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Edição 2001

28 de março de 2007
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Cinema
Ele está quase lá

Tudo conspira a favor da carreira internacional
de Rodrigo Santoro. Exceto, talvez, ele próprio


Isabela Boscov

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O imperador Xerxes de 300, afinal, não está com essa bola toda. O que, naturalmente, já fez circular uma questão: que impacto as críticas negativas terão sobre as chances de Rodrigo Santoro no mercado estrangeiro? Se a história pregressa servir de exemplo, a resposta é simples: o impacto deve ser insignificante – ou inexistente. Primeiro porque, de acordo com o termômetro pelo qual a indústria cinematográfica realmente se guia, 300 excede as expectativas mais otimistas. Até a quinta-feira passada, o filme já havia amealhado 164 milhões de dólares (ficou, também, dois fins de semana seguidos no topo da bilheteria, sinal seguro de que o boca-a-boca lhe é favorável). Depois porque, se um papel equivocado enterrasse uma carreira, Hollywood já estaria há muito tempo na dependência de atores digitais. Para ficar apenas nos nomes de origem latina, Antonio Banderas teria sumido depois de Os Reis do Mambo; Diego Luna teria ido para casa com Dirty Dancing – Noites de Havana (este, aliás, uma oferta que Santoro rejeitou). Até Gael García Bernal, o "Gatel", queridíssimo da imprensa de língua inglesa, estaria pagando algum tipo de penitência por The King, que foi destroçado nas resenhas. De Penélope Cruz, então, nem é bom falar. Nenhum deles está sem trabalho – bem ao contrário.

Divulgação
O ator em 300: Xerxes não é um sucesso de crítica, mas o que conta aí é a exposição


Nunca um ator brasileiro esteve em situação tão propícia a fazer uma carreira internacional deslanchar quanto Santoro. Ele tem a seu favor um conjunto de dados objetivos – a começar pela beleza, sempre um abre-te-sésamo. O momento não poderia ser mais feliz: os latinos subitamente eclodiram como força criativa nos Estados Unidos, como se pode aferir de sua presença maciça no Oscar deste ano. Santoro tem, ainda, boa reputação, como um talento promissor e como um sujeito dedicado, que se esforça para aprender o que cada papel exige. Está numa fase de projeção considerável, com o próprio 300 e com a série Lost – na qual seu personagem, Paulo, ainda pode, quem sabe, vir a crescer. Mas outros fatores, estes subjetivos, têm seu peso na equação.

Num passado até bem recente, Santoro vivia mal com a própria celebridade. Muito mal. Logo antes de ele começar a filmar Bicho de Sete Cabeças, por exemplo, sua namorada Luana Piovani foi fotografada aos beijos com o playboy Cristiano Rangel. Em locação nas ruas de São Paulo, o ator ouvia gracejos maliciosos e, segundo pessoas que o rodeavam na ocasião, se deixava ferir mortalmente por eles. Na época de Carandiru, quando vazaram imagens de Santoro caracterizado como o travesti Lady Di, a repercussão pegou-o de surpresa. "Eu me assustei mesmo", disse ele a VEJA, pouco antes da estréia de 300. Santoro se sentia tão invadido e inseguro que tinha dúvidas se o trabalho, do qual gostava, compensava a exposição, que detestava. Hoje ele continua "defensivo", na definição da modelo Ellen Jabour, que ele namora há quase quatro anos. Mas já não toma como pessoal o diz-que-diz.

Isso significa, por exemplo, não se irritar com as notícias de que ele seria cortado de Lost porque não confraterniza com o restante do elenco. "Não tenho contato com todos os atores. Mas me dou muito bem com aqueles que conheço", contesta Rodrigo, que graças ao futebol ficou especialmente próximo do escocês Henry Ian Cusick, o Desmond. Ou não se apavorar quando circulam rumores de que ele ganha "fortunas" no exterior. "Estou no começo, e ganho pela tabela do sindicato (a Screen Actors Guild). Ganhei por ela em Simplesmente Amor e fui pago de acordo com ela também em 300", garante. Não é mau dinheiro. Sem contar os adicionais que costumam figurar nesses contratos, Lost, por exemplo, lhe renderia entre 2.634 e 6.527 dólares semanais. (Por outro lado, não muito mais do que ele receberia por seus trabalhos no Brasil.)

Rogerio Lacanna/Contigo
Com Ellen: apaziguado, mas ainda "defensivo"


Ao aprender a lidar com a exposição, tanto a positiva quanto a negativa, o ator fez progressos. O que lhe falta é se livrar com urgência daquela crença bem brasileira de que se está em desvantagem. Em suas conversas com VEJA, Santoro mostrou bom senso na decisão de não fazer planos demais e "tocar de ouvido", como disse; nos trabalhos que recusou, como Dirty Dancing e Mais Velozes e Mais Furiosos, indica que não escolhe papéis pelo cachê; insistiu que nunca se mudará de mala e cuia e continuará trabalhando também no Brasil, o que pode ser muito benéfico (Penélope Cruz, recém-ungida por Volver, que o diga). Mas nunca deixou de raciocinar nos termos dos papéis que, a seu ver, são aqueles que estão ao alcance "de um estrangeiro".

Um dos obstáculos a que o leque se abra de vez para Santoro é, claro, o idioma. Por ter aprendido inglês já adulto, ele "enferruja" quando passa um tempo sem praticá-lo. Mas, nos últimos anos, ganhou visivelmente em fluência e na qualidade da dicção. Um mergulho sistemático na língua poderia favorecê-lo de duas maneiras: primeiro, ao colocar seu nome no páreo por papéis que requerem esse domínio; segundo, ao elevar seu nível de conforto e contribuir também para sua interpretação. "A indústria está a um passo de perceber que escalar um ator estrangeiro como protagonista não diminui o apelo do filme junto ao público americano e aumenta seu apelo junto ao espectador global", pondera Aleen Keshishian, a agente que representou Santoro nos últimos anos e que é sócia de uma empresa influente da categoria, a Brillstein-Grey. Aleen vai ainda mais longe: "Os Estados Unidos são um país em que as regras foram feitas para ser quebradas – ou alguém poderia imaginar, alguns anos atrás, que um fisiculturista austríaco seria o governador da Califórnia?", brinca. O que Aleen não diz, mas todo observador da indústria sabe, é que agentes e produtores têm cota limitada de paciência para com atores que titubeiem diante de papéis maiores e não correspondam à sua ambição. Em última análise, portanto, a carreira internacional de Santoro depende de um único fator, subjetivo como ele só: o próprio Santoro.

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