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Edição 2001

28 de março de 2007
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Cinema
Lindo e forte, mas ingênuo

Assim é 300, que narra uma versão mitologizada da
resistência de Esparta à invasão do império persa


Isabela Boscov

 
Fotos Divulgação
Vincent Regan (à esq.) e Butler, como o capitão e o rei de Esparta: quase tudo é efeito digital, mas os "tanquinhos" são de verdade

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Durante três dias, no desfiladeiro de Termópilas, na costa nordeste da Grécia, 300 homens liderados por Leônidas, rei de Esparta, barraram a invasão dos 2 milhões de soldados do imperador persa Xerxes – ou pelo menos esses são os números registrados pelo historiador Heródoto, que nasceu em 484 a.C. e tinha apenas 4 anos na época do enfrentamento, e muito provavelmente enfeitou a contabilidade para melhor exaltar a glória dos gregos. Heródoto anotou, escrupulosamente, que nos dois primeiros dias de combate os espartanos contaram com reforços de aliados de outras partes da Grécia. Já os persas, segundo os estudiosos de hoje, somariam menos de 500.000. Não que essas mexidas para cá ou para lá alterem a essência do fato: a Batalha de Termópilas é, com justiça, um desses feitos militares de estatura mítica, sublinhado pela morte em campo de todos os 300 combatentes espartanos. Como a maioria dos mitos do gênero, porém, ele convida à solenidade e à grandiloqüência, qualidades preservadas para o bem e para o mal em 300 (Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país.

300 é de uma beleza intensa, que quase preclui qualquer outra consideração a seu respeito. Adaptado da graphic novel de Frank Miller (de Sin City) e dirigido por Zack Snyder (até aqui, conhecido pela baratinha e muito boa refilmagem de Despertar dos Mortos), o filme consiste, primeiramente, de uma demonstração de virtuosismo técnico – não apenas no sentido do que é possível fazer com um ano inteiro de pós-produção em dez ateliês distintos de efeitos especiais, mas também no sentido de que, na maior parte das vezes, o filme sabe onde se impor limites. Treinado como pintor numa academia inglesa, e depois como diretor de comerciais, Snyder põe na mesa os truques propiciados pela sua formação. Reforça o aspecto mítico desse ato de resistência com cores e atitudes roubadas aos pintores da Renascença, notadamente Caravaggio; e agrada à platéia jovem e masculina (que tem comparecido em peso às salas americanas em que o filme está em cartaz) com uma violência extrema, mas completamente estilizada e pictórica. Cada morte – e elas são inúmeras – é tratada de forma específica, como um caso único: vê-se onde a flecha entrou, por onde a lança saiu, como a lâmina da espada atingiu sua vítima. Quando o sangue jorra, ele tem a textura e a consistência de tinta vermelha. E as seqüências em que Snyder acompanha guerreiros individuais, ora freando, ora acelerando seu avanço em meio ao inimigo, são acachapantes.

 
Um guerreiro espartano invade a linha persa: movimento que ora é freado, ora acelerado é um dos melhores achados visuais do filme

Filmes assim tão onerados pelos seus aspectos visuais costumam sofrer em todo o resto, e 300 não deixa de ser fiel à regra. Tem até mais ritmo e drama do que se poderia esperar. Mas o que lhe falta é sentido de tragédia, além de espírito crítico. Começando do começo, no século VIII a.C.: dessa data até mais ou menos o ano 360 a.C., os espartanos mantiveram sob seu tacão a vizinha Messênia, maior, mais rica e mais populosa (Esparta, aliás, não era muito mais do que um amontoado de pedregulhos no Peloponeso). Acredita-se que foi a necessidade de manter subjugada uma população revoltosa que transformou Esparta numa cultora fanática da arte da guerra. Todos os homens nascidos entre a elite da cidade eram destinados à guerra, sem direito a escolha, e submetidos a um treinamento infame. O corpo dos espartanos não pertencia a eles, mas à polis; também as mulheres eram treinadas (inclusive para doar seus filhos à cidade); e seu estado de prontidão era tão extremo que Esparta nunca foi fortificada, como o eram quase todas as cidades-estado da Antiguidade. Também nunca esteve sob o jugo de nenhum tirano – e não tinha a menor intenção de abrir uma exceção para Xerxes, que, em continuidade ao trabalho de seu pai, Dario, vinha engolindo todo o mundo conhecido.

Antes que Xerxes chegasse ao Peloponeso, o rei espartano Leônidas (no filme, o escocês Gerard Butler, um ator dos mais simpáticos) levou sua força de elite para encontrá-lo no balneário de águas quentes de Termópilas ("portões de fogo", em grego), de onde teve de enxotar alguns turistas antes de estabelecer suas posições. Tratava-se, provavelmente, de uma missão suicida. Leônidas embarcou nela porque, no mundo helênico, nada tinha mais significado para um cidadão do que a sua polis – e também porque, na cultura de Esparta, nenhuma outra solução era concebível. É aí que 300 perde uma grande oportunidade. Graphic novels costumam comerciar em valores absolutos de heroísmo, e vilania, sem semitons. Nada impede, porém, que os filmes baseados em graphic novels dêem um passo adiante e reconheçam as outras emoções que estão em jogo numa história como essa. Por exemplo, o ímpeto fascista que em Esparta se misturava ao valor, ou o fardo pessoal que constitui o dever de morrer.

300, ao contrário, faz uma apologia truculenta da guerra como instrumento de salvaguarda da "democracia" (que, vale lembrar, na Grécia antiga era privilégio de poucos e bons). Os que se esquivam dela são vis e covardes; os que se decidem por ela, exemplos de nobreza de espírito. Em parte por causa de sua ingenuidade e de seu jingoísmo, ambos meio fora de hora, a crítica americana vem se dedicando a destruir o filme. De outra parte, porém, o ataque é desarrazoado – e, curiosamente, em muitos casos vem tomando a forma de zombaria ao forte componente homoerótico do filme (que, de fato, exibe uma impressionante coleção de 300 "tanquinhos" perfeitamente esculpidos). Os cidadãos espartanos eram removidos do convívio familiar aos 7 anos; passavam os onze anos seguintes na caserna, com outros rapazes; eram encorajados a admirar a perfeição física em si mesmos e nos outros – e, se alguém sugerir que Frank Miller ou Zack Snyder tiraram do nada o homoerotismo de 300, estará redondamente enganado.

Outro ponto em que as críticas invariavelmente se pegam é a figura de Xerxes, com seus 3 metros de altura, joalheria pesada, corpo depilado, pele dourada e jeitão inconfundível de destaque de escola de samba. Rodrigo Santoro, que interpreta o imperador, em geral tem sido poupado da artilharia mais pesada, mas se formou um consenso de que, na concepção falha de Miller e Snyder, o persa é "carnavalesco", "efeminado" ou simplesmente "absurdo". (O governo iraniano concorda: no dia da estréia do filme nos Estados Unidos, um dos jornais chapa-branca de Teerã estampou a manchete "Hollywood declara guerra ao Irã".) Não é de estranhar que Xerxes apareça tão mal na história: ela é a narrativa de um espartano aos seus co-cidadãos, com o objetivo de inflamar o moral e transformar a derrota em vitória. O mais divertido é que, por acaso, desenhista e diretor talvez não estejam tão longe da verdade. Os historiadores descrevem Xerxes como um homem inteligente, mas também megalomaníaco, ególatra, vaidoso, sugestionável, suscetível à adulação e indolente – além de nervosinho. Quando, na rota para a Grécia, seus navios foram destruídos por uma tempestade, Xerxes deu um piti. Mandou, ui, açoitar o mar. Daí a se cobrir de purpurina dourada é só um passinho.

 

QUASE TUDO DE VERDADE

O abdômen dos atores que interpretam os espartanos levou alguns retoques digitais, mas a matéria-prima é puro músculo. Veja como Gerard Butler conseguiu essa forma:

Alimentação: apenas carnes, folhas e nozes

Malhação: treinos na máquina de remar, levantamento de peso e leg presses de até 160 quilos, quatro meses antes de começar a filmar

Em tempo: ele teve a supervisão de dois treinadores. Que ninguém tente fazer isso em casa

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