Eles atrasam a formatura
com uma esperança: a de
que seus estágios levem ao tão sonhado emprego
Marcos Todeschini
Fotos Fabiano Accorsi
LEONARDO
LOMBARDI, 22 anos Curso: engenharia
elétrica Onde estuda:
Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo Diferenciais
no currículo: fala inglês, francês
e italiano Onde faz estágio:
Unibanco Quantas vezes
adiou a formatura para esperar ser contratado: duas
Surgiu
nas universidades brasileiras um tipo novo de estudante: ele
faz de tudo para adiar a data da formatura e chega a levar
o dobro do tempo para concluir o curso. A motivação
desses jovens é uma só. Ansiosos, de olho no
primeiro emprego, eles se mantêm mais tempo como universitários
porque, desse modo, conseguem ao menos permanecer na condição
de estagiários. Sem dissolverem os laços com
as empresas que os recrutaram, esses estudantes têm
mais chances de, um dia, finalmente ser efetivados. Foi o
caso de 64% dos jovens brasileiros que passaram por estágios
no ano passado, segundo o Centro de Integração
Empresa-Escola (CIEE). São as histórias de sucesso
que alimentam a esperança de estudantes como a paulista
Marina Schmalb Guizelini, 22 anos, aluna de administração
de empresas na PUC de São Paulo. Há oito meses
como estagiária no Banco Santander, Marina já
foi avisada pelo chefe de que não será contratada
até o fim do ano, quando se formaria. Angustiada com
a idéia de deixar a universidade sem perspectiva profissional,
ela tomou a difícil decisão de atrasar em meio
ano a conclusão do curso. Assim, terá completado
dois anos de estágio antes de entrar na disputa por
uma vaga. Do ponto de vista financeiro, fez um péssimo
negócio. Marina ganha 1.400 reais no estágio
e gasta para estudar 1 500 reais, pagos com a ajuda dos pais.
Está segura, no entanto, de que vale o investimento:
"Sei que emprego bom é coisa rara, por isso estou fazendo
tudo o que posso para não deixar essa vaga escapar".
A jovem paulista
é uma "estudante profissional", como passaram a ser
rotulados os universitários que, como ela, permanecem
em sala de aula até o dia em que vêem seu estágio
se tornar emprego. Enquanto isso, acumulam experiência
prática, que contará a seu favor na hora da
competição por uma vaga. Foi a forma que eles
encontraram de sobreviver a uma conjuntura que lhes é
bastante desfavorável: o desemprego entre os jovens
universitários supera as (já altas) taxas brasileiras.
Estudo conduzido pela Fundação Getulio Vargas
(FGV) mostra que, apesar das inúmeras tentativas de
estrear no mercado de trabalho, 18% desses jovens ainda não
arranjaram emprego para efeito de comparação,
o desemprego no país é de 9,3%. A atual leva
de universitários está, também, em desvantagem
em relação à geração de
seus pais. Há duas décadas, 200.000 brasileiros
concluíam por ano o curso superior. Ostentar um diploma
no currículo praticamente garantia a conquista de uma
boa vaga no mercado de trabalho. Na era dos estudantes profissionais,
os recém-formados compõem um batalhão
anual quatro vezes maior: na casa de 800.000 jovens. O diploma,
portanto, deixou de impressionar. Além de enfrentarem
uma competição mais dura, os jovens deparam
ainda com outro fato que chama atenção na pesquisa
da FGV: os salários nessa faixa etária vêm
caindo na última década. Um brasileiro que acabou
de sair da universidade deve esperar receber, em média,
465 reais 10% menos do que há uma década.
MARINA SCHMALB GUIZELINI,
22 anos Curso:
administração de empresas Onde estuda: PUC São Paulo Diferenciais no currículo: dois intercâmbios
no exterior e cursos extras de cálculo financeiro
Onde faz estágio: Santander Quantas vezes adiou a formatura para esperar ser contratada:
uma
O cenário
causa tanta aflição a jovens como Sérgio
de Paula, 21 anos, aluno de engenharia na Universidade de
São Paulo (USP), que ele e os colegas anteciparam a
preocupação em arranjar emprego: começaram
a caçar estágios já no 3º ano de
faculdade, uma decisão que os especialistas afirmam
ser cada vez mais comum entre os universitários. No
caso de Sérgio, foi preciso enfrentar sete processos
de seleção, que consumiram mais de um ano e
várias noites insones, até, enfim, obter sucesso.
Sua história joga luz em outro fato apontado pelos
especialistas: colocar-se no mercado de trabalho é
tarefa árdua, também, para os melhores alunos
das boas universidades do país. Nessas ilhas de excelência,
esbarra-se com estudantes que descrevem a briga por uma vaga
como um tormento, caso de Leonardo Trevisan Lombardi, 22 anos,
da USP. Ser um dos bons da turma na Escola Politécnica,
referência para o estudo de engenharia no país,
não poupou Leonardo da decepção de acabar
dispensado de um estágio por falta de vagas. Detalhe:
ele já havia atrasado a formatura na esperança
de ser efetivado. Não deu certo. Num novo estágio,
o rapaz decidiu adiar o fim do curso outra vez. Conclui a
psicóloga Sofia Esteves, diretora da Cia de Talentos,
a maior empresa de recrutamento de jovens do país:
"Eles estão mais preparados do que nunca, mas jamais
demoraram tanto para arranjar trabalho à altura de
sua qualificação". Enquanto aguardam por uma
chance, Marina, Sérgio e Leonardo vão levando
a vida como estudantes.