Sepultados no fundo do mar
A
Petrobras mergulha em suspeitas
de negligência na tragédia da P-36

Consuelo
Dieguez e Marcelo Carneiro
Fotos divulgação
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| A
plataforma P-36 inclinada em 30 graus e afundando na bacia de
Campos |
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Resgate
impossível
Das onze famílias que perderam parentes na explosão
da P-36, apenas duas puderam enterrar seus mortos. As outras
nove tiveram de se conformar com o sobrevôo da área
onde a plataforma afundou. A Petrobras considera impossível
recuperar os corpos que estão submersos, devido à
grande profundidade e ao tempo que já se passou desde
o acidente.
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| Laerson
Antônio dos Santos, 40 anos, casado, três filhos,
operador |
Luciano
Cardoso Souza, 46, casado, quatro filhos, operador |
Mário
Sérgio Matheus, 40, casado, três filhos, técnico
de segurança |
Geraldo
Magela Gonçalves, 41, casado, dois filhos, técnico
de segurança |
Adilson
Almeida de Oliveira, 33, casado, sem filhos, operador |
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| Emanoel
Portela Lima, 40, casado, dois filhos, operador |
Ernesto
de Azevedo Couto, 43, casado, três filhos, operador |
Josevaldo
Dias de Souza, 38, casado, dois filhos, operador |
Charles
Roberto de Oliveira, 34, casado, dois filhos, auxiliar
de plataforma |
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Só
dois enterrados
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| Sérgio
dos Santos Sousa, 34, casado, um filho, mecânico |
Sérgio
Santos Barbosa, 41, casado, três filhos, operador
de produção |
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Poucas
vezes o país assistiu ao vivo a imagens tão dramáticas
quanto a do afundamento da maior plataforma de petróleo do
mundo. Na terça-feira passada, terminaram as esperanças
de salvar a P-36. Ela foi a pique carregando, presos às suas
ferragens, os corpos estraçalhados de nove dos onze petroleiros
que morreram ao tentar controlar o fogo. Parecia impossível
dar dimensão ainda mais trágica ao caso. Mas na última
quinta-feira, uma semana depois do acidente de Macaé, a história
ganhou novo rumo com a divulgação de uma surpreendente
informação que pode ser o elo que faltava para explicar
o desastre. Nos três dias que antecederam as explosões
da madrugada do dia 15, três boletins enviados pelo comando
da P-36 à base de operação em terra avisavam
sobre a ocorrência de problemas no sistema de ventilação
da plataforma. A causa provável seria o entupimento do abafador
de chamas. O equipamento, alertavam os informes, teria de ser substituído.
Isso exigiria uma parada na produção, pois estava
ele muito próximo dos queimadores de gás da torre.
Menos de 24 horas após o derradeiro aviso, a monumental construção
sofreu a explosão e adernou, afundando completamente cinco
dias mais tarde.
A
descoberta desses boletins pode evidenciar não só
as causas do acidente. Pode também expor o que parece ser
um sinal de descontrole da direção da Petrobras sobre
a empresa. Na última quinta-feira, o presidente da estatal,
Henri Philippe Reichstul, foi apanhado de surpresa pela notícia.
Na verdade, ela só veio à tona porque a Federação
Única dos Petroleiros (FUP) entrou em contato com um diretor
da Petrobras informando que não estava conseguindo obter
cópias dos boletins diários de operação
expedidos antes da explosão da P-36. A FUP reclamava ainda
que o sistema on-line das operações da plataforma
estava fora do ar. Alertava, porém, para a existência
de cópias extra-oficiais dos boletins circulando entre a
categoria. A informação foi repassada ao diretor de
produção e exploração da Petrobras,
José Coutinho Barbosa, que prontamente entrou em contato
com Carlos Bellot, gerente-geral da estatal na Bacia de Campos.
Bellot confirmou que havia tirado o sistema do ar para preservar
as informações.
A
Petrobras fez então o que já deveria ter sido feito
logo no primeiro dia do acidente. Convocou os gerentes da plataforma
no mar e em terra para explicar o que havia acontecido nos dias
que antecederam o desastre. Mas já era tarde. O constrangimento
estava criado. Como era possível a direção
da Petrobras desconhecer a informação de que problemas
técnicos na P-36 iriam interromper a produção
de 80.000 barris de petróleo por
dia? É certo que o boletim não bancava ser necessário
parar imediatamente, e sim só quando o abafador fosse trocado,
o que parece significar que os controladores da operação
não viam risco aos petroleiros embarcados. É certo
também que, em caso de perigo, o gerente da plataforma tem
autonomia para sustar a produção. O que não
faz sentido é uma informação de tal calibre,
que fatalmente traria prejuízos à empresa e ao país
e que pode ter resultado na morte de onze pessoas, encalhar no terceiro
escalão da companhia.
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Não
faltou aviso
Em
12 de março, três dias antes da explosão
da P-36, um
boletim relata problema no
abafador de chamas, peça que
impede que o gás retorne para
a tubulação: "Estamos com pressurização
no sistema de
vent (sic) da plataforma. Provável causa é o
entupimento do
abafador de chamas. Estamos providenciando-o para compra.
Será necessário parada de produção
para substituição"
clique
na imagem para ampliá-la

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Existe
uma hierarquia muita clara na Petrobras: se os gerentes da plataforma
deram o alerta, a informação deveria ter alcançado
o comando da empresa. Se isso não ocorreu, houve insubordinação
da gerência ou leniência da direção. Somente
na manhã de quinta-feira Reichstul foi avisado do que se
sucedera. Tantas trapalhadas podem ser parcialmente explicadas pelo
clima beligerante que impera na diretoria da Petrobras. Vários
diretores não se falam e dividem-se em grupos, boa parte
deles conspirando contra o próprio Reichstul que,
reservadamente, afirma possuir apenas três diretores de sua
inteira confiança na estatal.
Panela
de pressão Nos dias 12 e 13 portanto, poucos
dias antes da tragédia , o petroleiro Hélio
Galvão chamou a atenção para um problema de
"pressurização no vent da plataforma". Em linguagem
leiga, isso significa que estava ocorrendo um aumento da pressão
interna nos vasos de uma das colunas de sustentação
da plataforma. Ou seja, aumento de pressão num setor por
onde passam gases. No dia 14, véspera das explosões,
o supervisor Paulo Vianna alertava para a mesma situação.
O problema da plataforma seria semelhante ao de uma panela de pressão
com defeito na válvula no caso, o abafador de chamas,
o tal equipamento que teria de ser trocado. Sem ter por onde expelir
vapor, a panela explodiria. É o que parece ter acontecido
com a P-36, embora até a noite de sexta-feira não
tivesse sido concluído o laudo sobre o acidente.
Ag. Estado
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| Reichstul:
desinformado sobre os boletins da P-36 |
As conseqüências do atestado de incompetência que
a diretoria da Petrobras passou ao revelar que desconhecia os boletins
podem ser muito mais graves do que a simples exposição
de suas fragilidades. Um exemplo: as seguradoras, ávidas
para se livrar do prejuízo de cobrir um seguro de 500 milhões
de dólares, podem alegar que, se a Petrobras sabia do problema
e não avisou a seguradora, teria havido quebra de contrato.
A atual gestão da Petrobras está pagando também
pelos erros da anterior. A maioria dos contratos assinados, inclusive
o da P-36, estão envoltos em suspeitas de favorecimento.
Isso tem servido de argumento para algumas seguradoras não
pagarem seguros devidos. É o caso de duas plataformas construídas
pelo estaleiro Verolme-Ishibrás e entregues com atraso à
Petrobras, que agora cobra um prejuízo de 300 milhões.
A seguradora alegou corrupção para tentar dar o calote.
Os
sindicalistas, por outro lado, acusam a companhia de estar abrindo
mão da segurança para atingir metas de produção
muito elevadas. Esse risco está exposto em um dos boletins
agora descobertos. Ele mostra, por exemplo, que o petroleiro Hélio
Galvão respondeu tanto pela coordenação da
plataforma quanto pela supervisão da produção
no dia 11, quatro dias antes das explosões. Nos dias seguintes,
eram dois petroleiros se ocupando dessas funções.
Fica claro que há algo errado. O silêncio tumular da
Agência Nacional de Petróleo (ANP) no episódio
é também surpreendente. O presidente da Petrobras
pode não ter amigos na estatal, mas mantém uma amizade
de longa data com David Zylbersztajn, presidente da agência.
Tanto que na semana passada, quando a ANP deveria estar cobrando
as causas do acidente, os dois jantaram juntos na casa de Zylbersztajn.
A ANP, órgão fiscalizador das empresas de petróleo
e energia, está muito tímida na exigência de
explicações da companhia sobre o ocorrido. O laudo
sobre as causas da explosão só estará concluído
no final de abril. Mas certamente a história do afundamento
da P-36 ganhou um ingrediente que a torna ainda mais revoltante,
principalmente para as famílias dos mortos: a suspeita crescente
de que a tragédia poderia ter sido evitada.
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