Ensaio:
Roberto Pompeu
de Toledo Dois encontros,
um só sentimento
José
Dirceu com Delúbio, Lula com Collor: o
amor que se esconde, o amor que se revela
Delúbio
Soares compareceu, na semana passada, à festa de aniversário
de José Dirceu. Não vá dizer o leitor
ou a leitora que não sabe quem é. É o
"nosso Delúbio", como disse uma vez o presidente Lula;
aquele tesoureiro do PT dos dias de glória do dinheiro
farto e fluido para os amigos inscritos no bolsa-mensalão.
Mas, se o (a) leitor(a) se esqueceu, não é de
estranhar. Nosso Delúbio, desde aqueles dias que abalaram
a república lulista, optou pelo sumiço. Gostaria
de ser invisível. Daí a surpresa de sua aparição
na festa. Ele mesmo afirmava mas, ao mesmo tempo, negava que
estivesse ali, de carne e osso. "Prazer, meu nome é
Marcelo", dizia aos repórteres que se aproximavam,
segundo noticiou a coluna de Mônica Bergamo na Folha
de S.Paulo.
Dirceu convidou
2.000 pessoas para a comemoração de seus 61
anos, realizada num badalado bar de São Paulo. Se Delúbio
compareceu, é porque foi convidado. Impossível
imaginar que ali estivesse na qualidade de penetra, ainda
mais em se tratando de pessoa que não sai assim à
toa de sua toca. E, no entanto, deu-se uma coisa assombrosa:
os dois mal se cumprimentaram. Delúbio, de cabelos
longos e desalinhados, a barba grisalha de sempre, camisa
azul com dois botões abertos, paletó de couro
e lata de cerveja na mão, já era visto desde
as 21h30, muito à vontade, no local. Só às
23h40, porém, segundo noticiário da Folha,
ele e Dirceu trocaram um "cumprimento rápido". O relato
da repórter Clarissa Oliveira, de O Estado de S.
Paulo, é ainda mais intrigante. Contou ela que
alguns convidados se aproximavam de Delúbio e, efusivos,
bradavam: "Você por aqui, nem acredito!". A certa altura,
calhou de ele ficar bem perto de Dirceu, mas... "os dois não
se olharam nem se cumprimentaram". A Folha notou que
assessores de Dirceu, discretamente, afastavam Delúbio,
para que os dois não fossem fotografados juntos.
A situação
é mais do que esquisita. Um amigo convida o outro para
seu aniversário. O outro vai. E os dois mal se olham!
A esquisitice aumenta quando se tem em mente a resposta de
Delúbio, quando lhe perguntaram que presente trouxera
para o aniversariante. "Trouxe um abraço", disse. Ora,
que abraço???!!! Vai ver que... Sim, é a única
conclusão razoável, levando-se em conta que
Delúbio é na verdade um herói petista,
ele que aceitou calado os companheiros lhe imputarem todas
as culpas. A única conclusão razoável
é que houve, sim, um grande, sentido abraço
talvez na cozinha, talvez à entrada da toalete,
ao abrigo dos olhares dos repórteres e de outras testemunhas.
Mal se viram a sós, e estreitaram-se um ao outro, emocionados,
talvez uma lágrima a rolar na face de um, o soluço
a estremecer o peito do outro. A relação entre
eles é de amantes clandestinos.
O novel senador
Fernando Collor de Mello visitou o presidente Lula, na semana
passada. Acompanhava a bancada do PTB no Senado. Lula com
Collor! Eis um encontro que seria mais compreensível
se, como o de Delúbio e Dirceu, se desenrolasse na
clandestinidade. Não. Os fotógrafos foram convidados
a registrá-lo. Os dois posaram sorridentes, sentados
à mesa redonda do gabinete de Lula no Planalto, um
mero 1 metro ou 2 entre um e outro, no meio deles o vice-presidente
José Alencar. Fernando Collor se o leitor ou
a leitora se esqueceu também delle é
aquelle que, na memorável campanha eleitoral
de 1989, pagou uma antiga namorada de Lula para aparecer na
TV e não só revelar o que até então
permanecia desconhecido do grande público que
Lula teve com ela uma filha como denunciar que Lula
lhe oferecera dinheiro para abortar a criança, e de
quebra aproveitar a ocasião para dizer que Lula, nos
tempos de namoro, se revelara um racista impenitente, a dizer
continuamente que não suportava negros. Lula, até
por razões pessoais, foi um dos chefes da campanha
que tirou Collor da Presidência da República.
A lógica fazia supor que, no dia em que viessem a se
encontrar, um avançaria na goela do outro.
Não. Só
amabilidades. "Encontrei uma pessoa por quem tenho respeito
e admiro pelo trabalho que vem realizando", disse Collor,
ao deixar o encontro. Sim: elle respeita e admira o
outro! Contou que Lula o recebeu com um abraço
o abraço que, em público, Dirceu negou a Delúbio.
Collor, o ilusionista de sempre, agora posa de injustiçado,
como se as denúncias do irmão, os feitos de
PC Farias, as extorsões, o caixa dois, a Operação
Uruguai, as mentiras, tudo não passasse de uma alucinação
coletiva do povo brasileiro. Lula, o neo-ilusionista, age
como se o "nosso Delúbio", Marcos Valério, os
"recursos não contabilizados", os dólares na
cueca, as mentiras, tudo não tivesse passado de uma
segunda alucinação. É triste, para Lula,
mas, na verdade, não... A esta altura não é
surpresa que não tenham saído sopapos no encontro
com Collor. Antes, soa normal o clima de amor e concórdia.
Foi como o enlace de dois corações que, enfim,
assumem o sentimento que os une.