BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2001

28 de março de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
Reinaldo Azevedo
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
Veja essa
VEJA.com
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Dois encontros,
um só sentimento

José Dirceu com Delúbio, Lula com Collor: o
amor que se esconde, o amor que se revela

Delúbio Soares compareceu, na semana passada, à festa de aniversário de José Dirceu. Não vá dizer o leitor ou a leitora que não sabe quem é. É o "nosso Delúbio", como disse uma vez o presidente Lula; aquele tesoureiro do PT dos dias de glória do dinheiro farto e fluido para os amigos inscritos no bolsa-mensalão. Mas, se o (a) leitor(a) se esqueceu, não é de estranhar. Nosso Delúbio, desde aqueles dias que abalaram a república lulista, optou pelo sumiço. Gostaria de ser invisível. Daí a surpresa de sua aparição na festa. Ele mesmo afirmava mas, ao mesmo tempo, negava que estivesse ali, de carne e osso. "Prazer, meu nome é Marcelo", dizia aos repórteres que se aproximavam, segundo noticiou a coluna de Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo.

Dirceu convidou 2.000 pessoas para a comemoração de seus 61 anos, realizada num badalado bar de São Paulo. Se Delúbio compareceu, é porque foi convidado. Impossível imaginar que ali estivesse na qualidade de penetra, ainda mais em se tratando de pessoa que não sai assim à toa de sua toca. E, no entanto, deu-se uma coisa assombrosa: os dois mal se cumprimentaram. Delúbio, de cabelos longos e desalinhados, a barba grisalha de sempre, camisa azul com dois botões abertos, paletó de couro e lata de cerveja na mão, já era visto desde as 21h30, muito à vontade, no local. Só às 23h40, porém, segundo noticiário da Folha, ele e Dirceu trocaram um "cumprimento rápido". O relato da repórter Clarissa Oliveira, de O Estado de S. Paulo, é ainda mais intrigante. Contou ela que alguns convidados se aproximavam de Delúbio e, efusivos, bradavam: "Você por aqui, nem acredito!". A certa altura, calhou de ele ficar bem perto de Dirceu, mas... "os dois não se olharam nem se cumprimentaram". A Folha notou que assessores de Dirceu, discretamente, afastavam Delúbio, para que os dois não fossem fotografados juntos.

A situação é mais do que esquisita. Um amigo convida o outro para seu aniversário. O outro vai. E os dois mal se olham! A esquisitice aumenta quando se tem em mente a resposta de Delúbio, quando lhe perguntaram que presente trouxera para o aniversariante. "Trouxe um abraço", disse. Ora, que abraço???!!! Vai ver que... Sim, é a única conclusão razoável, levando-se em conta que Delúbio é na verdade um herói petista, ele que aceitou calado os companheiros lhe imputarem todas as culpas. A única conclusão razoável é que houve, sim, um grande, sentido abraço – talvez na cozinha, talvez à entrada da toalete, ao abrigo dos olhares dos repórteres e de outras testemunhas. Mal se viram a sós, e estreitaram-se um ao outro, emocionados, talvez uma lágrima a rolar na face de um, o soluço a estremecer o peito do outro. A relação entre eles é de amantes clandestinos.

• • •

O novel senador Fernando Collor de Mello visitou o presidente Lula, na semana passada. Acompanhava a bancada do PTB no Senado. Lula com Collor! Eis um encontro que seria mais compreensível se, como o de Delúbio e Dirceu, se desenrolasse na clandestinidade. Não. Os fotógrafos foram convidados a registrá-lo. Os dois posaram sorridentes, sentados à mesa redonda do gabinete de Lula no Planalto, um mero 1 metro ou 2 entre um e outro, no meio deles o vice-presidente José Alencar. Fernando Collor – se o leitor ou a leitora se esqueceu também delle – é aquelle que, na memorável campanha eleitoral de 1989, pagou uma antiga namorada de Lula para aparecer na TV e não só revelar o que até então permanecia desconhecido do grande público – que Lula teve com ela uma filha – como denunciar que Lula lhe oferecera dinheiro para abortar a criança, e de quebra aproveitar a ocasião para dizer que Lula, nos tempos de namoro, se revelara um racista impenitente, a dizer continuamente que não suportava negros. Lula, até por razões pessoais, foi um dos chefes da campanha que tirou Collor da Presidência da República. A lógica fazia supor que, no dia em que viessem a se encontrar, um avançaria na goela do outro.

Não. Só amabilidades. "Encontrei uma pessoa por quem tenho respeito e admiro pelo trabalho que vem realizando", disse Collor, ao deixar o encontro. Sim: elle respeita e admira o outro! Contou que Lula o recebeu com um abraço – o abraço que, em público, Dirceu negou a Delúbio. Collor, o ilusionista de sempre, agora posa de injustiçado, como se as denúncias do irmão, os feitos de PC Farias, as extorsões, o caixa dois, a Operação Uruguai, as mentiras, tudo não passasse de uma alucinação coletiva do povo brasileiro. Lula, o neo-ilusionista, age como se o "nosso Delúbio", Marcos Valério, os "recursos não contabilizados", os dólares na cueca, as mentiras, tudo não tivesse passado de uma segunda alucinação. É triste, para Lula, mas, na verdade, não... A esta altura não é surpresa que não tenham saído sopapos no encontro com Collor. Antes, soa normal o clima de amor e concórdia. Foi como o enlace de dois corações que, enfim, assumem o sentimento que os une.

 

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |