O
magnífico
Está-se
falando de Steven Soderbergh,
diretor de Traffic

Isabela
Boscov
Universal Pictures
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| Soderbergh:
ex-craque do beisebol que se reencontrou no cinema |
Há uma história de infância que o diretor
Steven Soderbergh adora contar. Ele tinha 12 anos, morava
na Louisiana e era um tremendo jogador de beisebol. Um dia,
em 1975, acordou com uma certeza: havia perdido o seu toque
mágico com a bola irremediavelmente. No espaço
de algumas horas, deixara de ser um craque. O curioso é
que Soderbergh viveu esse episódio não uma,
mas duas vezes. Em 1994, dono de um currículo que a
maioria dos cineastas não ousa nem almejar, ele olhou
para si mesmo no set de filmagens de Obsessão
e se descobriu falido, ao menos do ponto de vista da inspiração.
Soderbergh sacudiu o cinema em 1989, quando lançou,
aos 26 anos, sexo, mentiras e videotape. Arrojado do
ponto de vista da linguagem e sintonizado com os descaminhos
amorosos de sua geração, o filme ganhou espaço
para muito além do circuito alternativo e virou o marco
zero do cinema independente americano. Não é
exagero dizer que, sem ele, não haveria um Beleza
Americana. Soderbergh, porém, se perdeu. "Eu não
sabia mais o que estava fazendo nem por quê", recorda
sobre aquele dia em que filmava Obsessão. Nesse
momento, tomou uma decisão: iria refazer seus próprios
passos até descobrir onde estava o erro.
Para entender o que isso significa, é preciso voltar
a sexo, mentiras e videotape. O filme trata de um homem
que, a pretexto de entrevistar três mulheres sobre sua
intimidade, manipula todas elas um decalque da vida
de Soderbergh, que andava equilibrando três relacionamentos
de maneira não muito honesta. Para sua ruptura com
o passado, então, ele retomou essa perspectiva. Rodou
o bizarro Schizopolis, que, entre outros feitos, reproduzia
na tela o tumulto doméstico do diretor. Ele, a mulher
e a filha pequena interpretavam uma família em desintegração
e Soderbergh não descarta a hipótese
de que a encenação tenha apressado a ruína
de seu casamento. Mas o exorcismo funcionou. Desde então,
o diretor vive uma fase brilhante na carreira, com Irresistível
Paixão, The Limey (ainda inédito no Brasil),
Erin Brockovich e, finalmente, Traffic.
Individualmente, esses filmes vão do bom ao magistral.
Em conjunto, seu significado é avassalador. Soderbergh,
de 38 anos, está demolindo credos fundamentais com
eles. Primeiro, o que diz que um filme "pessoal" é
aquele que está ligado a seu criador por referências
biográficas. "Hoje me interesso muito mais pelas outras
pessoas. Acho que isso colocar-se no lugar do outro
é que é ser pessoal", afirma. É
um ataque duro e perspicaz ao cinema auto-referente que ele
ajudou a cimentar. Muito mais subversiva é a outra
tese de Soderbergh: a de que os cineastas surgidos na margem
da indústria podem e devem migrar para o seu centro.
Desde que, dentro de um estúdio, façam exatamente
os filmes que fariam com um punhado de dólares e a
ajuda dos amigos. "Hollywood é lenta, pesada e meio
burra? É. Mas, se você for ágil, entra
e sai dessa engrenagem sem que ninguém perceba", prega.
O magnífico Traffic mostra que ele não
fica só na teoria. Soderbergh se põe no lugar
de mais de uma centena de pessoas, dos soldados aos generais
de ambos os lados do narcotráfico. Levando a câmara
no ombro, o diretor se enfia na ação como um
correspondente de guerra. Não dá pausa nem aos
atores, para que não "saiam" de seus personagens
o que ajuda a arrancar deles desempenhos memoráveis.
Briga pelos intérpretes certos como Benicio
Del Toro e ganha a parada. Gasta muito mais dinheiro
do que no primeiro ato de sua carreira, mas bem menos do que
os estúdios estão acostumados a torrar (Traffic
saiu por 46 milhões de dólares, um filme de
orçamento médio para os padrões americanos).
E tem o topete de defender argumentos dos quais Hollywood,
em seus dias normais, só quer distância
como a descriminação dos usuários de
drogas.
Em sua nova encarnação, Soderbergh é
também um sujeito popular. Os atores o adoram. Não
só porque sabe dirigi-los (Julia Roberts que o diga),
mas porque é descontraído e brincalhão.
No set de Erin Brockovich, o elenco se divertia posando
para fotos com cara de horror e rabiscando nelas a frase "Acabei
de ver Kafka". O diretor só dava risada. Mas
não parava o trabalho. Não pára, aliás.
Neste domingo, quando concorre ao Oscar por Traffic
e Erin Brockovich, vai passar a manhã em Las
Vegas, onde continua as filmagens de Ocean's 11. Depois,
pula no avião e segue para Los Angeles "para
me sentar ao meu lado", brinca. Só uma coisa ficou
faltando nessa nova fase: espaço na agenda para arrumar
uma namorada. Quanto mais três, como nos velhos tempos.
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Uma
carreira em dois tempos
Fase
independente
1989
sexo, mentiras e videotape: prêmio
em Cannes, público
para além do "alternativo" e
cinema independente no mapa
1991
Kafka: estrelado
pelo
inglês Jeremy
Irons, o filme surpreendeu
a
platéia pela
frieza e
pretensão
1993
O
belíssimo O Inventor de Ilusões:
passado durante
a Depressão, é
o filme mais injustiçado dessa primeira fase
do direto
1995
O
suspense noir Obsessão, pivô da
crise: todo o requinte que se espera de Soderbergh,
mas sem nenhuma alma
Fase
Hollywoodiana
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1996
Schizopolis: feito por 300
000 dólares, é a mais cara (e mais
eficaz) sessão de
terapia da história
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Universal City Studios
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1998
Irresistível Paixão demonstra
a especialidade do diretor: até Jennifer
Lopez atua bem
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2000
Com Erin Brockovich,
o
novo status: queridinho
dos
atores
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Columbia
Tristar Pictures
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2000
Traffic, com Benicio Del Toro: prova de que
é possível fazer cinema independente dentro
de Hollywood
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mais |
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