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Edição 2001

28 de março de 2007
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Internacional
A Europa apagada

A União Européia celebra os cinqüenta anos de sua criação,
mas a festa não causa euforia porque a economia vai mal


Antonio Ribeiro, de Paris

 
Kai Pfaffenbach/Reuters
SEM O BRILHO DE ANTES
Símbolo do euro diante do Banco Central Europeu: burocracia, desemprego e visão curta

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"Evite a burocracia. Oriente, não imponha. As regras devem ser mínimas." Os conselhos de Jean Monnet, arquiteto do Tratado de Roma, o acordo multinacional para remover tarifas alfandegárias no comércio de aço e carvão, pedra fundamental da União Européia, foram proféticos. No Velho Continente, trafega-se em auto-estradas impecáveis dos fiordes escandinavos às praias cantábricas sem cruzar com batalhas nem mostrar o passaporte e pagando com moeda única – o euro. A modernidade ocupa cada canto desse "pomar" da Terra e até ajuda na conservação das suas ruínas. Os que governam os 27 países da União Européia são eleitos pelo sistema democrático. O índice de pobreza europeu é o menor do mundo. Contudo, a situação inédita na região não desperta em seu meio bilhão de habitantes a confiança de outrora. Ao menos, não como sugeriam os filósofos do Iluminismo. Ou seja, o futuro próspero é uma conseqüência inevitável. Ao completar cinqüenta anos, a UE vive uma espécie de crise de meia-idade. Ela deu as costas para a Europa que inspirou suas instituições e anda sem visão.

O espírito empreendedor nato do europeu está asfixiado por um formidável arsenal normativo. Os 20.000 euroburocratas pretendem regulamentar detalhes como a curvatura dos pepinos e o diâmetro dos preservativos. Os governantes de países fundadores da União Européia – Alemanha, França, Bélgica e Itália – hesitam estabelecer a justa medida entre o estado de bem-estar social e o crescimento econômico vigoroso e com mais empregos. A Europa, berço da civilização ocidental, sempre empunhou a espada, a pena e a cruz com a força de sua economia. Durante décadas, a maioria dos países da União Européia sustentou um modelo socioeconômico generoso, menos competitivo se comparado ao dinamismo dos Estados Unidos. A fadiga tornou-se notável. Pelo sétimo ano consecutivo, os americanos, trabalhando mais, geraram riqueza superior e criaram o dobro de empregos. A fortaleza comercial européia balança a cada desembarque de um contêiner com produtos bons e baratos, feitos na China, para onde migra parte de suas indústrias.

Berlim, cidade-símbolo da vitória da paz, união e prosperidade contra a violência, divisão e ódio do nazismo e do comunismo, foi escolhida como palco para comemorar o cinqüentenário. Sobram razões para celebrar. No entanto, a paz é considerada aquisição perene. Não há euforia nas ruas. Líderes dos 27 países, reunidos na capital alemã unificada, querem revigorar, proclamando mais uma esmerada declaração, o ânimo europeu, abalado desde o solavanco de 2005. Nas palavras de Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Européia: "Em estado de coma leve". Embora dezoito países tenham ratificado a Constituição Européia e quatro outros estivessem prontos a fazê-lo, a França e a Holanda vetaram-na por meio de referendos populares, engavetando o calhamaço de 300 páginas. As instituições européias, criadas para funcionar com seis países, nunca foram regidas por Constituição. Elas continuaram funcionando sem nenhuma. Os europeus não estão interessados em questões institucionais, mas em qualidade de vida. Mesmo votando contra, 71% dos franceses consideram-se europeus. Ninguém duvida. A questão é outra. A cada chegada de um novo membro à União Européia, a influência nacional diminui e o processo decisório fica mais complexo.

A razão do "não" foi o medo de competição, mais conhecido como a "síndrome do encanador polonês". A livre circulação de serviços beneficia os trabalhadores da Europa Central, cuja mão-de-obra é mais barata. Ela permite morar e até se aposentar em qualquer lugar da União Européia. Os eleitores viram o texto constitucional como uma cilada contra as leis nacionais protetoras. Há quem faça a seguinte aposta: se o desemprego não fosse tão alto nos países do veto, o "sim" teria ganho. Efetivamente, a adesão de uma dezena de países do ex-bloco soviético, agora com economias de mercado flexíveis, aumentou a competição européia e contribuiu para a retomada do crescimento. Nada comparado aos tempos do Tratado de Roma. Naquela época, a Alemanha Ocidental estava em pleno Wirtschaftswunder – o milagre econômico do crescimento rápido, baixo desemprego e aumento do poder aquisitivo. O entusiasmo popular era contagiante. O primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, resumiu o impasse europeu atual: "Nós todos sabemos o que se deve fazer, só não sabemos como nos reeleger depois de feito".

Há um caloroso debate sobre se a Turquia, muçulmana, deve ser aceita no clube europeu. Bento XVI considera a Europa o espaço da cristandade. Ela não deixou de ser quando a harmonia entre católicos, judeus e muçulmanos fez o esplendor do que se chama hoje Espanha. A Inquisição, além de queimar pessoas e mergulhar no obscurantismo, drenou recursos. A Turquia não preenche, completamente, os critérios de democracia, economia de mercado e respeito aos direitos humanos exigidos pela União Européia. Até pouco tempo atrás, Portugal, Espanha e Grécia eram ditaduras. A adesão à União Européia ajuda a colocar as instituições dos países em compasso com a modernidade. A Turquia é européia para pertencer à Otan, a aliança militar do Ocidente. A essência da questão é o PIB per capita turco, de 2 800 euros, enquanto o da Romênia, o país mais pobre da UE, já está em 3 600 euros. Os pilares da União Européia são a força e o equilíbrio econômico dos países. A Itália corre o risco de deixar a zona do euro se não controlar o déficit público colossal. As fronteiras da União Européia poderão ir do Saara à Sibéria. A economia decidirá.

 

AS RAZÕES DO SUCESSO

JARED DIAMOND, da Universidade da Califórnia, é autor do livro Armas, Germes e Aço, no qual analisa por que as idéias que moldaram o mundo moderno surgiram na Europa e não em qualquer outro continente. Diamond conversou com a repórter Gabriela Carelli.

POR QUE A EXPLOSÃO CULTURAL QUE MUDOU O MUNDO OCORREU NA EUROPA?
Há razões geopolíticas para esse caldeirão de criatividade. Idéias novas e pouco ortodoxas dificilmente aparecem sob uma ditadura que governe um grande território. Foi assim na Rússia, nos últimos 200 anos, e na China, nos últimos 2 000. A Europa nunca foi politicamente unificada em toda a sua história.  

COMO ESSA DESUNIÃO PROMOVEU A CRIATIVIDADE?
Colombo é um bom exemplo. Teve a louca idéia de navegar para o oeste. Italiano, pediu dinheiro em seu país. Foi chamado de estúpido. O rei francês o chamou de idiota. Na Espanha, ouviu outros insultos antes de convencer o rei a investir na expedição. A desunião européia deu a Colombo não uma segunda, mas uma sétima chance. Os pensadores que fizeram a Renascença, o marxismo, a imprensa, a astronomia moderna e as armas tiveram suas idéias repudiadas em partes da Europa e aceitas em outras.  

POR QUE A CHINA NÃO EXERCEU IGUAL INFLUÊNCIA?
Apesar de a China ser o berço de grandes invenções, como a mineração, o papel, o compasso, os lemes de navio, o governo chinês sempre criou entraves ao progresso. Em 1432, a China tinha os melhores navios do mundo e poderia talvez até tentar a conquista da Europa. Mas o imperador não quis. A China começou sua própria Revolução Industrial baseada na energia da água, mas o imperador abortou o progresso.  

O SENHOR ACREDITA QUE EXISTE UM PASSADO COMUM EUROPEU?
Há valores comuns aos povos europeus, como a impetuosidade. Alguns deles motivaram a explosão de idéias. Outros só atrasaram a Europa, causando guerras.  

A UNIÃO EUROPÉIA TROUXE ALGUMA MUDANÇA NA CONSTITUIÇÃO DE UMA IDENTIDADE EUROPÉIA?
Toda vez que viajo para a Europa me impressiono ao ver como a migração entre os países foi facilitada. Professores alemães interagem com colegas ingleses e franceses. Se a União Européia der certo, a Europa será a combinação das vantagens dimensionais da China com o sistema federativo americano.

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