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Em
foco: Gustavo Franco
Inflacionismo
não tem cura
"Algum
inocente ainda acha que o desastre da
nossa distribuição de renda não tem nada a
ver
com a
inflação e com o fato de que
a correção
monetária é coisa de rico?"
Ilustração Ale Setti
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A discussão recente sobre o aumento da meta de inflação
para o ano que vem é surrealista. Tudo se passa como se os
parentes de um ex-alcoólatra estivessem deliberando que uma
tacinha de vinho, quem sabe duas, não fariam mal nenhum.
Essa gente não entende a tragédia do alcoolismo, ou
do inflacionismo, e a importância da abstinência. Para
entender, talvez seja bom recordar apenas um único número:
20 759 903 275 651%.
São
vinte trilhões (!!!), setecentos e cinqüenta e nove
bilhões, novecentos e três milhões, duzentos
e setenta e cinco mil e seiscentos e cinqüenta e um por cento
de inflação acumulada entre abril de 1980 e maio de
1995. São cerca de quinze anos. Abril de 1980 foi o primeiro
mês em que a inflação, no acumulado de doze
meses, superou 100%. Maio de 1995, com pouco menos de um ano de
Plano Real, foi o último.
Pode
haver vida econômica inteligente num país com tanta
inflação? Será que existe algum inocente que
acha que o desastre representado pela nossa distribuição
de renda não tem a ver com essa inflação toda
e com o fato de que correção monetária sempre
foi coisa de rico? Será que essa gente não entende
a extensão da doença e das seqüelas que o vício
deixou?
São
muitos os casos de hiperinflação neste planeta, 24
no total, sendo que é considerado "híper" o episódio
em que a inflação superou 50% mensais em pelo menos
dois meses. Foram dezesseis casos nos anos 1990 (dos quais cinco
na América Latina, um deles o Brasil, três na África,
oito em repúblicas da ex-União Soviética),
três depois da II Guerra Mundial e cinco depois da I Guerra
Mundial.
Cada
caso tem a sua história, são fascinantes as comparações.
O nosso não é diferente dos outros em que a "híper",
ou o longo período sob inflação alta, foi uma
tragédia distributiva. Mas aqui, em contraste com alguns
outros casos, destacadamente o da Alemanha, existe uma postura de
complacência com relação às conseqüências
da inflação. Os alemães associam Hitler à
"híper", um tanto forçadamente, mas com horror. Aqui
não temos um vilão desse calibre, a desafiar explicações.
Mas temos vários menores, como o Dudu do Vidigal, o Beira-Mar
e outros da espécie. Pelo mesmo raciocínio "alemão",
eles podem ser vistos como filhos da "híper".
Nossa
"memória coletiva" sobre esses anos loucos não registra
o caos que se imagina ter ocorrido na Alemanha de 1923, ou na Sérvia
de 1993, mas uma sensação de aparente normalidade.
Graças à indexação ficamos com a impressão
de que a vida seguiu seu curso mais ou menos como se a inflação
fosse uma névoa, um ruído que tornava as coisas mais
confusas, mas não as modificava fundamentalmente.
Hoje
sabemos, ou desconfiamos, que isso era apenas uma ilusão,
na verdade parte da vertigem causada pelo consumo excessivo de álcool.
O organismo teve sua saúde severamente debilitada, e de múltiplas
formas, abrangendo, por exemplo, mas não exclusivamente,
as nossas possibilidades de crescimento e a distribuição
da renda. Só um "heterodoxo" bêbado para imaginar que
20 trilhões de inflação seriam "neutros".
Outra
curiosidade sobre a nossa experiência é a atribuição
de responsabilidades. Sabemos hoje que a inflação
é uma violência contra a cidadania, mas parece difícil
atribuir as culpas senão de forma abstrata ao Estado, ao
déficit público, à ganância dos oligopólios,
ou dos bancos, sempre os bancos, aos atravessadores, ou às
perdas internacionais. Quem é o responsável, afinal?
Como não houve uma CPI da Inflação?
A
inflação é uma imoralidade, mas um mal do qual
todo político é sempre capaz de se distanciar, com
o argumento de que é um processo social, do qual cada um
de nós é parte insignificante, mesmo quando no controle
das políticas públicas. Quem propõe "um ajuste
da meta", ou "uma mudança de critério" na contabilidade
do déficit público para permitir mais gasto, provavelmente
não percebe o estrago que faz. Da mesma forma como o usuário
de drogas não percebe quanto contribui para a existência
do crime organizado e da violência.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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