O vício
em e-mail pode ser grave. Nesse caso, a solução é buscar
ajuda
Oscar
Cabral
Andiara
Petterle checa seus e-mails em um café: ela se descobriu viciada há quatro anos
Ninguém se surpreende
ao ver a executiva Andiara Petterle entrar e sair de seu escritório com
o laptop em mãos. Como tantos profissionais, é pela internet que
ela dá respostas rápidas a seus clientes mais exigentes. Uma rotina
normal, se não fosse tão difícil para essa gaúcha
de 28 anos se desconectar. O problema veio à tona há quatro anos,
quando uma viagem com o marido se tornou um tormento diante da impossibilidade
de se conectar à internet no local. "Queria checar meu e-mail e tive um
acesso de nervosismo. Voltamos no mesmo dia", diz. Com uma média de 1.000
mensagens recebidas diariamente, ela já não tem dúvida: está
viciada em e-mails. "Saio do cinema e corro para acessar. Não dá
para ficar duas horas sem checá-los", afirma.
Andiara está longe de ser a única a alimentar essa dependência.
Líder mundial em segurança da informação, a Symantec
realizou uma pesquisa com 1.700 usuários em dezessete países e verificou
que 75% deles se consideram viciados no uso de e-mail. Ansiedade, nervosismo por
não ter acesso às mensagens e preocupação excessiva
com os e-mails são reações de quem adquiriu esse novo vício.
Apesar de os distúrbios relacionados à internet não serem
classificados como doença, o fenômeno já chamou a atenção
da Associação Americana de Psiquiatria. O órgão programou
um grupo de pesquisa para avaliar a inclusão do vício em internet
na quinta versão do Manual de Diagnóstico e Estatística
de Distúrbios Mentais, o DSM-V, a ser publicado em 2012.
A compulsão por e-mails é uma extensão da dependência
de internet, problema que se manifesta também com jogos e compras on-line,
salas de bate-papo e sites eróticos. Para os viciados em e-mails, porém,
é mais difícil perceber o problema por causa de um poderoso álibi:
as exigências profissionais. O psiquiatra paulista Cristiano Nabuco teve
contato com essa realidade ao coordenar sessões de psicoterapia com viciados
em internet no Instituto de Psiquiatria da USP. Na primeira experiência
com o grupo, no ano passado, ele orientou uma paciente que gastava até
sete horas de seu dia selecionando e apagando e-mails. "O Brasil é líder
em tempo de conexão doméstica no mundo. O problema tende a aparecer
com mais vigor aqui", observa.
Além
da produtividade, a capacidade intelectual do profissional viciado em e-mails
está em jogo. Foi o que concluiu um estudo da Universidade de Londres,
no qual funcionários testados tiveram redução temporária
de até 10 pontos em seu QI, quando sob a distração de e-mails
e celulares. De tanto ouvir reclamações sobre o problema, a americana
Marsha Egan, consultora de recursos humanos, decidiu criar um programa de recuperação
e, agora, lucra com isso. Ela promove conferências por telefone de uma hora
que custam 30 dólares cada uma e já atraíram mais de 400
pessoas. "O e-mail está aí para ficar. A solução é
mudar os hábitos", afirma. Com essa idéia em mente, a consultora
de moda americana Jojami Tyler, de 46 anos, estabeleceu regras para sua rotina,
ao perceber que checar sua caixa de entrada a cada dois minutos não era
algo normal. Ela não acessa mais a internet após as 21 horas e resiste
a comprar um smartphone. Diz ela: "A única maneira de me ver longe do vício
é desligar o computador".