"Evite
a burocracia. Oriente, não imponha. As regras devem ser mínimas."
Os conselhos de Jean Monnet, arquiteto do Tratado de Roma, o acordo multinacional
para remover tarifas alfandegárias no comércio de aço e carvão,
pedra fundamental da União Européia, foram proféticos. No
Velho Continente, trafega-se em auto-estradas impecáveis dos fiordes escandinavos
às praias cantábricas sem cruzar com batalhas nem mostrar o passaporte
e pagando com moeda única o euro. A modernidade ocupa cada canto
desse "pomar" da Terra e até ajuda na conservação das suas
ruínas. Os que governam os 27 países da União Européia
são eleitos pelo sistema democrático. O índice de pobreza
europeu é o menor do mundo. Contudo, a situação inédita
na região não desperta em seu meio bilhão de habitantes a
confiança de outrora. Ao menos, não como sugeriam os filósofos
do Iluminismo. Ou seja, o futuro próspero é uma conseqüência
inevitável. Ao completar cinqüenta anos, a UE vive uma espécie
de crise de meia-idade. Ela deu as costas para a Europa que inspirou suas instituições
e anda sem visão.
O espírito
empreendedor nato do europeu está asfixiado por um formidável arsenal
normativo. Os 20.000 euroburocratas pretendem regulamentar detalhes como a curvatura
dos pepinos e o diâmetro dos preservativos. Os governantes de países
fundadores da União Européia Alemanha, França, Bélgica
e Itália hesitam estabelecer a justa medida entre o estado de bem-estar
social e o crescimento econômico vigoroso e com mais empregos. A Europa,
berço da civilização ocidental, sempre empunhou a espada,
a pena e a cruz com a força de sua economia. Durante décadas, a
maioria dos países da União Européia sustentou um modelo
socioeconômico generoso, menos competitivo se comparado ao dinamismo dos
Estados Unidos. A fadiga tornou-se notável. Pelo sétimo ano consecutivo,
os americanos, trabalhando mais, geraram riqueza superior e criaram o dobro de
empregos. A fortaleza comercial européia balança a cada desembarque
de um contêiner com produtos bons e baratos, feitos na China, para onde
migra parte de suas indústrias.
Berlim, cidade-símbolo da vitória da paz, união e prosperidade
contra a violência, divisão e ódio do nazismo e do comunismo,
foi escolhida como palco para comemorar o cinqüentenário. Sobram razões
para celebrar. No entanto, a paz é considerada aquisição
perene. Não há euforia nas ruas. Líderes dos 27 países,
reunidos na capital alemã unificada, querem revigorar, proclamando mais
uma esmerada declaração, o ânimo europeu, abalado desde o
solavanco de 2005. Nas palavras de Jacques Delors, ex-presidente da Comissão
Européia: "Em estado de coma leve". Embora dezoito países tenham
ratificado a Constituição Européia e quatro outros estivessem
prontos a fazê-lo, a França e a Holanda vetaram-na por meio de referendos
populares, engavetando o calhamaço de 300 páginas. As instituições
européias, criadas para funcionar com seis países, nunca foram regidas
por Constituição. Elas continuaram funcionando sem nenhuma. Os europeus
não estão interessados em questões institucionais, mas em
qualidade de vida. Mesmo votando contra, 71% dos franceses consideram-se europeus.
Ninguém duvida. A questão é outra. A cada chegada de um novo
membro à União Européia, a influência nacional diminui
e o processo decisório fica mais complexo.
A razão do "não" foi o medo de competição, mais conhecido
como a "síndrome do encanador polonês". A livre circulação
de serviços beneficia os trabalhadores da Europa Central, cuja mão-de-obra
é mais barata. Ela permite morar e até se aposentar em qualquer
lugar da União Européia. Os eleitores viram o texto constitucional
como uma cilada contra as leis nacionais protetoras. Há quem faça
a seguinte aposta: se o desemprego não fosse tão alto nos países
do veto, o "sim" teria ganho. Efetivamente, a adesão de uma dezena de países
do ex-bloco soviético, agora com economias de mercado flexíveis,
aumentou a competição européia e contribuiu para a retomada
do crescimento. Nada comparado aos tempos do Tratado de Roma. Naquela época,
a Alemanha Ocidental estava em pleno Wirtschaftswunder o milagre econômico
do crescimento rápido, baixo desemprego e aumento do poder aquisitivo.
O entusiasmo popular era contagiante. O primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude
Juncker, resumiu o impasse europeu atual: "Nós todos sabemos o que se deve
fazer, só não sabemos como nos reeleger depois de feito".
Há um caloroso debate sobre se a Turquia, muçulmana, deve ser aceita
no clube europeu. Bento XVI considera a Europa o espaço da cristandade.
Ela não deixou de ser quando a harmonia entre católicos, judeus
e muçulmanos fez o esplendor do que se chama hoje Espanha. A Inquisição,
além de queimar pessoas e mergulhar no obscurantismo, drenou recursos.
A Turquia não preenche, completamente, os critérios de democracia,
economia de mercado e respeito aos direitos humanos exigidos pela União
Européia. Até pouco tempo atrás, Portugal, Espanha e Grécia
eram ditaduras. A adesão à União Européia ajuda a
colocar as instituições dos países em compasso com a modernidade.
A Turquia é européia para pertencer à Otan, a aliança
militar do Ocidente. A essência da questão é o PIB per capita
turco, de 2 800 euros, enquanto o da Romênia, o país mais pobre da
UE, já está em 3 600 euros. Os pilares da União Européia
são a força e o equilíbrio econômico dos países.
A Itália corre o risco de deixar a zona do euro se não controlar
o déficit público colossal. As fronteiras da União Européia
poderão ir do Saara à Sibéria. A economia decidirá.
AS RAZÕES DO SUCESSO
JARED DIAMOND, da Universidade da Califórnia, é autor do
livro Armas, Germes e Aço, no qual analisa por que as idéias
que moldaram o mundo moderno surgiram na Europa e não em qualquer outro
continente. Diamond conversou com a repórter Gabriela Carelli.
POR QUE A EXPLOSÃO CULTURAL QUE MUDOU O
MUNDO OCORREU NA EUROPA? Há razões geopolíticas para
esse caldeirão de criatividade. Idéias novas e pouco ortodoxas dificilmente
aparecem sob uma ditadura que governe um grande território. Foi assim na
Rússia, nos últimos 200 anos, e na China, nos últimos 2 000.
A Europa nunca foi politicamente unificada em toda a sua história.
COMO ESSA DESUNIÃO PROMOVEU A
CRIATIVIDADE? Colombo é um bom exemplo. Teve a louca idéia
de navegar para o oeste. Italiano, pediu dinheiro em seu país. Foi chamado
de estúpido. O rei francês o chamou de idiota. Na Espanha, ouviu
outros insultos antes de convencer o rei a investir na expedição.
A desunião européia deu a Colombo não uma segunda, mas uma
sétima chance. Os pensadores que fizeram a Renascença, o marxismo,
a imprensa, a astronomia moderna e as armas tiveram suas idéias repudiadas
em partes da Europa e aceitas em outras.
POR
QUE A CHINA NÃO EXERCEU IGUAL INFLUÊNCIA? Apesar de a China
ser o berço de grandes invenções, como a mineração,
o papel, o compasso, os lemes de navio, o governo chinês sempre criou entraves
ao progresso. Em 1432, a China tinha os melhores navios do mundo e poderia talvez
até tentar a conquista da Europa. Mas o imperador não quis. A China
começou sua própria Revolução Industrial baseada na
energia da água, mas o imperador abortou o progresso.
O SENHOR ACREDITA QUE EXISTE UM PASSADO COMUM EUROPEU?
Há valores comuns aos povos europeus, como a impetuosidade. Alguns deles
motivaram a explosão de idéias. Outros só atrasaram a Europa,
causando guerras.
A UNIÃO
EUROPÉIA TROUXE ALGUMA MUDANÇA NA CONSTITUIÇÃO DE
UMA IDENTIDADE EUROPÉIA? Toda vez que viajo para a Europa me impressiono
ao ver como a migração entre os países foi facilitada. Professores
alemães interagem com colegas ingleses e franceses. Se a União Européia
der certo, a Europa será a combinação das vantagens dimensionais
da China com o sistema federativo americano.