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Golpe no esnobismo

O mais poderoso crítico de vinhos do
mundo diz que cobrar mais de 60 reais
por uma garrafa é especulação

J. L. Bulcão

Um testador verifica a cor e a textura de um vinho: Parker prefere os espessos

Robert Parker prova 10.000 diferentes vinhos por ano. São 27 provas por dia. Ele começa de manhã com os tintos mais encorpados. Deixa o fim do dia para os brancos. À noite ele experimenta os espumantes. O ritual é sempre o mesmo. O vinho preenche um terço da taça e ele a agita num movimento circular. Depois, aspira profundamente o aroma. Coloca um pouco nos lábios e deixa o líquido espalhar-se por toda a boca. Espera que os vapores inundem seus sentidos. Em seguida cospe numa pia profunda para que o vinho não espirre, evitando que ele suje sua roupa ou o chão. Entre uma prova e outra, anota freneticamente suas impressões ou as dita a um pequeno gravador digital. Parker, diferentemente de outros críticos de vinho, procura concentrar-se unicamente na qualidade do que experimenta, sem se deixar levar pelas sugestões que um rótulo famoso cria na mente das pessoas. O aroma, o sabor e as texturas vão definir que nota ele dará ao vinho. Isso hoje em dia conta muito. O americano Robert Parker é o mais influente crítico do mundo. Não existe crítico literário, musical, de ópera ou de televisão que tenha em seu campo de atuação um centésimo do poder de Parker. Suas críticas de vinho estão provocando uma revolução na indústria da mais nobre das bebidas alcoólicas. Os fabricantes franceses, em especial, estão enfurecidos com as opiniões de Parker.

É fascinante a história de como um roceiro americano, que mora com a mulher, a filha adolescente e a mãe no pacato Estado de Maryland, tornou-se a maior autoridade mundial em vinhos. A cada dois meses ele edita o Wine Advocate, uma publicação que tem 40.000 assinantes, quase todos americanos e europeus. A assinatura anual custa 50 dólares. Uma vez por ano ele compila suas críticas e as publica em livros que se tornam, dos lados do Atlântico, os guias de vinho mais vendidos e respeitados. Aos 53 anos, ele já provou 220 000 vinhos diferentes. Um feito notável. Só deu nota máxima a uma ínfima minoria deles. Setenta e seis exatamente. O que é pouco freqüente no ramo. Parker garante lembrar-se detalhadamente de cada um dos vinhos que provou até hoje. Isso não tem precedentes em nenhum ramo da atividade humana. Maestros se gabam de haver decorado duas centenas de peças. Um grande crítico de arte pode descrever em minúcias duas, três centenas de obras-primas. Mas armazenar na memória a impressão deixada por duas centenas de milhares de vinhos é algo difícil de conceber. "Parker é também um fenômeno biológico", diz Pierre-Antoine Rovani, outro crítico reputado e brilhante, recentemente contratado pelo próprio Parker para provar unicamente os vinhos franceses da Borgonha.

Em tempo: Parker não é fã dos vinhos da Borgonha. Aliás, claramente, ele não gosta do tipo pouco encorpado e de estrutura cristalina que caracteriza os vinhos daquela região famosa da França. Qualquer outra pessoa que ensaie os primeiros passos no mundo da enologia ou mesmo um crítico experimentado que emita tal opinião sobre os vinhos da Borgonha certamente não seria levado a sério. Aliás, seria ridicularizado. Quando se sabe que vêm de lá vinhos como os produzidos pelo Domaine de La Romanée-Conti, a sanidade de Parker poderia até ser questionada. Das grandes safras, a melhor é a de 1985. No Brasil, cada garrafa é vendida por 11.800 dólares – ou mais de 23.000 reais. Quase o preço de dois carros populares. Por sua incompatibilidade quase genética com a região da Borgonha, Parker contratou Rovani. Ele nem vai lá visitar as vinícolas. Apesar disso – ou talvez por causa de sua firmeza pétrea –, a influência de Parker cresce a cada número novo do Wine Advocate. Entre os conhecedores de vinho, colecionadores, fabricantes e comerciantes, sua opinião é quase imperial. Os leiloeiros esperam Parker dar nota a um vinho antes de estabelecer seu preço. Os produtores vêem safras inteiras ser desvalorizadas apenas porque Parker achou o vinho "medíocre", "sem inspiração" ou "abaixo do potencial da vinícola". Os preços de determinado vinho, por mais desconhecido que seja, disparam quando ele aparece bem cotado por Parker.

"Todos os outros críticos se sentem parte do jogo. Parker quer ser o árbitro", explica Rovani. Ele freqüentemente desclassifica vinhos tradicionais. Praticamente inventou a reputação dos vinhos neozelandeses, australianos e mesmo alguns argentinos mais recentes. Nunca um vinho brasileiro apareceu em sua lista. Parker prova vinhos que custam pouco mais de quarenta reais, em torno de 20 dólares nos Estados Unidos. São os vinhos que a massa de consumidores médios compra. Parker se sente o defensor deles. Ele se vê como uma espécie de Procon internacional, protegendo os consumidores contra os truques dos fabricantes de vinhos para vender seus produtos a preços irreais. "Os ricos não precisam de defesa. Eles, no fundo, gostam de ser enganados. Coloque num rótulo a expressão Premier Grand Cru Classé e em Nova York ou outra grande cidade sempre aparecerá alguém disposto a pagar o preço que se pedir", diz Parker.

Se não fosse uma aberração, uma espécie de laboratório humano à prova de fraudes, Parker já teria sido triturado pela máquina de propaganda da indústria. Só não o foi porque realmente é um fenômeno. No campo da biologia, por exemplo, não é apenas sua memória que desafia o entendimento. Seu olfato é quase sobrenatural. Uma herança genética. O pai, que nunca tomou vinho e criou os filhos, inclusive Parker, dando-lhes Coca-Cola na refeição, era um prodígio. Conta-se que ele entrava numa sala à tarde e podia identificar o que cada pessoa presente havia comido no almoço. "Parker herdou esse poder e o aliou a sua inteligência e ao desejo de proteger os consumidores para se transformar no maior crítico de vinhos do mundo", escreveu William Langewiesche num fabuloso perfil de Robert Parker publicado na edição de dezembro da revista americana The Atlantic Monthly, em que se baseou grande parte desta reportagem. Langewiesche descreve Parker como um glutão, apaixonado pelas boas coisas da vida e que vive em permanente conflito com seus conterrâneos, obcecados pelas dietas e pela luta contra as bebidas alcoólicas. "Parker chama essa gente de a Polícia do Prazer", diz Langewiesche.

Voltemos ao prodigioso nariz de Parker. Recentemente, ele o colocou no seguro por 1 milhão de dólares. Voltou da Europa apavorado com a história de um crítico inglês que depois dos 50 anos perdeu completamente o olfato. Toda sua consistência em provar vinhos vem do olfato apuradíssimo. "Quando estou cheirando um vinho, posso estar cercado de crianças barulhentas, a televisão pode estar ligada, ou um trem expresso estar passando. Consigo me concentrar inteiramente no aroma. É como se mergulhasse num túnel escuro e totalmente isolado", descreve Parker. Mesmo seus críticos mais rigorosos, como os franceses, admitem que ele é um fenômeno de honestidade, mas ainda mais de rigor. Existe um teste que costuma ser a prova definitiva da capacidade de um provador de vinhos mostrar que sabe o que está falando. Nesse teste, os rótulos dos vinhos são completamente cobertos com papel-alumínio. O testador então coloca um pequeno gole na boca e é convidado a dizer que vinho acabou de provar. Entre todos os provadores, Parker é de longe o que mais acerta.

Quando sua guerra com os produtores franceses estava no auge, há um ano, Parker foi submetido publicamente a um desafio semelhante. Foi-lhe dado para provar um dos melhores vinhos franceses, um Château d'Yquem, que comumente se bebe junto com a sobremesa ou, à moda francesa, a qualquer hora com bocados de foie gras, a iguaria nacional de fígado de ganso. Bem, Robert Parker não apenas acertou que vinho estava provando como acrescentou que já bebera da mesma garrafa uma década antes. "É o mesmo vinho que bebi aqui com as mudanças que lhe foram acrescentadas pelo tempo", disse Parker para uma platéia de conhecedores franceses literalmente boquiaberta. Para ficarmos nos lugares-comuns, Parker costuma deixar os produtores franceses mesmo é com o cabelo em pé. Recentemente, ele provocou ondas de choque ao propor que os fabricantes de Bordeaux baixassem em 30% os preços dos vinhos da safra de 1999, que produziu uvas ruins.

O mais chocante para os franceses, porém, é a absoluta tranqüilidade com que Parker compara os grandes vinhos do país com novidades desconhecidas da Nova Zelândia ou da Austrália. "Só de listar nossos vinhos ao lado dos produtos desses aventureiros já é uma ofensa", diz um produtor cujo Château há séculos fornece vinhos para as mais ricas famílias francesas. Parker não se abala. Sua única base de julgamento é seu gosto pessoal e intransferível. Azar dos produtores se ele prefere os vinhos encorpados, escuros, quase opacos, feitos com cuidado artesanal e que não passam por nenhum processo industrial de filtragem ou uniformização. Azar maior ainda por Parker ter se tornado uma autoridade mundial no assunto. Parte de sua credibilidade vem do fato de ele soltar bordoadas tanto nos fabricantes da Califórnia, o orgulho vinícola de seu país natal, quanto nos da França. Uma das piores notas do Wine Advocate de todos os tempos foi dada a um vinho californiano chamado Lambert Bridge Cabernet Sauvignon. No comentário, entende-se por que Parker vai virando uma lenda no mundo dos entendedores de vinho. "É de imaginar o que essa vinícola fez com a uva cabernet para fabricar um vinho impotável. Esse vinho tem um aroma intenso de celeiro e outros aromas absolutamente incomuns."

A fama e o poder de Parker crescem impulsionados por comentários claros como esse, que o jornalista William Langewiesche descreve como "fáceis de seguir como as indicações numa estação do metrô". Nunca uma única pessoa teve tanto poder sobre a indústria do vinho. Não é pouca coisa. O mundo tem cerca de quarenta nações produtoras de vinho. A França é a maior. A Itália vem em segundo lugar. Esses países plantam 77.000 quilômetros quadrados de vinhas e produzem o equivalente a 35 bilhões de garrafas de vinho todos os anos.

O momento é propício. O consumo cresce, e o trânsito de informações, graças ao processo de globalização da economia, encontra poucas barreiras. Por isso também Parker se tornou um guru, um mestre iluminado e centralizador que a indústria de vinhos nunca teve. É o que nota Bernard Ginestet, o último herdeiro do Château Margaux, que acabou afogando-se em dívidas e vendendo a propriedade. "Sempre houve especialistas em subtipos, microrregiões e marcas. Nunca antes de Mister Parker alguém se firmara como expert em qualquer tipo de vinho, de qualquer região ou período", diz Ginestet, em tom de crítica. O francês lidera o coro contra Parker com o argumento de que não se pode provar nem classificar vinhos como se fossem refrigerantes. "Coisas raras e inacessíveis são mesmo caras", diz Ginestet. Ao que Parker contesta. "Muitos vinhos são inacessíveis porque são caros, e não o contrário", ele observa. Seu argumento é poderoso. Parker reconhece, por exemplo, que um vestido usado por Marilyn Monroe foi leiloado por 1,2 milhão de dólares há dois anos – mas lembra que, se fossem leiloados 300.000 vestidos da atriz morta por ano, seu preço logo estaria no chão. O único consolo dos críticos e inimigos de Parker é o fato de ele ser insubstituível. Ninguém imagina que surja tão cedo outra máquina biológica de provar vinhos igualmente perfeita e operosa. Talvez um dia ele se canse. Ou perca o olfato, como aconteceu com seu colega inglês. Nesse dia, os fabricantes de vinho vão dormir tranqüilos.

 

A indústria do vinho não engole Parker

Em seus artigos, compilados nos livros O Lado Oculto do Vinho e O Dever de um Crítico de Vinho, Robert Parker destrói as lendas em torno das garrafas que custam milhares de dólares. Alguns trechos:

"Um vinho pode ser caro por ser raro. O que não é aceitável é um fabricante produzir 400 000 garrafas por ano e pretender que seu produto tenha ao mesmo tempo qualidade artesanal e preço de raridade. As pessoas devem desconfiar dessa artimanha."

"Cada centavo que se paga por um vinho acima da faixa dos 30 dólares é fruto de especulação. Um vinho, por melhor que seja, custa 10 dólares para ser produzido, 10 para ser engarrafado e 10 para chegar até o consumidor final."

"A obsessão das grandes vinícolas internacionais de produzir vinhos tecnicamente perfeitos está roubando da bebida seu caráter identificável e inconfundível. A filtração excessiva dos vinhos e a uniformização dos estilos de vinificação são uma tragédia. Está ficando cada vez mais difícil distinguir um Chardonnay italiano de outro feito na França, na Califórnia ou na Austrália. Sem dúvida, o vinho perde seu fascínio quando as grandes corporações do mundo começam a fazer vinhos idênticos com o objetivo de desagradar ao menor número possível de consumidores. Não devemos esquecer que a grande atração do vinho é o fato de ele ser uma bebida especial, única, fascinante e por isso diferente das demais."

"A produção em massa e a massificação das tecnologias estão produzindo vinhos sem caráter. Muitos vinhos estão se tornando tão sem surpresa quanto as bebidas mais fortes, como a vodca, o gim ou o uísque."

"Produtores preocupados apenas em fazer vinhos o mais rapidamente possível e faturar têm muitas coisas em comum. A mais óbvia é que eles produzem vinhos neutros, insípidos e medíocres. Menos conhecido é o fato de que todos eles são adeptos de práticas pouco ortodoxas para aumentar a produtividade. Utilizam fertilizantes especiais para colher 6 ou mais toneladas de uvas numa área onde historicamente só se produzem 3 toneladas."

"Muitos restaurantes tratam o vinho como item de luxo, vendendo-o a seus clientes por preços 200% a 500% acima do custo. Com isso, não apenas desencorajam o consumo, mas contribuem para reforçar a noção errada de que o vinho é acessível apenas às elites e aos muito ricos."

"Conheço colecionadores com adegas cheias de vinhos de 40 000 dólares a garrafa que são incapazes de apreciar a bebida. Se fosse dada a eles uma taça de vinho de terceira, não saberiam distingui-lo dos tesouros que têm estocados. Conheço colecionadores milionários que, acredite-me, se você servir-lhes uma mistura de refrigerante com merlot chileno barato, vão achar bastante bom."

 

O vinho do argelino bateu os barões<

A guerra, ou, para ser mais preciso, a conflituosa relação de amor e ódio, com os franceses começou quando Robert Parker deu nota 9,1 ao Valandraud, um vinho feito por um casal de imigrantes argelinos num pedaço de terra até então considerado imprestável na região de Bordeaux. Na mesma avaliação, o prestigioso Château Margaux levou nota 9. Foi um tapa na cara da aristocracia local, que há três séculos produz alguns dos mais caros e cobiçados vinhos do mundo. Bordeaux é para o vinho o que a Suíça foi para os relógios antes da invenção dos mecanismos a quartzo e dos visores de cristal líquido. Se enologia fosse religião, Bordeaux seria sua Roma. Em Bordeaux nasceu a própria appellation, denominação oficial que a França usa para classificar seus vinhos. Desde sempre, os grandes vinhos foram feitos pelos poderosos em seu château, e não por estrangeiros num lote da periferia. Desde sempre, o Château Margaux é um Premier Grand Cru Classé, um dos cinco grandes vinhos franceses, e ponto final.

Fosse Parker um impostor ou mesmo um crítico de vinhos respeitado, e não o mais influente de todos, ele teria sido desmoralizado. A elite tradicional de Bordeaux teve de engolir o sapão americano. Na visão do mais respeitado crítico de vinhos do mundo, um imigrante argelino, ex-bancário e comerciante falido, foi capaz de fazer um vinho superior à jóia da nobreza agrária francesa. Mais humilhante ainda, o sujeito, um tal Jean-Luc Thunevin, acertou logo na primeira tentativa, com um trator velho e a ajuda apenas da mulher. Foram-se os anéis. Mas não sem luta. Um famoso produtor de vinho ficou indiferente quando seu mastim enfiou os dentes na panturrilha de Parker durante uma visita a sua vinícola. Outros armaram com a polícia local um flagrante contra o americano, acusado de dirigir embriagado. Isso numa região onde o raro é encontrar um motorista com teor legal de álcool no sangue. Muitos foram à Justiça. No dia em que um emocionado Parker recebia a medalha da Legião de Honra das mãos do presidente Jacques Chirac, em Paris, há dois anos, seus advogados lutavam contra os acusadores do americano nos tribunais. Ele gastou quase 300 000 dólares para se defender.

Qual a acusação central contra Parker? Ora, como não poderia deixar de ser, em se tratando de alguém que incomoda a elite francesa, a de ser um agente da globalização, da americanização do planeta. "Os americanos têm o gosto padronizado. Não têm sutileza. Para eles, o que realmente conta é pagar pouco pela garrafa de vinho. Por isso Parker faz tanto sucesso lá", diz Bernard Ginestet, o descendente dos fundadores do Château Margaux a quem coube o patético destino de ver a tradicional vinícola falir e ser vendida a uma multinacional. Parker responde com um fato irrefutável. Um de seus livros, traduzido para o idioma de Balzac, é o mais vendido guia de vinhos na própria França. Parker sabe que é temido. Por isso, provoca. "Pouco me importa se o produtor foi amigo de Napoleão, se vive numa propriedade centenária e seus antepassados foram fornecedores dos reis da França. O que interessa é o que ele coloca na garrafa e vende", diz Parker. "Tradição não tem gosto, nem aroma, nem textura." Mas tem preço. Quando se soube que a safra dos Bordeaux de 1999 foi uma das piores do século passado, Parker sugeriu aos produtores, em deferência aos consumidores, que baixassem o preço dos vinhos em 30%. Um silêncio cúmplice abafou a proposta. Talvez Parker represente mesmo a globalização. Mas no que ela tem de melhor. Sua face libertária, que permite a um imigrante pobre produzir um vinho tão bom ou melhor que o dos barões estabelecidos há séculos nas abençoadas margens do Rio Gironde, que fertiliza a terra em Bordeaux.

 

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