Os 300
espartanos que marcharam para o desfiladeiro de Termópilas na esperança
de deter o avanço do Exército persa estariam acompanhados de pelo
menos mais 4.000 gregos de outras cidades. A desvantagem numérica era de
fato enorme calcula-se que haveria vinte soldados persas para cada grego
, mas os gregos não eram aquele minguado grupo de bravos que aparece
no filme 300. Não importa: desde suas primeiras cenas estilizadas
ao modo da graphic novel de Frank Miller, 300 se apresenta como uma fantasia
exuberante, na qual o fato histórico entra mais como inspiração
do que como argumento. Isso não impede que o filme incentive o espectador
a tirar o pó dos clássicos. A História, de Heródoto
disponível nas livrarias em uma edição ilustrada do
selo Prestígio , oferece mais drama moral e profundidade trágica
do que qualquer graphic novel já produzida. E Os Persas, tragédia
de Ésquilo, permite uma visão privilegiada do orgulho que os gregos
tinham de sua própria liberdade ainda que a peça seja toda
narrada do ponto de vista persa.
Heródoto é convencionalmente conhecido como o "pai da história"
mas também já mereceu a alcunha derrisória de "pai
das mentiras". Alguns historiadores modernos consideram que, pelo menos na comparação
com Tucídides, cronista da posterior Guerra do Peloponeso, Heródoto
seria um historiador pouco confiável, mais interessado em registrar lendas
do que em aferir fatos. "Uma década atrás, Heródoto estava
em baixa. Pensava-se que ele era muito crédulo, quando na verdade era um
consumado cético e um grande narrador", diz o historiador Barry
Strauss, da Universidade Cornell, autor de A Batalha de Salamina (Record).
Heródoto, na verdade, mostra-se quase sempre cuidadoso ao registrar e avaliar
versões contraditórias da história e registra escrupulosamente
os temas que lhe deixam dúvidas. Na sua narrativa da Batalha de Termópilas,
ele se pergunta por que, no terceiro e último dia de combate, quando não
havia mais chance de vitória, Leônidas, o rei espartano, dispensou
seus aliados, mas não bateu em retirada com seus soldados. "Suponho que
ele queria reservar a glória da façanha somente para os espartanos",
diz o historiador. A mais expressiva síntese da bravura de Esparta está
registrada na História. Trata-se da bravata de um soldado espartano,
Dieneces, quando lhe disseram que os arqueiros persas eram tantos que suas flechas
obscureceriam o sol: "Combateremos à sombra".
Xerxes, o rei persa, é uma figura mais impressionante em Heródoto
do que na versão mitológica de 300. Neto de Ciro e filho
de Dario, reis que expandiram seus domínios até fazer da Pérsia
o maior império da Terra ia do que hoje é o Paquistão,
no leste, até o Egito e a Macedônia, no oeste , não
queria ficar atrás de seus antepassados em grandeza. Xerxes personifica
bem aquela qualidade que os gregos chamavam de hubris, a arrogância
que precipita o destino terrível dos personagens das tragédias.
Não surpreende, portanto, que ele figure como personagem de uma peça
de Ésquilo, o primeiro dos grandes autores trágicos gregos (o poeta,
aliás, era veterano das guerras contra os persas). Das tragédias
gregas que sobreviveram até os dias atuais, Os Persas (disponível
em uma edição da Jorge Zahar) é a única cujo tema
não é um mito, mas um evento histórico a vitória
dos atenienses sobre Xerxes na batalha naval de Salamina, cerca de um mês
depois da heróica resistência espartana nas Termópilas. Com
verdadeiro orgulho cívico, Ésquilo, na fala de um coro de anciões
persas, registra a diferença dos soldados gregos em relação
ao exército imperial que eles derrotaram: "Os atenienses não são
escravos de ninguém, nem súditos".