Você
pagou a conta
No
acordo do FGTS, vai sobrar para
os
trabalhadores a quitação da
dívida de
40 bilhões de reais
Sérgio
Ruiz Luz
Alan Marques/Folha Imagem
 |
| O
presidente e os sindicalistas, na semana passada: acerto precisa
ainda passar no Congresso |
É
sempre assim. Em nome de uma causa nobre, os governos especializaram-se
em fazer estripulias financeiras e criar rombos nos cofres públicos.
Na hora de pagar a conta, quem é chamado a cobrir o prejuízo?
Você. Aconteceu novamente. Com a promessa de consertar a economia,
a equipe econômica nas gestões de José Sarney
e Fernando Collor mexeu na fórmula de cálculo do saldo
existente no fundo de garantia do tempo de serviço (FGTS).
O dinheiro deveria ter sido reajustado com base em um critério,
mas foi corrigido por outro, de índices mais modestos. Como
resultado, as pessoas perderam dinheiro nos planos Verão,
de 1989, e Collor I, de 1990. Nas últimas semanas, governo,
associações de empresários e centrais sindicais
discutiram quem deveria arcar com esse rombo, calculado em 40 bilhões
de reais. Adivinhe quem foi escolhido para arcar com o prejuízo.
Você, claro.
Formalmente, a responsabilidade de pagar foi diluída entre
governo, patrões e empregados. Na última quarta-feira,
durante reunião conduzida pelo presidente Fernando Henrique
Cardoso, anunciou-se a solução para repor o dinheiro.
O Tesouro Nacional entrará com 6 bilhões de reais
mais os recursos disponíveis do FGTS da ordem de 13,7 bilhões
de reais. Os empresários vão ser obrigados a contribuir
com 15,8 bilhões de reais. O dinheiro vai sair do aumento
de 40% para 50% do valor das multas em caso de demissão e
do acréscimo de 8% para 8,5% no valor dos depósitos
mensais destinados ao fundo. O resto do dinheiro sairá de
forma indireta do bolso dos trabalhadores. Isso porque as centrais
sindicais envolvidas na negociação aceitaram dar um
deságio que chega a 15% no dinheiro que têm a receber
e concordaram em escalonar o pagamento da dívida até
2006. Com isso, o governo conseguiu um abatimento da ordem de 4,5
bilhões de reais. Fechou-se assim o acordo para cobrir o
rombo do FGTS, que agora será levado ao Congresso Nacional.
Um dos principais méritos da solução encontrada
foi eliminar um esqueleto que rondava o governo. Restam ainda outras
dívidas grandes cobradas na Justiça (veja
quadro).
A solução recebeu muitos elogios, pois o diálogo
entre governo, empresários e trabalhadores foi encarado como
um sinal de amadurecimento da sociedade brasileira. O que muita
gente pode não ter percebido é que, por trás
da decisão aparentemente salomônica, esconde-se uma
verdade cristalina e negativa. No primeiro momento, as pessoas terão
a impressão de que governo, empresários e trabalhadores
realmente vão dividir os custos do rombo no FGTS. Mas, no
final, quem vai mesmo pagar a conta é só uma das três
partes envolvidas na questão. "O governo não gera
receita e o empresariado tende a repassar aos consumidores quaisquer
custos que onerem a produção", afirma o ex-ministro
Mailson da Nóbrega. "Por qualquer ângulo que se analise
a questão, os trabalhadores é que vão ficar
no prejuízo", completa.
O cidadão (você) tem três encarnações:
ora é contribuinte quando paga seus impostos, às vezes
é consumidor quando vai às compras e também
é trabalhador quando está no serviço. As três
encarnações foram convocadas a tapar o buraco. Repare:
Brasília diz que vai colocar 6 bilhões do Tesouro
Nacional para cobrir parte do rombo do FGTS. Quem vai efetuar o
desembolso? O contribuinte, não o governo. Os empresários
vão colocar seus 15,8 bilhões. De onde virá
esse dinheiro? Do consumidor, que irá pagar mais pelos produtos.
Por fim, no papel de trabalhador, o cidadão brasileiro será
mordido uma terceira vez. O custo de manter empregados ficará
mais caro. Logo, os empresários contratarão menos.
"As pessoas estão comemorando, mas esse dinheiro restituído
vai sair muito caro", afirma André de Souza, assessor técnico
da CUT para o conselho curador do FGTS. Tudo isso faz aumentar ainda
mais o chamado "custo Brasil".
Diante disso, os empresários prevêem um cenário
de demissões ou de aumento do mercado informal. Algumas contas
feitas na semana passada falavam em aumento que chega a 3% na folha
de pagamento das médias e grandes empresas. Pode-se até
dar um desconto ao tom apocalíptico que tomou conta dos associados
da Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo na semana passada. Mas é inegável que a sobrecarga
tende a provocar alguns efeitos perniciosos. É bom lembrar
que o Brasil concorre no mercado internacional com margens de lucros
espremidas para não entregar terreno a concorrentes que possuam
mão-de-obra mais barata. "Ninguém mais tem gorduras
para queimar", resume Synésio Batista da Costa, presidente
da Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos.
O rombo dos 40 bilhões de reais nas contas do FGTS começou
a ser formado a partir do momento em que grupos de assalariados
reivindicaram a reposição da inflação
registrada antes dos planos Verão e Collor I. Nas duas ocasiões,
o governo congelou o saldo do fundo. Alguns grupos acabaram se beneficiando
da medida, como os mutuários do Sistema Financeiro da Habitação
na época e os governos estaduais e municipais que financiaram
obras com dinheiro do FGTS. Todos pegaram dinheiro do fundo e puderam
saldar as dívidas sem ter de reajustar o saldo devedor pela
inflação passada. Os empresários que demitiram
nesse período também tiraram proveito da situação.
Pagaram a multa de 40% sobre um saldo que não recebeu o reajuste
da inflação. Infelizmente, não há como
cobrar hoje as pessoas ou os setores que se beneficiaram direta
ou indiretamente do congelamento do saldo do fundo. "Têm razão
os empresários, que reclamam do aumento do custo Brasil;
têm razão os trabalhadores, que se sentem injustamente
cobrados por essa conta", afirma o ministro do Trabalho, Francisco
Dornelles. "Mas, como não chove dinheiro, precisávamos
resolver de alguma forma a situação. Se alguém
aparecer com uma proposta melhor, vou me ajoelhar diante da lógica."
|
Os
esqueletos da economia
Além
do rombo do FGTS, há outros esqueletos no armário
do governo. Alguns:
|
|
Cruzados
bloqueados
Processos pelo pagamento de diferenças
de correção monetária reclamadas por
depositantes de cadernetas de poupança em março
de 1990, quando tiveram seus cruzados novos bloqueados pelo
Plano Collor.
Valor estimado da dívida: 30
bilhões de reais
|
|
Fundo
de Compensação de
Variações Salariais
Nos
tempos de inflação alta, os bancos eram obrigados
pelo governo a fornecer empréstimos de até 25
anos a quem quisesse comprar casa própria. O fundo
cobria a diferença entre o valor real do imóvel
e o efetivamente pago pelo mutuário.
Valor estimado da dívida: 18
bilhões de reais
|
|
Indenizações
de
empresas aéreas
As
companhias de aviação entraram na Justiça
pelos prejuízos do congelamento de tarifas durante
os planos econômicos. A TransBrasil obteve ganho de
causa em 1997, e as outras empresas aguardam o mesmo tipo
de ressarcimento.
Valor estimado da dívida: 5
bilhões de reais
|
|
Cobrança
de tributos
O governo utilizou a taxa de juros básicos
da economia para atualizar o valor de impostos e tributos.
Um processo que corre no Supremo Tribunal Federal questiona
a constitucionalidade dessa forma de indexação.
Valor estimado da dívida:
4 bilhões de reais
|
Saiba
mais |
|
|
|
|