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28 de março de 2007
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Arte
O nome dele é Doidão

Um grande artista baiano pode perder o seu ateliê


Betty Milan

Manoel Marques
Virgem Maria grávida: subversão da iconografia


Oficialmente ele se chama José Cardoso de Araújo. Seu nome artístico é Doidão, porque "sempre fui doido por arte", me diz ele, acrescentando que aprendeu a esculpir com Loucão, o pai. Ser artista é a tradição da família, e Doidão se apresenta no currículo como "descendente de escultores". Não é a nacionalidade, a cor dos ascendentes ou a religião que ele menciona, e sim a vocação. Originalidade e fé na arte são o que não lhe falta.

Doidão nasceu em Cachoeira, em 1950, e se transferiu ainda jovem para Salvador. Vendeu os seus trabalhos no Mercado Modelo durante dezesseis anos. Conheceu o escritor Jorge Amado, que o promoveu de diferentes maneiras. Por exemplo, escrevendo sobre Doidão em Bahia, Mystery Land, livro publicado na França por Alain Draeger. De Salvador, Doidão foi, em 1981, para a Praia do Forte, onde até hoje fica o seu ateliê. Além das incontáveis exposições que fez no Brasil, ele tem esculturas espalhadas pela América do Norte, América Central, Europa, África e Ásia.

Estive várias vezes no ateliê de Doidão. Primeiro, olhando as carrancas que ele faz para atrair os turistas. Depois, por causa de uma obra de 4 metros de altura esculpida numa jaqueira: Os Deuses do Amor. A figura masculina é imensa. O deus está de ponta-cabeça, pernas abertas e soltas no espaço, evocando o vôo e o mergulho dos amantes. A deusa é bem menor e envolve com os braços o tronco do amado. O seu rosto está na altura do sexo dele, representado por duas begônias e um beija-flor. Trata-se de uma metáfora original do sexo masculino, em geral representado por instrumentos cortantes. Os Deuses do Amor é um dos melhores exemplares da escultura erótica brasileira, que pulsa secretamente nas nossas igrejas barrocas. Quem não viu os anjos sexuados da Igreja de São Francisco, em Salvador, precisa ver. A surpresa justifica a viagem.

Além desse exemplar, havia outros no ateliê de Doidão. Entre os quais, uma Virgem Maria grávida. Não me lembro de ter visto a gravidez da virgem representada na iconografia tradicional – que o baiano, como os verdadeiros artistas, subverte. Ele está entre os grandes "antropófagos" brasileiros e sua arte já foi reconhecida dentro e fora do país. Paradoxalmente, no entanto, já perdeu metade do seu ateliê, na Praia do Forte, e corre o risco de perder a outra, pois o espaço a ele cedido não lhe pertence. Foi emprestado a Doidão para que fizesse a estatuária do resort que existe ali. Com a venda do hotel, o espaço do ateliê também foi vendido. E o novo proprietário, indiferente à grande arte de Doidão, quer o espaço para uma sorveteria.

A imprensa e os moradores da Praia do Forte precisam se mobilizar para que alguma solução seja encontrada e ele não tenha de deixar a cidade, onde está há 26 anos. Para que, enfim, o ouro da terra não desapareça.

 

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