A fórmula
do sucesso do brasileiro da Calvin Klein
é simples: trabalhar como um louco e estar ligado
em tudo mas sempre de jeans e camiseta
Silvia Rogar
Oscar Cabral
"Detesto preguiça,
gente que não gosta de pensar. Fico instigando
quem trabalha comigo o tempo todo, e algumas pessoas já
saíram da equipe"
Estilistas brasileiros costumam
alardear suas incursões no exterior como o impulso
inicial para um fulgurante vôo internacional, mas muito
poucos efetivamente conseguem decolar. Mineiro de Guarani,
Francisco Costa, 41 anos, nem entrou na ponte aérea:
fez carreira em Nova York e chegou ao comando da linha mais
sofisticada de roupas da grife Calvin Klein. Com uma visão
cristalina sobre o que quer fazer como estilista, integra
hoje a elite da indústria da moda aquela que
delineia novas tendências a cada mudança de estação,
veste celebridades no tapete vermelho e faz algumas das roupas
mais caras e cobiçadas do planeta. O reconhecimento
maior veio no ano passado, quando recebeu o prêmio de
melhor estilista do segmento feminino do Council of Fashion
Designers of America (CFDA). Costa é pouco conhecido
no Brasil, onde nunca assinou uma coleção. Vive
há 22 anos no exterior. Com conhecimento de causa,
diz que, ao contrário das aparências, há
pouco glamour no mundo da moda. "Se você está
ali para competir, tem de saber que se trabalha 24 horas",
avisa. Na semana passada, tímido, mas com plena segurança
sobre seu métier, falou a VEJA.
Veja Um
brasileiro que começa do nada e chega ao topo do mundo
da moda em Nova York causa estranheza? Alguma vez você
foi esnobado, tratado como um cucaracha? Costa Com
certeza aconteceram alguns episódios do gênero,
mas não dou importância a ponto de lembrar de
cada um. Se você ficar inseguro por ser latino, vai
ser afetado pela idéia. E pode acabar perdendo o foco
do trabalho. Quando comecei a trabalhar com o Calvin, sabia
que a companhia iria passar por mudanças. Mas não
tinha idéia de que, em pouco tempo, eu iria substituí-lo.
Quando a notícia foi divulgada, todas as pessoas que
faziam parte da minha equipe saíram. Nesse caso, até
acredito que algumas não tenham gostado da idéia
de ter como chefe um brasileiro recém-chegado à
companhia. Mas eu vi isso como a melhor coisa que poderia
acontecer naquele momento. Em vez de ficar louco, encarei
aquilo como uma vida nova para fazer o meu trabalho.
Veja Quem
não conhece imagina a indústria da moda como
um ambiente cheio de gente sonhadora e delicada. Como enfrentou
a extrema competitividade que está por trás
dessa imagem romântica? Costa
A competição
é uma faca de dois gumes. Ela é fundamental
para a moda se desenvolver. Mas também cria uma tensão
que pode ser negativa. Eu preferi focar na criação,
construí a minha história sem olhar muito para
os lados ou dar muita bola para os egos. É isso que
segura você na moda, que, realmente, é um ramo
traiçoeiro e, muitas vezes, chato. O segredo é
levar o trabalho a sério e, ao mesmo tempo, não
se levar a sério demais. É cafona encarnar o
personagem do estilista, que se veste como tal. Eu sempre
vivi de jeans e camiseta. Isso é uma viagem de cada
um. Assumi a minha personalidade pão de queijo.
Veja Não
é impossível ficar fora do clima de O Diabo
Veste Prada? Costa Sou
muito exigente. Detesto preguiça, gente que não
gosta de pensar. Fico instigando quem trabalha comigo o tempo
todo, e algumas pessoas já saíram da minha equipe.
Disseram que não agüentavam mais a pressão.
Mas moda é isso. Se você está ali para
competir, tem de saber que trabalha 24 horas. Não é
uma área light. É pesadíssima, com pressão
de todos os lados. É um martírio. Você
se expõe em lojas e revistas, seu trabalho está
sempre em evolução e à disposição
do mercado. Mesmo quando não está trabalhando,
precisa estar ligado em tudo para buscar inspiração.
Sou muito intenso no trabalho, deixo todo mundo louco.
Veja Não
há um certo exagero nisso? Costa Adoro
o que eu faço. Mas não me preocupo muito com
o que as outras pessoas fazem. Não sou de ler revista
de moda, por exemplo, coisa que eu deveria me esforçar
para fazer. Acho mais divertido ler livros, revistas de arquitetura
e de decoração. Detesto falar de moda, prefiro
diversificar.
Veja Como
personalidade da indústria da moda, sua vida pessoal
também conta na sua imagem pública? Costa
Tenho uma relação que já dura dezesseis
anos com um americano de Nova Jersey. Ele é treinador
de cavalos. A gente se completa, porque trabalha em áreas
muito diferentes. Mas ele é superligado em moda. E,
de certa maneira, me ajudou a entrar para a Calvin Klein.
Antes de sair da Gucci, fiz uma entrevista de trabalho com
o Calvin, mas achei que não era hora de mudar. Um ano
depois, fui convidado para trabalhar na Balmain e aceitei.
Só que, depois, fui checar toda a estrutura da empresa
e mudei de idéia. Decidi voltar para Nova York. Meu
companheiro conhece Barry Schwartz, que era sócio do
Calvin, e falou a meu respeito. O cargo ainda estava vago
e fui imediatamente chamado.
Veja
No fim dos anos 80 e ao longo dos 90, aconteceu a consagração
do estilista celebridade, caso de Gianni Versace e de Tom
Ford, que reergueu a Gucci. Ainda é possível,
hoje, ter um modo de viver menos espalhafatoso? Costa Hoje,
existem duas opções para ter sucesso como estilista.
Se você é um grande marqueteiro, pode seguir
esse caminho na moda. Mas, se esse não é o seu
perfil, pode investir no design, na modelagem, saber como
cortar bem uma roupa e é isso o que mais me
atrai. Esse papel é novo em grifes como a Calvin Klein,
que sempre foram mais ligadas ao produto, ao marketing. Mas,
atualmente, existe muita competição e as marcas
precisam também de uma linha mais sofisticada para
conquistar mercado.
Veja É
uma tarefa difícil substituir um ícone americano
como Calvin Klein. Qual deve ser a sua marca pessoal na grife? Costa Em
seus 35 anos de carreira, Calvin optou pelo minimalismo. Entrar
ali e fazer o mesmo que ele fez seria medíocre. Finalmente,
depois de quatro anos, acho que cheguei à nova essência,
a um balanço, na coleção apresentada
em fevereiro passado. É um minimalismo atual, mais
sexy, mais feminino, um pouco mais decorativo para driblar
a competição. Hoje, você tem de oferecer
mais: ninguém quer um blazer de três botões
simplesmente por ser um blazer de três botões.
Isso ele encontra hoje nas linhas mais populares. Tenho de
oferecer algo diferente.
Veja
O que as pessoas querem hoje? Costa
Elas não sabem o que querem. Hoje, existe muita oferta
e ficou mais difícil para a mulher identificar o que
é estilo, bom gosto. Você entra numa loja e tem
muitas opções. Isso deixa o consumidor confuso.
Veja A
linha que traz sua assinatura chega ao Brasil em maio. Existem
produtos específicos para as brasileiras? Costa Ainda
não, mas essa é uma das metas que tenho pela
frente: criar produtos não só para o Brasil,
mas para outros mercados importantes atualmente, como a China.
Veja Vestir
celebridades é uma atividade essencial na moda de hoje.
Como é participar da guerra entre grifes para dominar
o tapete vermelho? Costa
Para ser honesto, acho
essa parte da moda um saco. A briga entre os figurinistas
das atrizes e os estilistas das grifes é tamanha que
a relação perdeu o respeito. Dois anos atrás,
quando Hilary Swank concorreu a vários prêmios
com Menina de Ouro, fiz o vestido dela para a entrega
do Globo de Ouro. Depois, pediram que eu também criasse
o que ela usaria no Oscar. Não só fiz o modelo
como encomendei um cinto de diamantes no valor de 3 milhões
de dólares que era um escândalo. Fiz umas oito
provas do vestido com a Hilary. Mas, no dia, para nossa surpresa,
ela apareceu no Oscar com um modelo de outra grife. Foi um
desastre. Não vejo glamour nessa história. É
uma guerra da qual todos somos obrigados a participar, mas
esse mundo da moda voltada para as celebridades não
é chique, ficou muito vulgar. Para piorar, hoje muitas
delas têm as próprias linhas de roupa. Acho um
absurdo ver o Puff Daddy (cantor de rap que é dono
da marca Sean John) receber o prêmio de melhor estilista
do ano. Isso é uma desmoralização.
Veja Você
olha muito para o que se usa nas ruas? Costa
Claro. Para um gay, acho que olho até demais para as
mulheres.
Veja Você
já foi eleito, no ano passado, o melhor estilista de
moda feminina pelo CFDA (Council of Fashion Designers
of America), o maior prêmio do setor nos Estados
Unidos. O que mais falta na sua carreira? Costa
Isso é só o início, tenho ainda muitos
planos. Quero desenvolver muitas áreas: acessórios,
marketing, aumentar o volume de vendas das minhas coleções.
Pode ser na Calvin Klein ou, quem sabe, em alguma outra marca.
Também quero ter mais independência financeira.
Para quem está de fora até parece, mas ainda
não ganhei muito dinheiro, não fiquei rico.
Ser premiado pelo CFDA foi fantástico para deixar evidente
o apoio que eu tenho em Nova York. Foi importante para dar
firmeza e segurança para fazer algo maior ainda. Só
que as críticas das editoras de moda aos meus desfiles
ficaram mais duras depois que eu recebi o prêmio.
Veja E
você se importa com elas? Costa
As críticas aos meus desfiles costumam ser extremadas:
ou são maravilhosas ou acabam comigo. Acho isso ótimo,
pois detesto meio-termo. Não ligo mais para os comentários
negativos, aprendi que não dá para encará-los
como pessoais. Há algumas jornalistas de moda que eu
respeito, como Cathy Horyn, do The New York Times.
Às vezes é difícil aceitar a crítica,
mas consigo entender a opinião dela. Mas há
pessoas que escrevem simplesmente para detonar.
Veja O
que é chique hoje? Você concorda com os estilistas
que falam que é possível usar tudo hoje em dia? Costa Não
dá para ser chique usando tudo o que se quer. É
claro que hoje existem muitas opções na moda.
Mas ser chique é conhecer o próprio corpo, entender
de proporção. Se você tem pernas bonitas,
pode ter como assinatura uma saia num determinado comprimento
que as mostre. E também acho que ser chique é
ser clássico, não é seguir todas as tendências
que aparecem. Isso é coisa para um mercado mais popular.
O estilista tem a função de instigar, de agir
como antena do dia-a-dia, do mundo em que vivemos hoje. Mas
a mulher não pode ir atrás de todas as novidades.
Veja Quem
é exemplo de elegância para você? Costa
Carine Roitfeld, editora-chefe da Vogue francesa. Ela
é muito sexy, se conhece bem e seu estilo não
dá espaço para um minuto de tédio sequer.
Carine mistura peças extremamente clássicas
com outras mais modernas.
Veja Existem
mulheres chiques e outras nem tanto usando Calvin Klein. É
duro ver isso? Costa É
uma situação péssima, mas inevitável.
Às vezes vejo mulheres usando as minhas roupas de forma
totalmente errada. Já esbarrei com uma que estava com
as costas do vestido para a frente. Mas, como sou muito cara-de-pau,
sempre abordo a pessoa. Faço um comentário do
tipo: "Sabia que esse vestido fica lindo de outro jeito? Experimente".
Veja E
as brasileiras? Qual é o grande pecado que cometem
no vestir? Costa Sabe
o que eu detesto? Barriga de fora. Digo para as minhas sobrinhas:
que barrigada de fora é essa o tempo inteiro? Acho
péssimo. Também acho que a brasileira está
complicando muito, usando jeans com muitos detalhes, por exemplo.
Seria bom voltar à simplicidade. A brasileira acerta
mais quando está natural. A gente já tem fama
de ser muito sensual. Se usar muita coisa, vulgariza. Entendo
que a exuberância brasileira vem das formas da natureza.
Mas cresci cercado pela simplicidade. A arquitetura dos sobrados
mineiros, por exemplo, é de linhas minimalistas. Minha
irmã se vestia muito de branco, com roupas feitas de
algodão. Existe essa simplicidade quase monástica
na essência do trabalho do Calvin, que é muito
parecida com as imagens da minha infância e da minha
adolescência.
Veja Hoje,
o que os grandes estilistas mostram nas passarelas é
imediatamente copiado por redes de fast-fashion, como Zara
e H&M. Como você se sente ao ver as versões
populares de suas criações? Costa
Financeiramente, é meio destrutivo, apesar de o público
dos dois mercados não ser exatamente o mesmo. Mas,
no fundo, fico lisonjeado. Essas lojas são craques,
têm uma boa visão do mercado, do que vai cair
na boca do povo.
Veja Você
foi responsável por tantas vindas de Calvin Klein ao
Brasil e pela paixão dele pelo país? Costa
Não, ele sempre adorou o Brasil. Agora está
mais à vontade, tem mais tempo e pode vir mais. Atualmente,
eu venho pouco para cá, gostaria de visitar mais o
meu país.
Veja Por
que você nunca trabalhou com moda no Brasil? Costa
A minha carreira foi toda construída fora do Brasil,
não conheço muito o que é feito aqui.
Conheço o trabalho do Carlos Miele e do Alexandre Herchcovitch,
que também desfilam em Nova York. A moda brasileira
é muito divulgada no exterior, mas ainda não
explodiu economicamente. Acho que as grifes podem encontrar
dificuldades porque os compradores das lojas americanas são
muito rigorosos. O padrão de entrega das roupas também
tem de ser rigoroso para a relação ser mantida
de uma estação para outra. Só assim é
que dá para conquistar mercado. Se essa parte não
for consistente, não há criatividade que sustente
um negócio.
Veja Você
está fazendo agora o vestido de casamento da cantora
Wanessa Camargo. Foi diferente lidar com uma celebridade brasileira? Costa Eu
não conhecia Wanessa. Ela é uma graça,
tem um corpo lindo e é muito simples. Eu não
sabia que estava lidando com uma grande celebridade.
Veja
Ela é famosa, sim. Costa Muito
mesmo?
Veja É
filha do Zezé di Camargo, tem uma estirpe familiar
parecida com a de Sandy e Junior. Costa
Também não conheço...