O
imperador Xerxes de 300, afinal, não está
com essa bola toda. O que, naturalmente, já fez circular
uma questão: que impacto as críticas negativas
terão sobre as chances de Rodrigo Santoro no mercado
estrangeiro? Se a história pregressa servir de exemplo,
a resposta é simples: o impacto deve ser insignificante
ou inexistente. Primeiro porque, de acordo com o termômetro
pelo qual a indústria cinematográfica realmente
se guia, 300 excede as expectativas mais otimistas.
Até a quinta-feira passada, o filme já havia
amealhado 164 milhões de dólares (ficou, também,
dois fins de semana seguidos no topo da bilheteria, sinal
seguro de que o boca-a-boca lhe é favorável).
Depois porque, se um papel equivocado enterrasse uma carreira,
Hollywood já estaria há muito tempo na dependência
de atores digitais. Para ficar apenas nos nomes de origem
latina, Antonio Banderas teria sumido depois de Os Reis
do Mambo; Diego Luna teria ido para casa com Dirty
Dancing Noites de Havana (este, aliás, uma
oferta que Santoro rejeitou). Até Gael García
Bernal, o "Gatel", queridíssimo da imprensa de língua
inglesa, estaria pagando algum tipo de penitência por
The King, que foi destroçado nas resenhas. De
Penélope Cruz, então, nem é bom falar.
Nenhum deles está sem trabalho bem ao contrário.
Divulgação
O ator em 300: Xerxes
não é um sucesso de crítica, mas
o que conta aí é a exposição
Nunca um ator brasileiro esteve em situação
tão propícia a fazer uma carreira internacional
deslanchar quanto Santoro. Ele tem a seu favor um conjunto
de dados objetivos a começar pela beleza, sempre
um abre-te-sésamo. O momento não poderia ser
mais feliz: os latinos subitamente eclodiram como força
criativa nos Estados Unidos, como se pode aferir de sua presença
maciça no Oscar deste ano. Santoro tem, ainda, boa
reputação, como um talento promissor e como
um sujeito dedicado, que se esforça para aprender o
que cada papel exige. Está numa fase de projeção
considerável, com o próprio 300 e com
a série Lost na qual seu personagem,
Paulo, ainda pode, quem sabe, vir a crescer. Mas outros fatores,
estes subjetivos, têm seu peso na equação.
Num passado até
bem recente, Santoro vivia mal com a própria celebridade.
Muito mal. Logo antes de ele começar a filmar Bicho
de Sete Cabeças, por exemplo, sua namorada Luana
Piovani foi fotografada aos beijos com o playboy Cristiano
Rangel. Em locação nas ruas de São Paulo,
o ator ouvia gracejos maliciosos e, segundo pessoas que o
rodeavam na ocasião, se deixava ferir mortalmente por
eles. Na época de Carandiru, quando vazaram
imagens de Santoro caracterizado como o travesti Lady Di,
a repercussão pegou-o de surpresa. "Eu me assustei
mesmo", disse ele a VEJA, pouco antes da estréia de
300. Santoro se sentia tão invadido e inseguro
que tinha dúvidas se o trabalho, do qual gostava, compensava
a exposição, que detestava. Hoje ele continua
"defensivo", na definição da modelo Ellen Jabour,
que ele namora há quase quatro anos. Mas já
não toma como pessoal o diz-que-diz.
Isso significa,
por exemplo, não se irritar com as notícias
de que ele seria cortado de Lost porque não
confraterniza com o restante do elenco. "Não tenho
contato com todos os atores. Mas me dou muito bem com aqueles
que conheço", contesta Rodrigo, que graças ao
futebol ficou especialmente próximo do escocês
Henry Ian Cusick, o Desmond. Ou não se apavorar quando
circulam rumores de que ele ganha "fortunas" no exterior.
"Estou no começo, e ganho pela tabela do sindicato
(a Screen Actors Guild). Ganhei por ela em Simplesmente
Amor e fui pago de acordo com ela também em 300",
garante. Não é mau dinheiro. Sem contar os adicionais
que costumam figurar nesses contratos, Lost, por exemplo,
lhe renderia entre 2.634 e 6.527 dólares semanais.
(Por outro lado, não muito mais do que ele receberia
por seus trabalhos no Brasil.)
Rogerio Lacanna/Contigo
Com Ellen: apaziguado, mas ainda
"defensivo"
Ao aprender a lidar com a exposição, tanto a
positiva quanto a negativa, o ator fez progressos. O que lhe
falta é se livrar com urgência daquela crença
bem brasileira de que se está em desvantagem. Em suas
conversas com VEJA, Santoro mostrou bom senso na decisão
de não fazer planos demais e "tocar de ouvido", como
disse; nos trabalhos que recusou, como Dirty Dancing
e Mais Velozes e Mais Furiosos, indica que não
escolhe papéis pelo cachê; insistiu que nunca
se mudará de mala e cuia e continuará trabalhando
também no Brasil, o que pode ser muito benéfico
(Penélope Cruz, recém-ungida por Volver,
que o diga). Mas nunca deixou de raciocinar nos termos dos
papéis que, a seu ver, são aqueles que estão
ao alcance "de um estrangeiro".
Um dos obstáculos
a que o leque se abra de vez para Santoro é, claro,
o idioma. Por ter aprendido inglês já adulto,
ele "enferruja" quando passa um tempo sem praticá-lo.
Mas, nos últimos anos, ganhou visivelmente em fluência
e na qualidade da dicção. Um mergulho sistemático
na língua poderia favorecê-lo de duas maneiras:
primeiro, ao colocar seu nome no páreo por papéis
que requerem esse domínio; segundo, ao elevar seu nível
de conforto e contribuir também para sua interpretação.
"A indústria está a um passo de perceber que
escalar um ator estrangeiro como protagonista não diminui
o apelo do filme junto ao público americano e aumenta
seu apelo junto ao espectador global", pondera Aleen Keshishian,
a agente que representou Santoro nos últimos anos e
que é sócia de uma empresa influente da categoria,
a Brillstein-Grey. Aleen vai ainda mais longe: "Os Estados
Unidos são um país em que as regras foram feitas
para ser quebradas ou alguém poderia imaginar,
alguns anos atrás, que um fisiculturista austríaco
seria o governador da Califórnia?", brinca. O que Aleen
não diz, mas todo observador da indústria sabe,
é que agentes e produtores têm cota limitada
de paciência para com atores que titubeiem diante de
papéis maiores e não correspondam à sua
ambição. Em última análise, portanto,
a carreira internacional de Santoro depende de um único
fator, subjetivo como ele só: o próprio Santoro.