Oficialmente ele se chama José Cardoso de Araújo.
Seu nome artístico é Doidão, porque "sempre
fui doido por arte", me diz ele, acrescentando que aprendeu
a esculpir com Loucão, o pai. Ser artista é
a tradição da família, e Doidão
se apresenta no currículo como "descendente de escultores".
Não é a nacionalidade, a cor dos ascendentes
ou a religião que ele menciona, e sim a vocação.
Originalidade e fé na arte são o que não
lhe falta.
Doidão nasceu
em Cachoeira, em 1950, e se transferiu ainda jovem para Salvador.
Vendeu os seus trabalhos no Mercado Modelo durante dezesseis
anos. Conheceu o escritor Jorge Amado, que o promoveu de diferentes
maneiras. Por exemplo, escrevendo sobre Doidão em Bahia,
Mystery Land, livro publicado na França por Alain
Draeger. De Salvador, Doidão foi, em 1981, para a Praia
do Forte, onde até hoje fica o seu ateliê. Além
das incontáveis exposições que fez no
Brasil, ele tem esculturas espalhadas pela América
do Norte, América Central, Europa, África e
Ásia.
Estive várias
vezes no ateliê de Doidão. Primeiro, olhando
as carrancas que ele faz para atrair os turistas. Depois,
por causa de uma obra de 4 metros de altura esculpida numa
jaqueira: Os Deuses do Amor. A figura masculina é
imensa. O deus está de ponta-cabeça, pernas
abertas e soltas no espaço, evocando o vôo e
o mergulho dos amantes. A deusa é bem menor e envolve
com os braços o tronco do amado. O seu rosto está
na altura do sexo dele, representado por duas begônias
e um beija-flor. Trata-se de uma metáfora original
do sexo masculino, em geral representado por instrumentos
cortantes. Os Deuses do Amor é um dos melhores
exemplares da escultura erótica brasileira, que pulsa
secretamente nas nossas igrejas barrocas. Quem não
viu os anjos sexuados da Igreja de São Francisco, em
Salvador, precisa ver. A surpresa justifica a viagem.
Além desse
exemplar, havia outros no ateliê de Doidão. Entre
os quais, uma Virgem Maria grávida. Não me lembro
de ter visto a gravidez da virgem representada na iconografia
tradicional que o baiano, como os verdadeiros artistas,
subverte. Ele está entre os grandes "antropófagos"
brasileiros e sua arte já foi reconhecida dentro e
fora do país. Paradoxalmente, no entanto, já
perdeu metade do seu ateliê, na Praia do Forte, e corre
o risco de perder a outra, pois o espaço a ele cedido
não lhe pertence. Foi emprestado a Doidão para
que fizesse a estatuária do resort que existe ali.
Com a venda do hotel, o espaço do ateliê também
foi vendido. E o novo proprietário, indiferente à
grande arte de Doidão, quer o espaço para uma
sorveteria.
A imprensa e os
moradores da Praia do Forte precisam se mobilizar para que
alguma solução seja encontrada e ele não
tenha de deixar a cidade, onde está há 26 anos.
Para que, enfim, o ouro da terra não desapareça.