Fernando Collor
volta à cena de olho
no futuro e tentando
enganar a história
Otávio Cabral
Sergio
Lima/Folha Imagem
Collor ficou a cara de MacNavalha,
o anti-herói vivido por Andreas Frege
O senador Fernando
Collor reapareceu com cabelos escurecidos e dentes muito brancos,
escondendo uma língua afiada como punhal. O visual
remete à figura de MacNavalha, da balada medieval,
transformado em anti-herói pelo alemão Bertolt
Brecht. Collor tem promovido um constrangedor reencontro com
a própria história. Há duas semanas,
ele foi à tribuna do Senado e fez seu primeiro pronunciamento
como parlamentar, exatamente quinze anos depois de ter sido
afastado da Presidência da República. Por pena,
respeito, cumplicidade ou outro sentimento menos nobre, os
senadores ouviram passivos Collor chorar e se colocar no papel
de vítima de uma farsa política. Na quarta-feira
passada, o senador Pedro Simon, que integrou a CPI que investigou
as atividades do governo Collor, lembrou aos esquecidos que
o ex-presidente foi afastado do cargo porque ficou provado
que ele e sua família se aproveitaram de um esquema
de corrupção montado pelo seu amigo e tesoureiro
de campanha Paulo César Farias. Não houve perseguição,
abuso ou preconceito. Collor sofreu impeachment porque não
soube honrar o cargo para o qual foi eleito. As instituições
funcionaram como deviam e ponto final. Collor pretende reconstruir
sua carreira política, tem o direito de fazê-lo,
mas não é um bom início apostar no futuro
começando por tentar maquiar o passado.
Ed
Ferreira/AE
Simon: o que houve foi corrupção
Na semana passada, Fernando Collor esteve com o presidente
Lula. Foi a primeira vez que ele voltou ao Palácio
do Planalto depois da cassação. O senador foi
recebido pelo presidente na condição de representante
do PTB. Um dos presentes ao encontro contou que houve momentos
de camaradagem. Nem parecia que os personagens ali já
haviam protagonizado o episódio da exposição
pública de uma delicada questão pessoal de Lula:
a existência de uma filha fora do casamento. "É
como se fosse uma coisa que nem sequer tivesse existido",
explicou Collor, sobre as antigas divergências. Collor
tem dito a amigos que pretende disputar as eleições
presidenciais de 2010 pelo PTB de Roberto Jefferson. O senador
se diz surpreso com a popularidade. Garante ouvir constantemente
de taxistas, garçons e até dos funcionários
do Senado apelos para que se candidate novamente à
Presidência. "Após os escândalos do governo
Lula, a minha vida mudou. Nunca mais fui hostilizado", diz.
Collor avalia que, em princípio, não tem chance
de se eleger, mas pode ter uma votação significativa
e voltaria a ter influência na política nacional.
Ainda assim não se pode querer apagar o passado. "Doch
das Messer sieht man nicht..."