O
jogador de futebol Romário passa por uma rotina atípica. Na segunda-feira,
estava em campo quinze minutos antes do início do treino no Vasco da Gama.
Treinou. No dia seguinte, chegou ao Aeroporto Internacional do Galeão às
8h30 da manhã, horário em que normalmente estaria dormindo, recuperando-se
de alguma noitada. Embarcou, com os demais jogadores, para Brasília, onde
o time jogaria algo também inusitado na vida de Romário,
acostumado a viajar separado da equipe. O motivo dessa transformação
é o mais novo desafio em que o atacante se lançou: atingir a marca
dos 1.000 gols. Quando se trata de se imortalizar entre os grandes nomes do futebol,
Romário não brinca em serviço. Dono de uma habilidade impressionante,
acabou aplicando fora dos gramados seu drible mais desconcertante. Ao mesmo tempo
em que construiu a imagem de bad boy, notívago, encrenqueiro, administrou
sua carreira como poucos e sempre soube se manter em evidência. Prova disso
é que, aos 41 anos, idade em que jogadores estão aposentados, Romário
saiu do ostracismo causado pela passagem por times obscuros dos Estados Unidos
e Austrália e criou um grand finale para sua carreira. Voltou a ser o centro
das atenções no futebol, tanto aqui quanto lá fora
até a rede árabe Al Jazira o procurou na semana passada.
Construir o próprio mito foi algo que Pelé também fez com
maestria, mas usando o bom-mocismo como marketing pessoal. Romário chegou
lá e ainda tripudia: "Quem tem de ter imagem boa é aparelho de TV".
Ao contrário da maioria dos jogadores, ele soube cuidar das finanças
pessoais. Em vez de ficar se gabando da origem humilde, discurso preferido de
boa parte de seus pares, tratou de cuidar de seus interesses fora dos gramados.
Negociava diretamente seus contratos com os clubes no máximo, arrumava
um procurador para cuidar da parte burocrática. Seu talento para os negócios
lhe rendeu, segundo pessoas próximas a ele, um patrimônio estimado
em algo entre 15 e 20 milhões de dólares, distribuídos em
imóveis, aplicações bancárias, carros importados e
ações. Uma situação tão confortável
que, além de sustentar uma família numerosa, ele se dá ao
luxo de socorrer clubes em dificuldades financeiras. Foi assim com o Flamengo,
a quem já emprestou 700.000 reais para quitação de uma folha
de pagamento. E também com o Vasco, que pegou com ele um empréstimo
bem mais robusto: cerca de 2 milhões de dólares.
Fabio
M.Salles/AE
No
auge, em 1994: Romário liderou a conquista do tetracampeonato
Ultimamente o jogador passou a investir em algo que não lhe dá
dinheiro, mas rende gols: sua preparação física. Desde janeiro,
quando voltou para o Vasco com o objetivo de marcar os quinze gols que faltavam
para o milésimo, Romário parece outro jogador. Participa de quatro
treinos por semana, inclusive os realizados pela manhã, o que era raridade
até pouco tempo atrás. Quando não pode ir ao clube, treina
em casa sob orientação de um fisioterapeuta. Além disso,
mudou seus hábitos alimentares. Substituiu o refrigerante por suco de melancia
e água-de-coco e adotou uma dieta baseada em combinações
rigorosas de alimentos, criada por Hélio Gracie, o mestre do jiu-jítsu.
Emagreceu 2 quilos. Está com os mesmos 74 que tinha na Copa de 1994. Como
ninguém é de ferro, não abandonou por completo as aventuras
noturnas na véspera do jogo em Brasília, contra o Gama, foi
visto em companhia de amigos em uma boate do Lago Sul. Mas, para seus padrões,
anda saindo menos.
Na quarta-feira
passada, quando faltavam apenas dois gols para ele atingir a marca histórica,
Romário falou a VEJA. Disse que ainda se considera o melhor jogador em
atividade no país, num exagero proporcional à façanha que
está próximo de realizar: "Hoje, posso levar desvantagem na força
física e na velocidade. Mas ainda sou tecnicamente o melhor". Sobre o fato
de ter conquistado a admiração do torcedor brasileiro, que fez campanha
pela sua convocação para as Copas de 1994 e 2002, Romário
tem uma teoria. "Sou como todo brasileiro: gosto de mulher, de sair, de me divertir.
Por isso o povão se identifica comigo", disse.
Antes dele, Pelé (autor de 1.281 gols) e o húngaro Puskas (1.171)
haviam realizado essa proeza. Mas o feito vem provocando polêmica. Questiona-se
a validade de parte dos gols contabilizados por Romário. A revista Placar
mostrou que os 998 gols do atacante incluem jogos do tempo de amador e até
partidas entre amigos. Pelas contas da revista, os gols para valer somam 897.
Porém, ao comparar a lista de gols marcados em competições
oficiais, Placar constatou que Romário pode em breve superar o próprio
Pelé. Por esse critério, o atacante do Vasco, com 716 gols, está
a apenas quatro de igualar os 720 de Pelé.
O certo é que o projeto do milésimo gol será o desfecho de
uma carreira espetacular. Tão logo pendure as chuteiras, Romário
vai se dedicar a uma causa que abraçou recentemente: combater o preconceito
contra portadores da síndrome de Down, como sua filha Ivy, de 2 anos, a
caçula da prole de seis filhos. No plano profissional, o jogador não
decidiu ainda o que vai fazer. Só sabe que não será técnico
de futebol. "Como é que eu vou mandar alguém treinar? Não
tenho moral para isso", diz. Bad boy, mas sensato.