Gestos de solidariedade
e gratidão são
comuns também entre alguns primatas
Ajudar uma pessoa
que está em apuros, ser grato a quem presta algum tipo
de favor, fazer as pazes após uma briga gestos
como esses são inerentes ao ser humano, resultam de
seus valores morais e éticos. Por isso mesmo, foi com
surpresa que os cientistas descobriram que eles também
são comuns entre alguns tipos de primata. Os chimpanzés
não sabem nadar, mas se arriscam nos tanques dos zoológicos
tentando salvar seus colegas. Os macacos rhesus, submetidos
a experiência na qual, para obter comida, tinham de
puxar uma corrente que dava choques elétricos em seus
companheiros, preferiam passar fome. Muitos biólogos
acreditam que esse tipo de comportamento, entre os animais,
é resultado da mesma corrente da evolução
que produziu o senso de moralidade dos seres humanos. A moral
e a ética, que para a filosofia são produto
da inteligência e da capacidade de raciocínio
humanas, na verdade teriam sido gravadas em nosso DNA durante
o processo de evolução da espécie.
O maior defensor
dessa tese é o primatologista holandês Frans
de Waal, que lançou no fim do ano passado o livro Primates
and Philosophers: How Morality Evolved (Primatas e Filósofos:
Como a Moralidade Evoluiu). Segundo De Waal, ao longo da evolução,
os animais que formam comunidades tiveram de imprimir alterações
em seu modo de agir para que a vida em grupo seguisse harmoniosa.
Essas alterações, de acordo com sua tese, resultariam
num conjunto de comportamentos no qual também se baseia
a moralidade humana. No fim do ano passado, o biólogo
Marc Hauser, da Universidade Harvard, colocou lenha na fogueira
ao lançar o livro Moral Minds (Mentes Morais).
Nele, o cientista afirma que o cérebro humano tem um
mecanismo geneticamente desenvolvido para adquirir regras
morais.
Nos últimos
anos, a tese da moralidade produzida através da evolução
foi alvo de pesadas críticas por parte de psicólogos,
filósofos e mesmo alguns biólogos. Agora, começa
a amealhar mais adeptos. "Não tenho dúvidas
de que compartilhamos alguns padrões de comportamento
com os chimpanzés", diz o filósofo americano
Philip Kitcher, da Universidade Columbia. Em meio à
polêmica, o desafio é desvendar o mistério
das semelhanças no modo de agir entre homens e primatas
no que diz respeito ao julgamento do que é certo e
errado.