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Stephen Kanitz

Precisamos do FGTS?

"Chamou a atenção nesse imbróglio do fundo de
garantia que diante de tantas mazelas ninguém tenha sugerido simplesmente acabar com as contribuições"


Ilustração Ale Setti


Todo mês o Estado retira 8% de nosso salário para depositar no FGTS e nos devolver com juros e correção monetária no dia em que perdermos o emprego. Só que os juros sobre os depósitos são ínfimos e a correção monetária não alcança a inflação.

Não seria mais fácil e mais barato simplesmente receber todo mês a contribuição do FGTS diretamente acrescida a nosso salário, e fim de papo? As empresas anexariam um singelo bilhete dizendo: "Guarde este acréscimo para os dias negros de uma recessão, nunca se sabe quando ela virá".

Economizaríamos milhões em custos administrativos para manter milhões de contas especiais do FGTS, com guias especiais, contabilização especial, filas adicionais e processos judiciais contra o governo.

Recentemente, o Supremo Tribunal confirmou a manipulação dos índices de correção monetária pelos economistas do governo, mas, em vez de colocar os responsáveis na cadeia, se estuda o aumento de impostos para cobrir o rombo.

O FGTS foi criado para financiar saneamento básico e habitação, atividades nobres e sociais, mas pagar somente 30% dos juros de mercado e manipular índices de correção é imoral e está longe de ser a "conquista social" que prometeram.

Com a privatização da telefonia, mineração, siderurgia e estradas, os investimentos públicos anteriormente dirigidos a esses setores podem agora ser redirecionados para habitação e saneamento. As privatizações liberaram recursos do ICMS e do IPI, e o Estado não precisa mais de nossa contribuição para financiar esses dois setores.

O FGTS trouxe também efeitos negativos, que os economistas que o idealizaram não previram na época, como sempre: a maioria dos trabalhadores quando atravessa alguma dificuldade financeira não tem outra saída além de lutar para ser demitido, a fim de levantar o fundo.

Como conseqüência, nossas empresas, diferentemente das do resto do mundo, não treinam pessoal, pois todos querem ser demitidos assim que o FGTS atinge certo valor. Diretores de treinamento se desesperam porque todo o dinheiro investido nisso acaba indo direto para a concorrência.

São raríssimas as empresas no Brasil que mantêm grandes centros de treinamento, e as que os tinham reduziram-nos depois da introdução do FGTS. Por isso, o Brasil tem um dos maiores índices de rotatividade de mão-de-obra e, conseqüentemente, um dos menores índices de produtividade pessoal.

Chamou a atenção nesse imbróglio do FGTS que diante dessas mazelas nenhuma entidade de classe, sindicato, partido político de direita ou esquerda, economista ou diretório estudantil tenha sugerido que a solução seria simplesmente acabar com as contribuições ao fundo daqui para a frente e usar os recursos agora disponíveis do ICMS e do IPI para financiar saneamento e habitação. Pelo contrário, a maioria propôs formas para empurrar esses prejuízos em cima de nossos filhos e futuras gerações, que nada têm a ver com a manipulação dos índices de 1989 e 1990.

Numa pesquisa que realizei em meu site, 88% dos pesquisados prefeririam administrar seu FGTS pessoalmente a ver esse dinheiro minguar nas mãos do Estado.

Boa notícia para os candidatos à Presidência em 2002, à procura do que pode resultar em até 30 milhões de votos de trabalhadores cansados desse falso paternalismo de Estado, cansados de ter de processar o governo de tempos a tempos para reaver o que lhes é de direito.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
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