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Edição 2001

28 de março de 2007
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Teco-teco da alegria

Um projeto quer financiar viagens de escritores
com dinheiro público. Quem não ganhou a
boquinha está gritando


Jerônimo Teixeira

 
Fotos Fabiana Beltramin/Folha Imagem, Publius Vergilius/Folha Imagem, João Wainer/Folha Imagem, Roberta Goldfarb e Divulgação
Sérgio Sant'Anna, Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Adriana Lisboa, Antonio Prata e seus destinos: você é que pagará pelo turismo literário dessa turma

Na semana passada, o anúncio de um projeto chamado Amores Expressos causou rebuliço nos meios literários brasileiros. Os blogues de escritores não falaram de outro tema: dezesseis autores brasileiros vão viajar cada um para uma cidade diferente do mundo, de Nova York a Xangai, em busca de inspiração para – vejam que coisa mais singela – uma história de amor. Os dezesseis romances resultantes serão publicados pela Companhia das Letras. O produtor Rodrigo Teixeira, criador do projeto, espera que os livros se prestem a adaptações cinematográficas. Cada autor, além do passeio com estadia de um mês e uma ajudinha de custo média de 100 euros por dia, receberá 10.000 reais pelos direitos audiovisuais de seus livros. A grita contra a iniciativa centrou-se em dois pontos: o critério de seleção dos autores e a notícia de que o projeto contaria com aporte de dinheiro público, via Lei Rouanet. Incapazes de produzir uma polêmica propriamente literária, os escritores brasileiros agora brigam por passagens aéreas. Pagas por você, contribuinte.

A escolha dos autores foi feita por Rodrigo Teixeira e pelo escritor João Paulo Cuenca (que viaja para Tóquio). Os dois admitem que a "afinidade" com alguns autores pesou na seleção – a qual, é claro, causou ciumeira no meio das panelinhas rivais. Em carta a um jornal, o escritor Marcelo Mirisola – que faz uma força danada para ser o enfant terrible da literatura brasileira – acusou Teixeira de estar promovendo uma ação entre amigos com dinheiro público, o que é verdade. Sérgio Sant'Anna, que viaja para Praga, respondeu lembrando que Mirisola já lhe pediu uma carta de recomendação para ganhar uma bolsa para escritores, também financiada com a grana do contribuinte. Ademir Assunção, poeta idealizador do Literatura Urgente, movimento que pede dinheiro do governo para os escritores, também atacou o Amores Expressos – não seria, diz ele, uma genuína proposta de "política pública".

Criador de uma coleção de livros sobre futebol e co-produtor do filme O Cheiro do Ralo, Rodrigo Teixeira diz já contar com cerca de 400.000 reais para o projeto, o que garantiria todas as viagens (os cinco primeiros autores partem já em abril). A captação de recursos através da Lei Rouanet – ainda não autorizada pelo Ministério da Cultura – entraria para garantir extras, como a produção de um documentário. A Lei Rouanet tem financiado DVDs de cantores comerciais e espetáculos de circo que dão lindas imagens para a publicidade dos bancos patrocinadores. Mas, até agora, os escritores quase não haviam agarrado o osso. E não existe mesmo justificativa para que o agarrem. A escrita é a mais barata das atividades: bastam lápis e papel para dedicar-se a ela. Dinheiro público para construir e equipar bibliotecas, pode ser. Jamais para financiar turismo literário, nem que seja, à moda do francês Xavier de Maistre, numa viagem ao redor do quarto.

 

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