Após anos
sem grandes inovações, o traje masculino ganhou novas formas,
mais justas de cima a baixo
Bel
Moherdaui
Ah,
como é doce o momento da vingança, pensarão as mulheres que,
diante de um skinny jeans, a calça ultracolada que todas querem
usar, precisam se entregar a malabarismos reais (como entrar nela?) e virtuais
(como disfarçar o que sobrou para fora?). Ah, agora eles vão ver
só, torcem elas, antecipando a hora em que seus contrapontos masculinos
serão obrigados a deslizar para dentro de um terno slim, ou seja,
o traje agarradíssimo que desponta como a mais firme tendência do
guarda-roupa do homem moderno (tradução: o que olha para cima na
hierarquia e usa o que os estamentos superiores estão usando). Na prancha
dos estilistas, o terno slim fit mudou o paletó as mangas
ficaram mais coladas e mais curtas (o punho da camisa pode ser vislumbrado mesmo
com o braço esticado), a cintura mais marcada, o comprimento encurtado
e, principalmente, a calça, que ganhou cintura mais baixa, um corte
que acompanha o desenho dos quadris, nádegas e joelhos e, nos mais ousados,
se afunila até o tornozelo, deixando um pedacinho à mostra. Na vida
real, todos dizem unanimemente: mas eu nunca vou usar isso, olhando para a bizarra
figura de Thom Browne (aí na foto à direita), estilista masculino
que só se veste assim e quer fazer com que todos os outros sigam o exemplo.
Será que não mesmo? A modernização do terno mira justamente
nos homens que usam o vestuário como vitrine de seu sucesso profissional.
"Nos últimos anos, o terno se vulgarizou. Hoje, veste porteiros, seguranças,
manobristas. Isso fez com que perdesse a característica de hierarquia,
de diferenciação de estratos sociais, que sempre foi tão
forte nele", diz, com impressionante realismo, o estilista Mario Queiroz, coordenador
do curso de design de moda da Universidade Anhembi Morumbi. Segundo o jargão
dos especialistas, a diferença agora está na quantidade de informação
de moda embutida no costume (nome de batismo do conjunto calça-paletó;
terno, como o nome indica, constitui-se de três peças, sendo a terceira
o praticamente extinto colete). Para mostrar que está do lado certo da
mesa do alfaiate, o homus executivus, esse ser acomodado por natureza a
seu monocromático e pouco variado armário, acabará obrigado
a absorver alguma influência da apertada novidade.
Não sem resistência. "O público está tendo dificuldade
de se adaptar a essas mudanças. Um costume não é barato.
Quando se trata de roupa para trabalhar, o homem paga o que for preciso, mas faz
questão de conforto", diz João Lima, estilista da VR Menswear. Lá,
bem como na italiana Ermenegildo Zegna, as adaptações vêm
sendo lentamente absorvidas. "No começo, vendíamos o conceito, fazíamos
o cliente provar para entender que não era o slim da passarela,
mas uma espécie de slim light, mais comercial. Hoje, ele já
procura por isso, quer um terno mais certinho, não com a cara de terno
do pai", conta Luciano Rossi, gerente-geral da marca no Brasil.
Terno justo não é novidade nenhuma. Os dândis ingleses que
aboliram perucas e frufrus e criaram um estilo que o mundo inteiro imitou usavam
no século XIX calças apertadíssimas (muitas vezes umedecidas,
para ficar ainda mais coladas ao corpo); casacos estruturados, de cintura bem
marcada, e uns sapatinhos que pareciam envolver pés amarrados de aristocratas
chinesas da mesma época ninguém dessa turma, evidentemente,
tinha de fazer algo tão vulgar quanto trabalhar. Foi dessa fonte que bebeu
o francês de origem tunisiana Hedi Slimane, responsável pela linha
masculina da Christian Dior, ao encolher o terno o seu próprio,
muito adequado a sua exígua figura, e o dos modelos que põe na passarela
desde 2001, primeiro para poucos corajosos, depois para mais e mais clientes.
O que Slimane fez, a partir de Paris, com os naturalmente modernos, Thom Browne,
fincado em Nova York, quer fazer com os geneticamente conservadores: ele foi contratado
pela Brooks Brothers, onde se vestem os estamentos médios e médios
superiores das classes dirigentes americanas, para modernizar a tradicional rede.
Escolhido estilista masculino do ano em 2006, nos Estados Unidos, Browne parece
um alienígena na comportada Brooks Brothers. Mas entende o espírito
da coisa: os ternos de sua marca própria, feitos a mão por alfaiates
italianos no bairro de Queens, custam 3.500 dólares.
O costume dos dândis virou o terno que vem sendo usado com sucesso, e pequenas
variações, há mais de um século por um público
que elogia a praticidade e, nesse caso, abre mão alegremente da liberdade
de escolha ("É só abrir o armário..."). A mais importante
modificação dos últimos tempos aconteceu nos anos 80, quando
Giorgio Armani tirou as ombreiras, alargou e, como se diz no meio, desestruturou
o terno ou seja, tornou-o uma roupa mais descontraída, confortável
e, quando bem-feita, muito elegante. Encolhê-lo de novo, como a moda exige,
é uma batalha. Em média, no terno moderno, justo sem ser justíssimo,
o paletó perdeu 2 centímetros no comprimento e 1 centímetro
na manga; a calça deveria ficar 1 centímetro acima do salto, mas
todos pedem para encompridar; e a largura segue a medida do torso, cintura, quadris
e coxas, sem muita sobra. Os novos tecidos tecnológicos prometem aperto
com conforto para uma clientela naturalmente desconfiada. "Digo a meus clientes
que, se eles tiverem de tomar ônibus com esse terno, talvez incomode. Mas
eles não andam de ônibus", brinca o estilista Ricardo Almeida. A
quem se habilitar, a maior vantagem: se bem cortado e bem modelado, o terno slim
emagrece a figura. Claro que se esta tiver contornos razoavelmente esguios
exatamente como no caso do jeans ultrajusto das mulheres lá do começo,
lembram-se? *