de bicicleta
com meu filho pela orla de Ipanema, indiferente a tudo. Como é
que ainda não fui preso? Como é que ainda não
fui linchado? Bem que eu mereceria.
Quem
me acusou de matar criancinhas no interior do Acre foi a Fundação
Getúlio Vargas. De acordo com seu mais recente Mapa da Fome,
um terço da população brasileira vive num estado
de miséria absoluta. Pelos cálculos da FGV, erradicar
toda essa miséria é muito mais simples e barato do
que parece. Basta que cada endinheirado como eu entregue a um miserável
a quantia de 14 reais. Isso significa que aquela criancinha no interior
do Acre só morreu de fome porque cometi a mesquinharia suprema
de negar-lhe uns trocados. Juro que não foi de propósito.
Estou disposto a dar bem mais que 14 reais para expiar meus crimes
sociais. A FGV só precisa explicar a quem devo dá-los.
Ao mendigo no farol? Ao ministro Patrus Ananias? À Pastoral
da Terra? Outra pergunta: posso descontar os 14 reais do imposto
de renda? Porque eu sempre pensei, erroneamente, que os impostos
servissem para isso: impedir que as criancinhas morressem de fome
no interior do Acre. Aguardo esclarecimentos urgentes da FGV.
Além
de matar criancinhas de fome, eu também sou culpado por boa
parte dos assassinatos no Rio de Janeiro. É o que afirmam
todas as pessoas de bem da cidade. Elas apontam o dedo para mim
e me acusam de ser cúmplice do narcotráfico, com o
argumento de que a responsabilidade pela violência não
é só dos bandidos, mas da sociedade como um todo.
Até hoje eu supunha que minha única contribuição
para o mundo do crime fosse entregar meu relógio e minha
carteira à bandidagem. Mas não. Para influentes figuras
da sociedade carioca, como Arnaldo Jabor e Gisela Amaral, todos
nós temos uma parcela de culpa. Inclusive eu. Minha culpa
é me eximir de meus deveres sociais. Os narcotraficantes
atiram em mim porque não dou aulas de balé ou teatro
na favela.
O
movimento Viva Rio dá aulas de balé e teatro na favela.
Na última quarta-feira, promoveu também o Dia do Carinho,
em que centenas de voluntários subiram o morro da Rocinha
para distribuir rosas a seus moradores. Não teria sido melhor
a polícia subir o morro com algemas? Os moradores da Rocinha
teriam agradecido. O logotipo do Dia do Carinho mostrava um negrinho
sorridente com um gorro de assaltante na cabeça. A mensagem
dos organizadores do evento era clara: se subirmos o morro com rosas,
vocês param de descê-lo com suas metralhadoras? Não
vejo nada de errado em tentar melhorar a vida dos favelados. Pelo
contrário. Mas sempre achei que era um erro atribuir a essas
associações beneméritas um papel na luta contra
a criminalidade. Imagino que os traficantes do Comando Vermelho
tenham todos os discos do AfroReggae. Imagino também que
suas filhas aprendam balé nos cursos oferecidos pelo Viva
Rio. Como não quero que Arnaldo Jabor e Gisela Amaral me
acusem de pactuar com a bandidagem, porém, telefonei ao Viva
Rio e me cadastrei para o Dia do Carinho, oferecendo-me para levar
uma rosa a um morador da Rocinha. Ainda bem que não me ligaram
de volta.
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