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Edição 2001

28 de março de 2007
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Cinema
Combate à sombra

Versão fantasiosa da história, 300 convida
a ler clássicos como Heródoto e Ésquilo


Jerônimo Teixeira

 
Divulgação
Soldados espartanos: guerreiros orgulhosos de sua liberdade

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História
Os Persas

Os 300 espartanos que marcharam para o desfiladeiro de Termópilas na esperança de deter o avanço do Exército persa estariam acompanhados de pelo menos mais 4.000 gregos de outras cidades. A desvantagem numérica era de fato enorme – calcula-se que haveria vinte soldados persas para cada grego –, mas os gregos não eram aquele minguado grupo de bravos que aparece no filme 300. Não importa: desde suas primeiras cenas estilizadas ao modo da graphic novel de Frank Miller, 300 se apresenta como uma fantasia exuberante, na qual o fato histórico entra mais como inspiração do que como argumento. Isso não impede que o filme incentive o espectador a tirar o pó dos clássicos. A História, de Heródoto – disponível nas livrarias em uma edição ilustrada do selo Prestígio –, oferece mais drama moral e profundidade trágica do que qualquer graphic novel já produzida. E Os Persas, tragédia de Ésquilo, permite uma visão privilegiada do orgulho que os gregos tinham de sua própria liberdade – ainda que a peça seja toda narrada do ponto de vista persa.

Heródoto é convencionalmente conhecido como o "pai da história" – mas também já mereceu a alcunha derrisória de "pai das mentiras". Alguns historiadores modernos consideram que, pelo menos na comparação com Tucídides, cronista da posterior Guerra do Peloponeso, Heródoto seria um historiador pouco confiável, mais interessado em registrar lendas do que em aferir fatos. "Uma década atrás, Heródoto estava em baixa. Pensava-se que ele era muito crédulo, quando na verdade era um consumado cético – e um grande narrador", diz o historiador Barry Strauss, da Universidade Cornell, autor de A Batalha de Salamina (Record). Heródoto, na verdade, mostra-se quase sempre cuidadoso ao registrar e avaliar versões contraditórias da história – e registra escrupulosamente os temas que lhe deixam dúvidas. Na sua narrativa da Batalha de Termópilas, ele se pergunta por que, no terceiro e último dia de combate, quando não havia mais chance de vitória, Leônidas, o rei espartano, dispensou seus aliados, mas não bateu em retirada com seus soldados. "Suponho que ele queria reservar a glória da façanha somente para os espartanos", diz o historiador. A mais expressiva síntese da bravura de Esparta está registrada na História. Trata-se da bravata de um soldado espartano, Dieneces, quando lhe disseram que os arqueiros persas eram tantos que suas flechas obscureceriam o sol: "Combateremos à sombra".

Xerxes, o rei persa, é uma figura mais impressionante em Heródoto do que na versão mitológica de 300. Neto de Ciro e filho de Dario, reis que expandiram seus domínios até fazer da Pérsia o maior império da Terra – ia do que hoje é o Paquistão, no leste, até o Egito e a Macedônia, no oeste –, não queria ficar atrás de seus antepassados em grandeza. Xerxes personifica bem aquela qualidade que os gregos chamavam de hubris, a arrogância que precipita o destino terrível dos personagens das tragédias. Não surpreende, portanto, que ele figure como personagem de uma peça de Ésquilo, o primeiro dos grandes autores trágicos gregos (o poeta, aliás, era veterano das guerras contra os persas). Das tragédias gregas que sobreviveram até os dias atuais, Os Persas (disponível em uma edição da Jorge Zahar) é a única cujo tema não é um mito, mas um evento histórico – a vitória dos atenienses sobre Xerxes na batalha naval de Salamina, cerca de um mês depois da heróica resistência espartana nas Termópilas. Com verdadeiro orgulho cívico, Ésquilo, na fala de um coro de anciões persas, registra a diferença dos soldados gregos em relação ao exército imperial que eles derrotaram: "Os atenienses não são escravos de ninguém, nem súditos".

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