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Roberto
Pompeu de Toledo
Diverso
é o mundo,
e
ainda bem
Dos
ladrões paulistas
à
estagnação
do
Iowa, dois casos que conduzem
à
mesma linha de conclusões
Ele
é homem, jovem, solteiro, desempregado, pouco estudado,
branco e paulista. Um retrato daquela figura que tanto assusta
os moradores de São Paulo, o assaltante que os aborda,
revólver em punho, num cruzamento, ou o ladrão
que, mesmo sem revólver, lhes bate a carteira, ou lhes
invade a casa e leva a televisão e as jóias,
está disponível numa pesquisa recém-divulgada
pelo Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Judiciais (Cebepej),
entidade civil que reúne magistrados, advogados, sociólogos
e outros profissionais. A pesquisa, intitulada "O perfil do
réu nos delitos contra o patrimônio", foi realizada
com base nos 57.997 processos que
deram entrada no Tribunal de Alçada Criminal de São
Paulo, no período entre 1991 e 1999. Destes, selecionou-se
uma amostra de 2.901 processos,
ou 5% do total, nos quais figuram 5.147
réus (muitos processos contêm mais de um réu).
Os homens têm predominância esmagadora nesse universo:
são 97% dos acusados de roubo (o assalto a mão
armada) e 89% dos de furto (a arte de aliviar o alheio de
mãos vazias). Considerados os dois delitos, o praticante
típico é desempregado (60%) e de nenhuma ou
precária escolaridade (4% são analfabetos, 85%
têm só o 1º grau). Tais dados não
surpreendem. Não surpreende igualmente, embora configure
uma tragédia de razoáveis proporções,
que, no momento do crime, 44% se encontrassem na faixa entre
18 e 21 anos. Esticada a faixa para abranger dos 18 aos 30,
o porcentual sobe para 83%. Mais significativo, porque contraria
arraigadas e deletérias fantasias racistas, é
que 57% dos réus sejam identificados como brancos,
contra 31% de pardos e 12% de negros. Igualmente significativo,
e este é o dado que aqui mais interessa, é que
62% dos acusados são paulistas. Os nordestinos limitam-se
a 24%, porcentual igual ao que eles representam no conjunto
da população do município de São
Paulo. "Esse resultado destrói a noção
tão difundida de que os migrantes, especialmente os
do Nordeste, são responsáveis pelas altas taxas
de criminalidade em São Paulo", diz o juiz Caetano
Lagrasta Neto, secretário executivo do Cebepej.
Deixemos São Paulo um instante. Viajemos até
o Iowa, por estranha que pareça tal destinação.
O Iowa é um pequeno Estado americano, de menos de 3
milhões de habitantes um daqueles quadradinhos
que se amontoam no centro do mapa dos Estados Unidos, obscuros
e identificados por complicados nomes indígenas. Não
se deve esperar grande coisa de um lugar desses, conclui-se
à primeira vista. Pois não se deve mesmo, segundo
sugere o próprio governador do Estado, Tom Vilsack.
A população do Iowa envelhece aceleradamente.
Em 2020, 20% dos habitantes terão 65 anos ou mais.
Os jovens estão indo embora. A persistir a atual tendência,
a força de trabalho cairá 3% nos próximos
cinco anos. Nos anos 90, o Estado cresceu 3,3%, contra uma
média nacional de 9,6%. Qual a solução?
Importar gente, esta a resposta do governador Vilsack. A população
do Iowa constitui-se, em 97%, daqueles que nos EUA são
chamados de brancos as pessoas de pura origem européia,
de preferência anglo-saxônica. O governador chegou
à conclusão de que o Estado precisa de uma injeção
de mexicanos, cubanos, porto-riquenhos e outros "hispânicos",
como também se diz por lá. A idéia é
atrair 310.000 novos residentes
até 2010. Há resistências da parte de
"brancos" que acham que imigrantes trazem problemas. O governador
responde que a questão é de sobrevivência.
Os imigrantes não só aceitam trabalhos que os
locais se recusam a fazer como garantem a continuidade da
população, com suas taxas de natalidade mais
altas, e revitalizam a economia com seu dinamismo.
A pesquisa sobre os ladrões de São Paulo e o
projeto do governador do Iowa conduzem a uma mesma linha de
conclusões. A pesquisa paulista mostra que os migrantes
estão longe de merecer o peso que os mais desavisados,
ou mais mal-intencionados, lhes atribuem na criminalidade.
O projeto do Iowa dá um passo além. Indica que,
além de não ser ruim, a chegada de outra gente,
com outra língua e outros hábitos, é
boa. Isso devia ser arquissabido em lugares como São
Paulo, fruto de muitas gerações de forasteiros,
mas freqüentemente é esquecido. Pode-se ir além,
e avançar que a mistura de gente de diversas procedências
num mesmo lugar não é apenas fundamental para
a economia e saudável para a demografia. É também
uma exigência dos tempos. Este é um mundo de
viagens, contatos, comunicações instantâneas.
Em conseqüência, é um mundo de variedade,
de mistura, de convivência de paralelos e de contrários.
Numa palavra, e para usar um conceito da moda, é um
mundo multicultural. O mundo contemporâneo fala diversas
línguas, combina diversas cores de pele, dança
diversos ritmos. Fechar-se num lugar onde estranhos não
entram é não participar dele. Equivale a renunciar
ao avião, ao computador e à internet. E resulta
em condenar-se à existência pobre e parada de
uma aldeia de outro tempo, escondida na montanha, perdida.
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