Durante
três dias, no desfiladeiro de Termópilas, na costa nordeste da Grécia,
300 homens liderados por Leônidas, rei de Esparta, barraram a invasão
dos 2 milhões de soldados do imperador persa Xerxes ou pelo menos
esses são os números registrados pelo historiador Heródoto,
que nasceu em 484 a.C. e tinha apenas 4 anos na época do enfrentamento,
e muito provavelmente enfeitou a contabilidade para melhor exaltar a glória
dos gregos. Heródoto anotou, escrupulosamente, que nos dois primeiros dias
de combate os espartanos contaram com reforços de aliados de outras partes
da Grécia. Já os persas, segundo os estudiosos de hoje, somariam
menos de 500.000. Não que essas mexidas para cá ou para lá
alterem a essência do fato: a Batalha de Termópilas é, com
justiça, um desses feitos militares de estatura mítica, sublinhado
pela morte em campo de todos os 300 combatentes espartanos. Como a maioria dos
mitos do gênero, porém, ele convida à solenidade e à
grandiloqüência, qualidades preservadas para o bem e para o mal em
300 (Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira
no país.
300
é de uma beleza intensa, que quase preclui qualquer outra consideração
a seu respeito. Adaptado da graphic novel de Frank Miller (de Sin City)
e dirigido por Zack Snyder (até aqui, conhecido pela baratinha e muito
boa refilmagem de Despertar dos Mortos), o filme consiste, primeiramente,
de uma demonstração de virtuosismo técnico não
apenas no sentido do que é possível fazer com um ano inteiro de
pós-produção em dez ateliês distintos de efeitos especiais,
mas também no sentido de que, na maior parte das vezes, o filme sabe onde
se impor limites. Treinado como pintor numa academia inglesa, e depois como diretor
de comerciais, Snyder põe na mesa os truques propiciados pela sua formação.
Reforça o aspecto mítico desse ato de resistência com cores
e atitudes roubadas aos pintores da Renascença, notadamente Caravaggio;
e agrada à platéia jovem e masculina (que tem comparecido em peso
às salas americanas em que o filme está em cartaz) com uma violência
extrema, mas completamente estilizada e pictórica. Cada morte e
elas são inúmeras é tratada de forma específica,
como um caso único: vê-se onde a flecha entrou, por onde a lança
saiu, como a lâmina da espada atingiu sua vítima. Quando o sangue
jorra, ele tem a textura e a consistência de tinta vermelha. E as seqüências
em que Snyder acompanha guerreiros individuais, ora freando, ora acelerando seu
avanço em meio ao inimigo, são acachapantes.
Um guerreiro espartano invade a linha persa:
movimento que ora é freado, ora acelerado é um dos melhores achados
visuais do filme
Filmes
assim tão onerados pelos seus aspectos visuais costumam sofrer em todo
o resto, e 300 não deixa de ser fiel à regra. Tem até
mais ritmo e drama do que se poderia esperar. Mas o que lhe falta é sentido
de tragédia, além de espírito crítico. Começando
do começo, no século VIII a.C.: dessa data até mais ou menos
o ano 360 a.C., os espartanos mantiveram sob seu tacão a vizinha Messênia,
maior, mais rica e mais populosa (Esparta, aliás, não era muito
mais do que um amontoado de pedregulhos no Peloponeso). Acredita-se que foi a
necessidade de manter subjugada uma população revoltosa que transformou
Esparta numa cultora fanática da arte da guerra. Todos os homens nascidos
entre a elite da cidade eram destinados à guerra, sem direito a escolha,
e submetidos a um treinamento infame. O corpo dos espartanos não pertencia
a eles, mas à polis; também as mulheres eram treinadas (inclusive
para doar seus filhos à cidade); e seu estado de prontidão era tão
extremo que Esparta nunca foi fortificada, como o eram quase todas as cidades-estado
da Antiguidade. Também nunca esteve sob o jugo de nenhum tirano
e não tinha a menor intenção de abrir uma exceção
para Xerxes, que, em continuidade ao trabalho de seu pai, Dario, vinha engolindo
todo o mundo conhecido.
Antes
que Xerxes chegasse ao Peloponeso, o rei espartano Leônidas (no filme, o
escocês Gerard Butler, um ator dos mais simpáticos) levou sua força
de elite para encontrá-lo no balneário de águas quentes de
Termópilas ("portões de fogo", em grego), de onde teve de enxotar
alguns turistas antes de estabelecer suas posições. Tratava-se,
provavelmente, de uma missão suicida. Leônidas embarcou nela porque,
no mundo helênico, nada tinha mais significado para um cidadão do
que a sua polis e também porque, na cultura de Esparta, nenhuma
outra solução era concebível. É aí que 300
perde uma grande oportunidade. Graphic novels costumam comerciar em valores absolutos
de heroísmo, e vilania, sem semitons. Nada impede, porém, que os
filmes baseados em graphic novels dêem um passo adiante e reconheçam
as outras emoções que estão em jogo numa história
como essa. Por exemplo, o ímpeto fascista que em Esparta se misturava ao
valor, ou o fardo pessoal que constitui o dever de morrer.
300, ao contrário, faz uma apologia
truculenta da guerra como instrumento de salvaguarda da "democracia" (que, vale
lembrar, na Grécia antiga era privilégio de poucos e bons). Os que
se esquivam dela são vis e covardes; os que se decidem por ela, exemplos
de nobreza de espírito. Em parte por causa de sua ingenuidade e de seu
jingoísmo, ambos meio fora de hora, a crítica americana vem se dedicando
a destruir o filme. De outra parte, porém, o ataque é desarrazoado
e, curiosamente, em muitos casos vem tomando a forma de zombaria ao forte
componente homoerótico do filme (que, de fato, exibe uma impressionante
coleção de 300 "tanquinhos" perfeitamente esculpidos). Os cidadãos
espartanos eram removidos do convívio familiar aos 7 anos; passavam os
onze anos seguintes na caserna, com outros rapazes; eram encorajados a admirar
a perfeição física em si mesmos e nos outros e, se
alguém sugerir que Frank Miller ou Zack Snyder tiraram do nada o homoerotismo
de 300, estará redondamente enganado.
Outro ponto em que as críticas invariavelmente se pegam é a figura
de Xerxes, com seus 3 metros de altura, joalheria pesada, corpo depilado, pele
dourada e jeitão inconfundível de destaque de escola de samba. Rodrigo
Santoro, que interpreta o imperador, em geral tem sido poupado da artilharia mais
pesada, mas se formou um consenso de que, na concepção falha de
Miller e Snyder, o persa é "carnavalesco", "efeminado" ou simplesmente
"absurdo". (O governo iraniano concorda: no dia da estréia do filme nos
Estados Unidos, um dos jornais chapa-branca de Teerã estampou a manchete
"Hollywood declara guerra ao Irã".) Não é de estranhar que
Xerxes apareça tão mal na história: ela é a narrativa
de um espartano aos seus co-cidadãos, com o objetivo de inflamar o moral
e transformar a derrota em vitória. O mais divertido é que, por
acaso, desenhista e diretor talvez não estejam tão longe da verdade.
Os historiadores descrevem Xerxes como um homem inteligente, mas também
megalomaníaco, ególatra, vaidoso, sugestionável, suscetível
à adulação e indolente além de nervosinho.
Quando, na rota para a Grécia, seus navios foram destruídos por
uma tempestade, Xerxes deu um piti. Mandou, ui, açoitar o mar. Daí
a se cobrir de purpurina dourada é só um passinho.
QUASE TUDO DE VERDADE
O abdômen dos atores
que interpretam os espartanos levou alguns retoques digitais, mas a matéria-prima
é puro músculo. Veja como Gerard Butler conseguiu essa forma:
Alimentação:
apenas carnes, folhas e nozes
Malhação: treinos na máquina de remar, levantamento
de peso e leg presses de até 160 quilos, quatro meses antes de começar
a filmar
Em tempo:
ele teve a supervisão de dois treinadores. Que ninguém tente fazer
isso em casa