Artes e Espetáculos Cinema

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Sandy e os hippies
Nani Venâncio, de modelo a apresentadora de sucesso
O vídeo polêmico de Madonna
Show do Legião Urbana, de 1994, vira disco
Steven Soderbergh, o superindicado ao Oscar
Russell Crowe, o conquistador

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao le/a>
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

O magnífico

Está-se falando de Steven Soderbergh,
diretor de Traffic

Isabela Boscov


Universal Pictures
Soderbergh: ex-craque do beisebol que se reencontrou no cinema


Há uma história de infância que o diretor Steven Soderbergh adora contar. Ele tinha 12 anos, morava na Louisiana e era um tremendo jogador de beisebol. Um dia, em 1975, acordou com uma certeza: havia perdido o seu toque mágico com a bola – irremediavelmente. No espaço de algumas horas, deixara de ser um craque. O curioso é que Soderbergh viveu esse episódio não uma, mas duas vezes. Em 1994, dono de um currículo que a maioria dos cineastas não ousa nem almejar, ele olhou para si mesmo no set de filmagens de Obsessão e se descobriu falido, ao menos do ponto de vista da inspiração.

Soderbergh sacudiu o cinema em 1989, quando lançou, aos 26 anos, sexo, mentiras e videotape. Arrojado do ponto de vista da linguagem e sintonizado com os descaminhos amorosos de sua geração, o filme ganhou espaço para muito além do circuito alternativo e virou o marco zero do cinema independente americano. Não é exagero dizer que, sem ele, não haveria um Beleza Americana. Soderbergh, porém, se perdeu. "Eu não sabia mais o que estava fazendo nem por quê", recorda sobre aquele dia em que filmava Obsessão. Nesse momento, tomou uma decisão: iria refazer seus próprios passos até descobrir onde estava o erro.

Para entender o que isso significa, é preciso voltar a sexo, mentiras e videotape. O filme trata de um homem que, a pretexto de entrevistar três mulheres sobre sua intimidade, manipula todas elas – um decalque da vida de Soderbergh, que andava equilibrando três relacionamentos de maneira não muito honesta. Para sua ruptura com o passado, então, ele retomou essa perspectiva. Rodou o bizarro Schizopolis, que, entre outros feitos, reproduzia na tela o tumulto doméstico do diretor. Ele, a mulher e a filha pequena interpretavam uma família em desintegração – e Soderbergh não descarta a hipótese de que a encenação tenha apressado a ruína de seu casamento. Mas o exorcismo funcionou. Desde então, o diretor vive uma fase brilhante na carreira, com Irresistível Paixão, The Limey (ainda inédito no Brasil), Erin Brockovich e, finalmente, Traffic.

Individualmente, esses filmes vão do bom ao magistral. Em conjunto, seu significado é avassalador. Soderbergh, de 38 anos, está demolindo credos fundamentais com eles. Primeiro, o que diz que um filme "pessoal" é aquele que está ligado a seu criador por referências biográficas. "Hoje me interesso muito mais pelas outras pessoas. Acho que isso – colocar-se no lugar do outro – é que é ser pessoal", afirma. É um ataque duro e perspicaz ao cinema auto-referente que ele ajudou a cimentar. Muito mais subversiva é a outra tese de Soderbergh: a de que os cineastas surgidos na margem da indústria podem e devem migrar para o seu centro. Desde que, dentro de um estúdio, façam exatamente os filmes que fariam com um punhado de dólares e a ajuda dos amigos. "Hollywood é lenta, pesada e meio burra? É. Mas, se você for ágil, entra e sai dessa engrenagem sem que ninguém perceba", prega.

O magnífico Traffic mostra que ele não fica só na teoria. Soderbergh se põe no lugar de mais de uma centena de pessoas, dos soldados aos generais de ambos os lados do narcotráfico. Levando a câmara no ombro, o diretor se enfia na ação como um correspondente de guerra. Não dá pausa nem aos atores, para que não "saiam" de seus personagens – o que ajuda a arrancar deles desempenhos memoráveis. Briga pelos intérpretes certos – como Benicio Del Toro – e ganha a parada. Gasta muito mais dinheiro do que no primeiro ato de sua carreira, mas bem menos do que os estúdios estão acostumados a torrar (Traffic saiu por 46 milhões de dólares, um filme de orçamento médio para os padrões americanos). E tem o topete de defender argumentos dos quais Hollywood, em seus dias normais, só quer distância – como a descriminação dos usuários de drogas.

Em sua nova encarnação, Soderbergh é também um sujeito popular. Os atores o adoram. Não só porque sabe dirigi-los (Julia Roberts que o diga), mas porque é descontraído e brincalhão. No set de Erin Brockovich, o elenco se divertia posando para fotos com cara de horror e rabiscando nelas a frase "Acabei de ver Kafka". O diretor só dava risada. Mas não parava o trabalho. Não pára, aliás. Neste domingo, quando concorre ao Oscar por Traffic e Erin Brockovich, vai passar a manhã em Las Vegas, onde continua as filmagens de Ocean's 11. Depois, pula no avião e segue para Los Angeles – "para me sentar ao meu lado", brinca. Só uma coisa ficou faltando nessa nova fase: espaço na agenda para arrumar uma namorada. Quanto mais três, como nos velhos tempos.

 

Uma carreira em dois tempos

Fase independente

1989
sexo, mentiras e videotape: prêmio em Cannes,
público para além do "alternativo" e cinema independente no mapa

1991
Kafka:
estrelado pelo inglês Jeremy Irons, o filme surpreendeu a platéia pela frieza e pretensão

1993

O belíssimo O Inventor de Ilusões: passado durante a Depressão, é o filme mais injustiçado dessa primeira fase do direto

1995

O suspense noir Obsessão, pivô da crise: todo o requinte que se espera de Soderbergh, mas sem nenhuma alma

 

Fase Hollywoodiana

1996
Schizopolis: feito por 300 000 dólares, é a mais cara (e mais eficaz) sessão
de terapia da história
Universal City Studios

 

1998
Irresistível Paixão demonstra a especialidade do diretor: até Jennifer Lopez atua bem

2000
Com Erin
Brockovich, o novo status: queridinho dos atores
Columbia Tristar Pictures

2000
Traffic, com Benicio Del Toro: prova de que é possível fazer cinema independente dentro de Hollywood

 
Saiba mais
  Assista ao trailer de Traffic e confira a cobertura especial do Oscar na Estação VEJA

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições Especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco

CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
Submarino
Americanas
Livros
Saraiva.com.br
Submarino
Espiral
Ingressos
Fun by Net
o que é o canal