Um projeto quer financiar
viagens de escritores
com dinheiro público. Quem não ganhou a
boquinha está gritando
Jerônimo Teixeira
Fotos Fabiana Beltramin/Folha
Imagem, Publius Vergilius/Folha Imagem, João Wainer/Folha
Imagem, Roberta Goldfarb e Divulgação
Sérgio Sant'Anna, Luiz
Ruffato, Marçal Aquino, Adriana Lisboa, Antonio
Prata e seus destinos: você é que pagará
pelo turismo literário dessa turma
Na semana passada,
o anúncio de um projeto chamado Amores Expressos causou
rebuliço nos meios literários brasileiros. Os
blogues de escritores não falaram de outro tema: dezesseis
autores brasileiros vão viajar cada um para uma cidade
diferente do mundo, de Nova York a Xangai, em busca de inspiração
para vejam que coisa mais singela uma história
de amor. Os dezesseis romances resultantes serão publicados
pela Companhia das Letras. O produtor Rodrigo Teixeira, criador
do projeto, espera que os livros se prestem a adaptações
cinematográficas. Cada autor, além do passeio
com estadia de um mês e uma ajudinha de custo média
de 100 euros por dia, receberá 10.000 reais pelos direitos
audiovisuais de seus livros. A grita contra a iniciativa centrou-se
em dois pontos: o critério de seleção
dos autores e a notícia de que o projeto contaria com
aporte de dinheiro público, via Lei Rouanet. Incapazes
de produzir uma polêmica propriamente literária,
os escritores brasileiros agora brigam por passagens aéreas.
Pagas por você, contribuinte.
A escolha dos autores
foi feita por Rodrigo Teixeira e pelo escritor João
Paulo Cuenca (que viaja para Tóquio). Os dois admitem
que a "afinidade" com alguns autores pesou na seleção
a qual, é claro, causou ciumeira no meio das
panelinhas rivais. Em carta a um jornal, o escritor Marcelo
Mirisola que faz uma força danada para ser o
enfant terrible da literatura brasileira acusou
Teixeira de estar promovendo uma ação entre
amigos com dinheiro público, o que é verdade.
Sérgio Sant'Anna, que viaja para Praga, respondeu lembrando
que Mirisola já lhe pediu uma carta de recomendação
para ganhar uma bolsa para escritores, também financiada
com a grana do contribuinte. Ademir Assunção,
poeta idealizador do Literatura Urgente, movimento que pede
dinheiro do governo para os escritores, também atacou
o Amores Expressos não seria, diz ele, uma genuína
proposta de "política pública".
Criador de uma
coleção de livros sobre futebol e co-produtor
do filme O Cheiro do Ralo, Rodrigo Teixeira diz já
contar com cerca de 400.000 reais para o projeto, o que garantiria
todas as viagens (os cinco primeiros autores partem já
em abril). A captação de recursos através
da Lei Rouanet ainda não autorizada pelo Ministério
da Cultura entraria para garantir extras, como a produção
de um documentário. A Lei Rouanet tem financiado DVDs
de cantores comerciais e espetáculos de circo que dão
lindas imagens para a publicidade dos bancos patrocinadores.
Mas, até agora, os escritores quase não haviam
agarrado o osso. E não existe mesmo justificativa para
que o agarrem. A escrita é a mais barata das atividades:
bastam lápis e papel para dedicar-se a ela. Dinheiro
público para construir e equipar bibliotecas, pode
ser. Jamais para financiar turismo literário, nem que
seja, à moda do francês Xavier de Maistre, numa
viagem ao redor do quarto.