Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Em foco: Gustavo Franco
Inflacionismo
não tem cura

"Algum inocente ainda acha que o desastre da
nossa distribuição de renda não tem nada a ver
com
a inflação e com o fato de que a correção
monetária é
coisa de rico?"


Ilustração Ale Setti


A discussão recente sobre o aumento da meta de inflação para o ano que vem é surrealista. Tudo se passa como se os parentes de um ex-alcoólatra estivessem deliberando que uma tacinha de vinho, quem sabe duas, não fariam mal nenhum. Essa gente não entende a tragédia do alcoolismo, ou do inflacionismo, e a importância da abstinência. Para entender, talvez seja bom recordar apenas um único número: 20 759 903 275 651%.

São vinte trilhões (!!!), setecentos e cinqüenta e nove bilhões, novecentos e três milhões, duzentos e setenta e cinco mil e seiscentos e cinqüenta e um por cento de inflação acumulada entre abril de 1980 e maio de 1995. São cerca de quinze anos. Abril de 1980 foi o primeiro mês em que a inflação, no acumulado de doze meses, superou 100%. Maio de 1995, com pouco menos de um ano de Plano Real, foi o último.

Pode haver vida econômica inteligente num país com tanta inflação? Será que existe algum inocente que acha que o desastre representado pela nossa distribuição de renda não tem a ver com essa inflação toda e com o fato de que correção monetária sempre foi coisa de rico? Será que essa gente não entende a extensão da doença e das seqüelas que o vício deixou?

São muitos os casos de hiperinflação neste planeta, 24 no total, sendo que é considerado "híper" o episódio em que a inflação superou 50% mensais em pelo menos dois meses. Foram dezesseis casos nos anos 1990 (dos quais cinco na América Latina, um deles o Brasil, três na África, oito em repúblicas da ex-União Soviética), três depois da II Guerra Mundial e cinco depois da I Guerra Mundial.

Cada caso tem a sua história, são fascinantes as comparações. O nosso não é diferente dos outros em que a "híper", ou o longo período sob inflação alta, foi uma tragédia distributiva. Mas aqui, em contraste com alguns outros casos, destacadamente o da Alemanha, existe uma postura de complacência com relação às conseqüências da inflação. Os alemães associam Hitler à "híper", um tanto forçadamente, mas com horror. Aqui não temos um vilão desse calibre, a desafiar explicações. Mas temos vários menores, como o Dudu do Vidigal, o Beira-Mar e outros da espécie. Pelo mesmo raciocínio "alemão", eles podem ser vistos como filhos da "híper".

Nossa "memória coletiva" sobre esses anos loucos não registra o caos que se imagina ter ocorrido na Alemanha de 1923, ou na Sérvia de 1993, mas uma sensação de aparente normalidade. Graças à indexação ficamos com a impressão de que a vida seguiu seu curso mais ou menos como se a inflação fosse uma névoa, um ruído que tornava as coisas mais confusas, mas não as modificava fundamentalmente.

Hoje sabemos, ou desconfiamos, que isso era apenas uma ilusão, na verdade parte da vertigem causada pelo consumo excessivo de álcool. O organismo teve sua saúde severamente debilitada, e de múltiplas formas, abrangendo, por exemplo, mas não exclusivamente, as nossas possibilidades de crescimento e a distribuição da renda. Só um "heterodoxo" bêbado para imaginar que 20 trilhões de inflação seriam "neutros".

Outra curiosidade sobre a nossa experiência é a atribuição de responsabilidades. Sabemos hoje que a inflação é uma violência contra a cidadania, mas parece difícil atribuir as culpas senão de forma abstrata ao Estado, ao déficit público, à ganância dos oligopólios, ou dos bancos, sempre os bancos, aos atravessadores, ou às perdas internacionais. Quem é o responsável, afinal? Como não houve uma CPI da Inflação?

A inflação é uma imoralidade, mas um mal do qual todo político é sempre capaz de se distanciar, com o argumento de que é um processo social, do qual cada um de nós é parte insignificante, mesmo quando no controle das políticas públicas. Quem propõe "um ajuste da meta", ou "uma mudança de critério" na contabilidade do déficit público para permitir mais gasto, provavelmente não percebe o estrago que faz. Da mesma forma como o usuário de drogas não percebe quanto contribui para a existência do crime organizado e da violência.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com; www.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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