Montagem sobre fotos Daniel Berehulak/Getty
Images, Michael Krumphanz/AP e Arnd Wiegmann/Reuters
A Europa, que nos deu os vinhos
e as idéias, completa meio século sem fronteiras. Se a União
Européia der certo, seu modelo poderá ser outra das magníficas
contribuições do continente à construção
do mundo moderno
A
Europa é uma península que se projeta da grande massa asiática,
sem que exista acordo a respeito de onde começa. Escreveu um geógrafo
alemão: "Chamar a isso continente é claramente um abuso de linguagem".
Diante dessa dificuldade, outro alemão, o cardeal Joseph Ratzinger, hoje
papa Bento XVI, propõe uma definição por parâmetros
diferentes: "A Europa não é um continente nitidamente perceptível
em termos geográficos. É, na verdade, um conceito cultural e histórico",
escreveu em Europa, livro de 2004. Soa apropriado que o berço das
idéias que moldaram o mundo moderno seja mais bem definido por um conceito
fluido, o pensamento humano e não por montanhas e oceanos, como
a África. A Europa do império romano incluía as terras em
torno do Mediterrâneo, que em virtude de suas ligações culturais,
do comércio e do sistema político comum formavam um verdadeiro "continente",
escreve Ratzinger. Foi o avanço do Islã nos séculos VII e
VIII que traçou uma fronteira pelo Mediterrâneo, separando Ásia,
África e Europa. Quando a Europa iniciou sua espetacular revolução
criativa no século XVI, nota o historiador americano Jacques Barzun, também
não se podia pensar nos limites atuais, pois os Bálcãs permaneciam
sonolentamente sob o domínio dos turcos muçulmanos.
A peculiar trajetória do conceito é aqui relembrada em razão
dos cinqüenta anos da assinatura do Tratado de Roma, que deu origem ao que
agora é a União Européia e, mais uma vez, redefiniu
o que é Europa. Graças a essa organização, o continente
é sinônimo de "tolerante" e "civilizado" e não apenas
de eugenia, guerras étnicas, religiosas e ideológicas. Em 25 de
março de 1957, numa cerimônia sem muitas fanfarras, seis nações
aceitaram com alguma pressão americana fundir parte da soberania
de cada uma delas numa instituição multinacional que representasse
um profundo rompimento com o passado. Apenas uma década antes, esses mesmos
países tinham estraçalhado uns aos outros na II Guerra Mundial.
O tratado estabeleceu como objetivo prático quatro liberdades fundamentais:
livre movimento de mercadorias, pessoas, serviços e capitais. A isso se
daria o nome de Mercado Comum Europeu e, mais tarde, de União Européia.
O rápido
crescimento econômico decorrente da estabilidade criada
pelo mercado comum foi uma das razões para que muitos
países se entusiasmassem com a integração
européia. O projeto complicou-se com a queda do Muro
de Berlim, em 1989. A União Européia passou
a incorporar países que pouco antes tinham escapado
à Cortina de Ferro do comunismo, muitos deles com padrão
de vida similar ao da Europa Ocidental nos anos 50. Hoje são
27 países, incluindo três antigas repúblicas
soviéticas. Por outro lado, nessa fase, o panorama
tornou-se sombrio. O crescimento econômico é
lento, o desemprego, alto (veja
reportagem). Muitos europeus "antigos" se opõem
à expansão para o Leste, a maioria torce o nariz
à candidatura da Turquia e praticamente ninguém
está imune à inquietação causada
pelo aumento da imigração muçulmana.
Gerard Cerles/AFP
PRIMEIROS TEMPOS Painel com a assinatura do Tratado de Roma: acordo
entre velhos inimigos
Qualquer
pessoa ao completar 50 anos naturalmente reserva alguns momentos para fazer um
balanço da própria vida. A União Européia passa igualmente
por uma crise da meia-idade. Ela é perceptível sobretudo num sentimento
difuso de desconforto entre seu meio bilhão de habitantes. Mesmo os governantes
estão confusos sobre o que querem fazer com a União Européia.
Uma pesquisa feita pelo jornal inglês Financial Times na semana passada
na Inglaterra, na Espanha, na França, na Alemanha e na Itália mostrou
que 44% dos entrevistados acreditam que a vida em seus países piorou desde
a formação do bloco. Ao ler esses resultados, o cineasta polonês
Krzysztof Zanussi, citado pelo colunista inglês Timothy Garton Ash, interpretou
o sentimento negativo dos europeus da seguinte forma: "Se a Europa fosse uma pessoa,
precisaria ser encaminhada a um psiquiatra". Sim, para a terapia, pois a realidade
européia é muito melhor que sua percepção popular.
Abaixo estão alinhadas algumas facilidades que tornam mais agradável
a vida dos cidadãos da União Européia e são invejadas
em outros países:
Os europeus podem viajar e trabalhar onde quiserem dentro da União
Européia. O livre movimento de pessoas é uma realidade que só
existe lá.
A moeda única, o euro, foi adotada em treze países. Simplificou
a vida de quem viaja ou faz negócios, tornou os preços transparentes
e substituiu moedas fracas por outra mais forte.
Mais de 1,5 milhão de jovens se beneficiaram do projeto Erasmus,
um programa de intercâmbio universitário, e freqüentam universidades
de outros países europeus.
Com ajuda financeira dos mais ricos, países antes periféricos,
como a Espanha e a Irlanda, tornaram-se a versão européia dos Tigres
Asiáticos.
O futebol europeu reúne agora os melhores craques do mundo.
Os cinqüenta anos antes do Tratado de Roma incluem duas guerras mundiais
e uma depressão brutal. Os cinqüenta seguintes trouxeram paz e prosperidade
numa escala inimaginável na história européia. É possível
que a presença da Otan tenha ajudado, mas a Europa atravessou tantos horrores
no século XX que os líderes do pós-guerra precisaram de pouco
incentivo para entender o valor da cooperação. Nesse cenário,
mais uma vez é preciso separar a Europa em partes. Não houve paz
do outro lado da cortina de ferro. Tanques soviéticos abriram fogo na Alemanha
em 1953, na Hungria em 1956, na Checoslováquia em 1968, e o estado de guerra
foi declarado na Polônia em 1981. Nos anos 90, os americanos foram chamados
duas vezes para colocar ordem nos Bálcãs.
Os europeus gostariam que a Europa voltasse a ser um centro de poder mundial.
A moeda única deu a impressão de que surgia uma superpotência.
Aí começaram as matanças decorrentes da dissolução
da Iugoslávia, e o eleitorado europeu demonstrou não ter estômago
para os deveres bélicos de uma superpotência. Em 2005, incertos em
relação ao futuro, os eleitores franceses e holandeses rejeitaram
o projeto de uma Constituição européia. Sem a união
política, o sonho de superpotência foi arquivado. O cenário
descrito acima não é, necessariamente, o de um fracasso. "Talvez
as velhas medidas de poder e influência não sejam mais adequadas
ao nosso tempo", escreveu a revista Time. "Os horrores do Iraque são
testemunha dos limites da força bruta."
A Europa é única por sua criatividade. Durante meio milênio,
a partir do século XVI, aquela ponta da Ásia que avança para
oeste serviu de berço para um surto revolucionário nas artes, nas
ciências, na teologia, na filosofia, no pensamento social e na tecnologia.
Os europeus, relativamente pequenos em número, saíram com seus navios
e conquistaram o restante do mundo. Esse movimento de alcance universal forneceu
a raiz e o molde sobre os quais se construiu o mundo moderno. Por que todo esse
esplendor criativo ocorreu na Europa é uma pergunta para a qual os historiadores
encontram respostas surpreendentes. O historiador David Landes, da Universidade
Harvard e autor de A Riqueza e a Pobreza das Nações, acredita
que a Europa foi favorecida pela fragmentação de seu território
em numerosos estados rivais. Nessa disputa, inovações e talentos
eram recursos valiosos. O conhecimento tornou-se uma fonte de prestígio
e riqueza. Mal recebido ou perseguido em um reino, um inventor, um cientista,
um pintor, um teólogo podia simplesmente mudar-se para um estado onde seu
talento fosse mais apreciado.
Na época das navegações, os chineses tinham navios muito
melhores que os europeus, mas eram arrogantes demais para contornar a África,
pois nada havia a aprender com os bárbaros ocidentais. Os muçulmanos
chegaram a rejeitar o uso das técnicas de impressão por temer erros
tipográficos que pudessem alterar o Corão. Não é
exagero supor que a falta de impressoras é uma das causas da fossilização
islâmica. No Ocidente, a Reforma protestante que marca o início
da era moderna foi possível porque as idéias de Lutero eram
impressas e circulavam rapidamente. Ela incentivou o uso das línguas vernaculares
e o senso de nacionalismo, o que acabaria levando ao estado-nação
(outra invenção européia). Também mudou a atitude
em relação ao trabalho e aos sentimentos humanos. Por fim, ao longo
do tempo, obrigou a Igreja Católica a também se modernizar e se
adaptar. De várias maneiras se vivem tempos igualmente revolucionários
e criativos. Durante aquele meio milênio de maravilhas, a Europa criou o
coração, a alma e a mente modernos. Será fantasia imaginar
que o modelo da União Européia poderia ser a nova contribuição
da Europa para um mundo melhor?