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Entrevista:
Raghuram
G. Rajan
"Não
culpem o FMI"
O
economista-chefe do Fundo diz que atribuir
ao órgão a culpa pelos males de um país é
"acusar o médico pela doença do paciente"
Monica
Weinberg
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Divulgação

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"As
pessoas que dizem que o FMI impõe
uma política cega e ideológica não
sabem que temos sido bastante flexíveis,
inclusive com o Brasil" |
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Na
qualidade de economista-chefe do FMI, a missão do indiano
Raghuram G. Rajan é produzir análises que subsidiem
o órgão em suas decisões. Na semana passada,
ele divulgou um relatório do Fundo com as perspectivas para
a economia mundial em 2004 sob a luz da provável elevação
dos juros americanos. Segundo o documento, o Brasil deve apresentar
uma das menores taxas de crescimento entre os países emergentes,
tem uma dívida pública "ainda preocupante", mas está
"no caminho de uma sólida recuperação". Aos
40 anos, Rajan é autor do livro Salvando o Capitalismo
dos Capitalistas, recém-lançado no Brasil, em
que defende o sistema como "o mais justo de todos". De Washington,
ele disse a VEJA que o FMI não é infalível
e "cometeu erros" na Ásia e na América Latina. Afirmou,
no entanto, que se irrita quando, ao desembarcar em um país,
o órgão é recebido "como o grande culpado pelo
subdesenvolvimento". "Somos acionados quando um país enfrenta
problemas. No meio da crise, olham para nós como os deflagradores
da má situação."
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O senhor acha que o FMI errou na América Latina?
Rajan Reconheço que nem sempre o trabalho na América
Latina funcionou. Pegue o caso da Argentina. Recentemente, o FMI
concluiu que, se a Argentina tivesse poupado dinheiro quando seu
crescimento econômico era estratosférico, não
teria terminado como terminou. E o Fundo deveria ter orientado o
país nesse sentido. Outras análises autocríticas
mostram que o FMI também pode ter falhado na América
Latina ao impor ajustes fiscais rígidos demais e, com isso,
limitado seu crescimento.
Veja
Inclusive no caso do Brasil?
Rajan A responsabilidade do Fundo não é
clara. É verdade que o governo brasileiro ficou atado nos
últimos anos, sem dinheiro para investir, e que isso prejudicou
o crescimento econômico do país. Mas não dá
para jogar toda a culpa no FMI. Temos de lembrar que o orçamento
brasileiro é de natureza inflexível. O dinheiro já
surge quase todo carimbado, inclusive com compromissos previstos
na Constituição. Da mesma maneira que um médico
que cuida de um paciente não pode ser acusado de causar sua
doença, o FMI não é o culpado pelos problemas
dos países que tenta ajudar.
Veja
O senhor não acha que, se o FMI atendesse ao pedido
do governo brasileiro para flexibilizar o cálculo fiscal,
o país teria mais chances de crescer?
Rajan O excesso de rigidez às vezes atrapalha,
mas às vezes ele é necessário para garantir
estabilidade econômica e sustentabilidade da dívida.
No caso mais recente do Brasil, até que temos sido bastante
flexíveis. O governo brasileiro procurou o FMI dizendo que
queria colocar dinheiro num amplo programa de saneamento básico.
O Fundo avaliou o pedido e decidiu reduzir a conta do superávit
primário para viabilizar esse investimento. As pessoas que
dizem que o FMI impõe uma política cega e ideológica
a países como o Brasil desconhecem que, sempre que consideramos
a flexibilização viável, optamos por esse caminho.
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As críticas ao FMI o irritam?
Rajan Fico irritado quando uma missão do FMI
desembarca num país da América Latina e escuta de
segmentos daquela sociedade que é o grande culpado pelo subdesenvolvimento
e pela pobreza. Isso não é verdade. O que acontece
é que o FMI é sempre acionado por um país quando
ele enfrenta alguma espécie de problema. Mas, no meio da
crise, acabam olhando para nós como os deflagradores da má
situação. É claro que às vezes erramos
e temos de ser criticados por isso. Na crise dos países asiáticos,
por exemplo, colocamos ênfase demais na consolidação
fiscal. Cometemos erros porque a economia não é uma
ciência exata.
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Como o senhor avalia a recente posição do
presidente da Argentina, Néstor Kirchner, que entrou em confronto
com o FMI até decidir pagar o que devia?
Rajan Felizmente, o governo argentino tomou a decisão
acertada: de honrar seu compromisso. Hoje é vital que um
país permaneça conectado à economia mundial
e não caia em isolamento. Tudo o que o FMI está tentando
fazer na Argentina é servir de intermediário na arranhada
relação do país com seus credores e garantir
uma negociação eficiente dessa dívida. Apenas
assim a Argentina conseguirá recuperar acesso aos mercados,
o que é essencial.
Veja
Quais são as conseqüências de um calote?
Rajan A reputação de bom pagador se desfaz
num estalar de dedos e leva tempo para ser reconstruída.
As seqüelas de um calote são profundas e duradouras.
Quando um país deixa de pagar o que deve ou mesmo ameaça
fazê-lo, como a Argentina, o dinheiro vindo de fora tende
a escassear. O país pode até viver durante um tempo
com reservas próprias. O problema é que, sem acesso
a financiamento, precisará pagar tudo o que compra à
vista, porque ninguém no mercado dará crédito
a um possível caloteiro. Um dia, a poupança vai terminar,
o país tentará rodar o chapéu para obter mais
dinheiro e encontrará as portas fechadas. Sem crédito
no mercado, é mais difícil crescer.
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O calote é sempre prejudicial ao país?
Rajan Francamente, não podemos afirmar que o calote
foi e será sempre prejudicial. A razão é simples:
não temos uma quantidade razoável de casos de moratórias
duradouras para confirmar a tese. Há exemplos na história
que podem até apontar para os benefícios de um calote,
como o dos Estados americanos que nos séculos XVIII e XIX
não honraram suas dívidas e conseguiram alcançar
prosperidade econômica. Mas perdura a dúvida: esses
Estados cresceram porque fizeram melhor uso do dinheiro que iria
embora com o pagamento da dívida ou conseguiram crescer apesar
disso? Não é possível tirar uma conclusão
a partir de um exemplo tão pontual. No entanto, mesmo sem
comprovação científica, a observação
me autoriza a afirmar que na economia do século XXI um país
tende a conseguir financiar o seu crescimento sozinho, queimando
suas reservas, apenas a curto e médio prazos. A longo prazo,
precisará colocar a casa em ordem, fazer valer seus compromissos,
ter solidez fiscal.
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Depois de duas décadas de baixo crescimento, o
senhor acha que o Brasil está no caminho certo para disputar
um lugar entre os países mais ricos?
Rajan Não tenho dúvidas sobre isso,
só não conseguiria precisar o tempo que levará
para chegar lá. Na minha avaliação, o Brasil
está se movimentando na direção correta. O
ponto é que, para um país crescer de forma sustentada
e evitar a tragédia dos ciclos interrompidos a cada nova
crise, precisa dispor de uma infra-estrutura sólida. Isso
implica a existência de um sistema judiciário regido
por leis equânimes, que seja confiável e garanta a
validade dos contratos. Implica ainda um mercado financeiro livre,
com regras transparentes e no qual haja um bom fluxo de informação
sobre todas as partes envolvidas numa negociação.
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Como a falta desses pilares pode atrapalhar?
Rajan Em países onde os tribunais ainda não
funcionam como deveriam e inexiste uma rede de informação
suficiente para dar segurança a quem negocia, as transações
acabam acontecendo entre um grupo reduzido de pessoas. Você
faz negócio com o irmão ou com o cunhado para escapar
do risco. Os efeitos para a economia são desastrosos, como
mostra a pesquisa que realizei durante mais de uma década.
Por outro lado, quando um país consegue superar esse estágio
mais primário do capitalismo, ele entra na trilha da prosperidade.
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De acordo com os seus estudos, em que estágio do
capitalismo está situado o Brasil?
Rajan Coloco Estados Unidos, Canadá, Inglaterra
e os países escandinavos no grupo dos mais abertos e transparentes,
em que o ambiente é o mais convidativo possível às
transações financeiras. Depois, vem o time intermediário,
nos quais as pessoas interessadas em fazer negócio vão
esbarrar com mais regras e menos transparência. Estão
aí países como Coréia do Sul, Taiwan e alguns
europeus. Os países da América Latina, como o Brasil,
ficam abaixo desses, mas ainda numa faixa mediana. Na lanterninha,
estão os africanos.
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Em seu último livro, Salvando o Capitalismo
dos Capitalistas, o senhor afirma que, quanto mais livre e vibrante
o mercado financeiro de um país, mais justo ele é.
Como assim?
Rajan As pesquisas indicam que, nas últimas
três décadas, o livre mercado talvez tenha sido a mais
importante ferramenta para retirar as massas da pobreza. A explicação
é que, quando o mercado é aberto e transparente, ele
dá crédito tanto aos ricos quanto aos mais pobres.
Há críticos dessa idéia que sustentam justamente
o contrário. Dizem que a distribuição de talento
é desigual entre os indivíduos e, como o mercado canaliza
recursos para os mais talentosos, ele contribui para acentuar a
desigualdade. Isso é uma besteira. Afinal, há talento
na pobreza e esses, que não receberiam um centavo em outro
sistema, passam a ter acesso a crédito.
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E o que dizer sobre países como o Brasil, onde
o acesso ao crédito é tão reduzido?
Rajan É verdade que a situação em
países como o Brasil torna o sistema de livre mercado mais
benéfico aos ricos do que aos pobres. Para as pessoas de
baixa renda, o mercado financeiro é um bicho-papão,
incapaz de operar em seu favor. Na prática, funciona assim
mesmo. Mas o problema aí não é do injusto sistema
capitalista. É, isso sim, resultado de uma deficiência
na administração do sistema. Quando ele está
em boa forma, é o mais justo de todos.
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É possível descrever quando um sistema de
mercado está em "boa forma"?
Rajan Digo o seguinte: a ausência de regras
torna o jogo desigual o excesso de normas ruins também
é prejudicial. Um mercado de fato livre e competitivo está
num delicado terreno que se situa entre os dois extremos: a ausência
de leis e a presença de um marco regulatório sufocante.
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Qual deve ser a contribuição do governo
para o funcionamento do livre mercado?
Rajan Os mercados funcionam melhor quando o governo apenas
coloca a moldura, mas não pinta o quadro. Quero dizer que
o Estado deve criar um arcabouço legal e trabalhar pelo seu
cumprimento, garantindo o contrato e o direito à propriedade.
Se intervir mais do que isso, causa ineficiência. Imagine
que você precisa comprar um bilhete aéreo e uma nova
companhia surge no mercado com tarifas atraentes. Seu primeiro pensamento
é: "Prefiro pagar mais pela segurança que terei numa
companhia conhecida". E se o governo tiver mecanismos para certificar
que a nova empresa aérea cumpre com a cartilha aérea
básica? Você vai preferir comprar a passagem lá
porque é mais barata. Nesse caso, a intervenção
do governo ajuda. Mas, e se o governo resolvesse impor mais uma
centena de regras para o simples ingresso da novata no mercado,
o que os empresários à frente do investimento pensariam?
"Talvez não valha a pena investir." O resultado é
péssimo para o sistema porque, agindo assim, o governo está
protegendo as grandes empresas já estabelecidas e desencorajando
a livre competição. Meus estudos comprovam que, nos
países em que o mercado é mais tutelado, a produtividade
é menor.
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Poderia citar exemplos?
Rajan Nos Estados Unidos, para proteger o mercado local,
o governo Bush impôs sobretaxas à importação
do aço. O que aconteceu: com a iniciativa, o preço
do produto nos Estados Unidos subiu, enquanto no resto do mundo
ele caiu. O efeito feriu em cheio a indústria americana que
usa o aço como matéria-prima, porque ela não
consegue mais competir em igualdade de condições com
as estrangeiras. Alguns empresários chegaram a ameaçar
até mudar suas fábricas de país. O governo
Bush alegou que tinha o objetivo de proteger os empregos americanos,
mas acabou colocando milhares deles em risco. É um exemplo
de como o governo pode ser uma pedra no sistema de livre mercado,
mesmo se dizendo ardoroso defensor dele.
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E como os próprios capitalistas se tornam uma ameaça
ao sistema de livre mercado?
Rajan Desde os tempos de John Rockefeller, os capitalistas
disparam críticas contra o livre mercado. Consideram o sistema
caótico e insuficientemente lucrativo. Como reação,
querem proteger-se sob o guarda-chuva do governo. Quando companhias
de petróleo pleiteiam menos impostos, fábricas de
aço clamam por subsídios ou a indústria farmacêutica
grita por uma excessiva proteção às patentes,
elas estão agindo como inimigos número 1 da economia
de mercado. São os capitalistas colocando o próprio
sistema em risco, e não a turma da esquerda antiglobalizante,
que tradicionalmente desempenha esse papel. Sobre isso, minha pesquisa
apontou para uma descoberta curiosa: as barreiras colocadas no mercado
são mais prejudiciais em países ricos do que nos mais
pobres.
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Por quê?
Rajan Porque, nos países em desenvolvimento, as
pessoas encontram mais brechas para furar as barreiras de entrada
no mercado. Há mais espaço para "jeitinhos" e corrupção.
Os países mais penalizados são os que impõem
legislações mais restritivas ao mercado e que, ao
mesmo tempo, conseguem fazê-las cumprir. É o caso da
Europa, onde as sociedades são mais corporativas e o mercado,
mais regulamentado. Nesse tipo de economia, fica difícil
para os mais jovens encontrar uma colocação ou abrir
um negócio próprio. A Europa está numa encruzilhada.
Os governantes reconhecem que precisam passar por uma reforma de
modo a estimular os empreendedores. Já perceberam que, se
permitissem uma concorrência mais livre, estariam gerando
mais emprego e crescendo a taxas mais animadoras. É a equação
que todos os países, inclusive o Brasil, deveriam perseguir.
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