Artes e Espetáculos Ensaio

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Sandy e os hippies
Nani Venâncio, de modelo a apresentadora de sucesso
O vídeo polêmico de Madonna
Show do Legião Urbana, de 1994, vira disco
Steven Soderbergh, o superindicado ao Oscar
Russell Crowe, o conquistador

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Roberto Pompeu de Toledo

Diverso é o mundo,
e ainda bem

Dos ladrões paulistas à estagnação
do Iowa, dois casos que conduzem
à mesma linha de conclusões

Ele é homem, jovem, solteiro, desempregado, pouco estudado, branco e paulista. Um retrato daquela figura que tanto assusta os moradores de São Paulo, o assaltante que os aborda, revólver em punho, num cruzamento, ou o ladrão que, mesmo sem revólver, lhes bate a carteira, ou lhes invade a casa e leva a televisão e as jóias, está disponível numa pesquisa recém-divulgada pelo Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Judiciais (Cebepej), entidade civil que reúne magistrados, advogados, sociólogos e outros profissionais. A pesquisa, intitulada "O perfil do réu nos delitos contra o patrimônio", foi realizada com base nos 57.997 processos que deram entrada no Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, no período entre 1991 e 1999. Destes, selecionou-se uma amostra de 2.901 processos, ou 5% do total, nos quais figuram 5.147 réus (muitos processos contêm mais de um réu).

Os homens têm predominância esmagadora nesse universo: são 97% dos acusados de roubo (o assalto a mão armada) e 89% dos de furto (a arte de aliviar o alheio de mãos vazias). Considerados os dois delitos, o praticante típico é desempregado (60%) e de nenhuma ou precária escolaridade (4% são analfabetos, 85% têm só o 1º grau). Tais dados não surpreendem. Não surpreende igualmente, embora configure uma tragédia de razoáveis proporções, que, no momento do crime, 44% se encontrassem na faixa entre 18 e 21 anos. Esticada a faixa para abranger dos 18 aos 30, o porcentual sobe para 83%. Mais significativo, porque contraria arraigadas e deletérias fantasias racistas, é que 57% dos réus sejam identificados como brancos, contra 31% de pardos e 12% de negros. Igualmente significativo, e este é o dado que aqui mais interessa, é que 62% dos acusados são paulistas. Os nordestinos limitam-se a 24%, porcentual igual ao que eles representam no conjunto da população do município de São Paulo. "Esse resultado destrói a noção tão difundida de que os migrantes, especialmente os do Nordeste, são responsáveis pelas altas taxas de criminalidade em São Paulo", diz o juiz Caetano Lagrasta Neto, secretário executivo do Cebepej.

Deixemos São Paulo um instante. Viajemos até o Iowa, por estranha que pareça tal destinação. O Iowa é um pequeno Estado americano, de menos de 3 milhões de habitantes – um daqueles quadradinhos que se amontoam no centro do mapa dos Estados Unidos, obscuros e identificados por complicados nomes indígenas. Não se deve esperar grande coisa de um lugar desses, conclui-se à primeira vista. Pois não se deve mesmo, segundo sugere o próprio governador do Estado, Tom Vilsack. A população do Iowa envelhece aceleradamente. Em 2020, 20% dos habitantes terão 65 anos ou mais. Os jovens estão indo embora. A persistir a atual tendência, a força de trabalho cairá 3% nos próximos cinco anos. Nos anos 90, o Estado cresceu 3,3%, contra uma média nacional de 9,6%. Qual a solução?

Importar gente, esta a resposta do governador Vilsack. A população do Iowa constitui-se, em 97%, daqueles que nos EUA são chamados de brancos – as pessoas de pura origem européia, de preferência anglo-saxônica. O governador chegou à conclusão de que o Estado precisa de uma injeção de mexicanos, cubanos, porto-riquenhos e outros "hispânicos", como também se diz por lá. A idéia é atrair 310.000 novos residentes até 2010. Há resistências da parte de "brancos" que acham que imigrantes trazem problemas. O governador responde que a questão é de sobrevivência. Os imigrantes não só aceitam trabalhos que os locais se recusam a fazer como garantem a continuidade da população, com suas taxas de natalidade mais altas, e revitalizam a economia com seu dinamismo.

A pesquisa sobre os ladrões de São Paulo e o projeto do governador do Iowa conduzem a uma mesma linha de conclusões. A pesquisa paulista mostra que os migrantes estão longe de merecer o peso que os mais desavisados, ou mais mal-intencionados, lhes atribuem na criminalidade. O projeto do Iowa dá um passo além. Indica que, além de não ser ruim, a chegada de outra gente, com outra língua e outros hábitos, é boa. Isso devia ser arquissabido em lugares como São Paulo, fruto de muitas gerações de forasteiros, mas freqüentemente é esquecido. Pode-se ir além, e avançar que a mistura de gente de diversas procedências num mesmo lugar não é apenas fundamental para a economia e saudável para a demografia. É também uma exigência dos tempos. Este é um mundo de viagens, contatos, comunicações instantâneas. Em conseqüência, é um mundo de variedade, de mistura, de convivência de paralelos e de contrários. Numa palavra, e para usar um conceito da moda, é um mundo multicultural. O mundo contemporâneo fala diversas línguas, combina diversas cores de pele, dança diversos ritmos. Fechar-se num lugar onde estranhos não entram é não participar dele. Equivale a renunciar ao avião, ao computador e à internet. E resulta em condenar-se à existência pobre e parada de uma aldeia de outro tempo, escondida na montanha, perdida.

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições Especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco

CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
Submarino
Americanas
Livros
Saraiva.com.br
Submarino
Espiral
Ingressos
Fun by Net
o que é o canal