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Edição 2001

28 de março de 2007
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Estilo
O terno encolheu

Após anos sem grandes inovações, o traje masculino
ganhou novas formas, mais justas de cima a baixo


Bel Moherdaui

Ah, como é doce o momento da vingança, pensarão as mulheres que, diante de um skinny jeans, a calça ultracolada que todas querem usar, precisam se entregar a malabarismos reais (como entrar nela?) e virtuais (como disfarçar o que sobrou para fora?). Ah, agora eles vão ver só, torcem elas, antecipando a hora em que seus contrapontos masculinos serão obrigados a deslizar para dentro de um terno slim, ou seja, o traje agarradíssimo que desponta como a mais firme tendência do guarda-roupa do homem moderno (tradução: o que olha para cima na hierarquia e usa o que os estamentos superiores estão usando). Na prancha dos estilistas, o terno slim fit mudou o paletó – as mangas ficaram mais coladas e mais curtas (o punho da camisa pode ser vislumbrado mesmo com o braço esticado), a cintura mais marcada, o comprimento encurtado – e, principalmente, a calça, que ganhou cintura mais baixa, um corte que acompanha o desenho dos quadris, nádegas e joelhos e, nos mais ousados, se afunila até o tornozelo, deixando um pedacinho à mostra. Na vida real, todos dizem unanimemente: mas eu nunca vou usar isso, olhando para a bizarra figura de Thom Browne (aí na foto à direita), estilista masculino que só se veste assim e quer fazer com que todos os outros sigam o exemplo. Será que não mesmo? A modernização do terno mira justamente nos homens que usam o vestuário como vitrine de seu sucesso profissional. "Nos últimos anos, o terno se vulgarizou. Hoje, veste porteiros, seguranças, manobristas. Isso fez com que perdesse a característica de hierarquia, de diferenciação de estratos sociais, que sempre foi tão forte nele", diz, com impressionante realismo, o estilista Mario Queiroz, coordenador do curso de design de moda da Universidade Anhembi Morumbi. Segundo o jargão dos especialistas, a diferença agora está na quantidade de informação de moda embutida no costume (nome de batismo do conjunto calça-paletó; terno, como o nome indica, constitui-se de três peças, sendo a terceira o praticamente extinto colete). Para mostrar que está do lado certo da mesa do alfaiate, o homus executivus, esse ser acomodado por natureza a seu monocromático e pouco variado armário, acabará obrigado a absorver alguma influência da apertada novidade.

Não sem resistência. "O público está tendo dificuldade de se adaptar a essas mudanças. Um costume não é barato. Quando se trata de roupa para trabalhar, o homem paga o que for preciso, mas faz questão de conforto", diz João Lima, estilista da VR Menswear. Lá, bem como na italiana Ermenegildo Zegna, as adaptações vêm sendo lentamente absorvidas. "No começo, vendíamos o conceito, fazíamos o cliente provar para entender que não era o slim da passarela, mas uma espécie de slim light, mais comercial. Hoje, ele já procura por isso, quer um terno mais certinho, não com a cara de terno do pai", conta Luciano Rossi, gerente-geral da marca no Brasil.

Terno justo não é novidade nenhuma. Os dândis ingleses que aboliram perucas e frufrus e criaram um estilo que o mundo inteiro imitou usavam no século XIX calças apertadíssimas (muitas vezes umedecidas, para ficar ainda mais coladas ao corpo); casacos estruturados, de cintura bem marcada, e uns sapatinhos que pareciam envolver pés amarrados de aristocratas chinesas da mesma época – ninguém dessa turma, evidentemente, tinha de fazer algo tão vulgar quanto trabalhar. Foi dessa fonte que bebeu o francês de origem tunisiana Hedi Slimane, responsável pela linha masculina da Christian Dior, ao encolher o terno – o seu próprio, muito adequado a sua exígua figura, e o dos modelos que põe na passarela desde 2001, primeiro para poucos corajosos, depois para mais e mais clientes. O que Slimane fez, a partir de Paris, com os naturalmente modernos, Thom Browne, fincado em Nova York, quer fazer com os geneticamente conservadores: ele foi contratado pela Brooks Brothers, onde se vestem os estamentos médios e médios superiores das classes dirigentes americanas, para modernizar a tradicional rede. Escolhido estilista masculino do ano em 2006, nos Estados Unidos, Browne parece um alienígena na comportada Brooks Brothers. Mas entende o espírito da coisa: os ternos de sua marca própria, feitos a mão por alfaiates italianos no bairro de Queens, custam 3.500 dólares.

O costume dos dândis virou o terno que vem sendo usado com sucesso, e pequenas variações, há mais de um século por um público que elogia a praticidade e, nesse caso, abre mão alegremente da liberdade de escolha ("É só abrir o armário..."). A mais importante modificação dos últimos tempos aconteceu nos anos 80, quando Giorgio Armani tirou as ombreiras, alargou e, como se diz no meio, desestruturou o terno – ou seja, tornou-o uma roupa mais descontraída, confortável e, quando bem-feita, muito elegante. Encolhê-lo de novo, como a moda exige, é uma batalha. Em média, no terno moderno, justo sem ser justíssimo, o paletó perdeu 2 centímetros no comprimento e 1 centímetro na manga; a calça deveria ficar 1 centímetro acima do salto, mas todos pedem para encompridar; e a largura segue a medida do torso, cintura, quadris e coxas, sem muita sobra. Os novos tecidos tecnológicos prometem aperto com conforto para uma clientela naturalmente desconfiada. "Digo a meus clientes que, se eles tiverem de tomar ônibus com esse terno, talvez incomode. Mas eles não andam de ônibus", brinca o estilista Ricardo Almeida. A quem se habilitar, a maior vantagem: se bem cortado e bem modelado, o terno slim emagrece a figura. Claro que se esta tiver contornos razoavelmente esguios – exatamente como no caso do jeans ultrajusto das mulheres lá do começo, lembram-se? *

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