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A disputa sucessória corre solta nos
bastidores do palácio e desequilibra
a base aliada

Monica Weinberg e Rudolfo Lago, de Brasília

 
Paulo Renato e Serra, em cadeia de TV: o ministro da Saúde é o campeão do governo. Ganha até do presidente

Na semana passada, a disputa pela sucessão em 2002 consolidou certa esquizofrenia política. Em público, atendendo à vontade do presidente Fernando Henrique Cardoso, faz-se um teatro para simular que ela não existe. Numa das melhores cenas, na quinta-feira passada, o ministro da Saúde, José Serra, o tucano que mais voa para ser candidato à sucessão de FHC, visitou Fortaleza. Ao lado do governador do Ceará, Tasso Jereissati, outro tucano que planeja o mesmo vôo, Serra lançou a etapa cearense do Projeto Alvorada, um conjunto de programas sociais do governo federal. Desembarcou como candidato, com um séquito de assessores preocupados em documentar, filmar e fotografar tudo, mas na hora do discurso rasgou elogios ao governador como se ali nada mais houvesse além do anúncio de um programa social. Jereissati, por sua vez, também interpretou seu papel no teatro e teceu comentários abonadores sobre Serra. Mas em privado, longe dos olhos da platéia, o que mais se ouve é o trincar de foices num duelo predatório para a eleição de 2002.

Numa conversa a sós, em Fortaleza, Jereissati e Serra falaram por trinta minutos. Trataram de sucessão, mas não mais que cinco minutos. Depois da solenidade de Fortaleza, Jereissati viajou para Brasília, onde participou do jantar de uma comitiva árabe com Fernando Henrique, no Palácio da Alvorada. Após o evento, o governador do Ceará teve uma conversa reservada com o presidente. Falaram, de novo, sobre sucessão – mas nada muito profundo. Isso pode dar a impressão de que a sucessão está morna. Não está. Há três semanas, quando Fernando Henrique reuniu a cúpula tucana, esse tema foi abordado, mas FHC não pediu para que se adiasse a disputa, ao contrário do que se divulgou. O presidente pediu apenas que os tucanos, ao deixarem o jantar, divulgassem à imprensa que ele, presidente, tinha feito esse pedido. Só isso. A leitura de Serra do episódio foi partir para o ataque. Já o governador do Ceará entendeu que deveria recolher-se um pouco mais.

Aparições nacionais – O apetite com que Serra tenta abrir espaço para alçar-se à condição de candidato do coração de Fernando Henrique já contaminou o governo. Para os tucanos, o presidente está certo em estimular mais de um nome e observar quais conseguem decolar. Sentem ciúme das viagens recentes que o presidente fez levando Serra a tiracolo às cidades do Nordeste, mas entendem que isso faz parte do jogo. Há seis semanas, o presidente fez o mesmo com o ministro Paulo Renato Souza, da Educação, outro que nunca fecha o olho para o Palácio do Planalto. Levou-o para uma solenidade de palanque em Goiás, no lançamento do programa Bolsa-Escola. O que contamina o governo, mesmo, são as ações intestinas, que vão se desdobrando na surdina do Palácio. Serra, por exemplo, é o campeão nacional de cadeias de rádio e televisão. Ganha até do presidente. Desde que seu amigão Andrea Matarazzo assumiu a Secretaria de Comunicação do governo, em janeiro de 1999, o ministro da Saúde é imbatível nas aparições nacionais.

Em 1999, Serra fez nove cadeias nacionais de rádio e televisão, num total de 31 minutos. Um recorde. Em 2000, o mesmo recorde: nove cadeias, com um total de trinta minutos. Neste ano, Serra também já disparou na frente. Está fazendo a média de uma cadeia nacional por mês. Em janeiro, falou sobre prevenção da dengue, em fevereiro foi a vez dos remédios genéricos e, em março, diabetes. Já o ministro Paulo Renato, da Educação, que também atua numa área social fundamental, apareceu uma só vez, em fevereiro, quando ficou três minutos no ar falando sobre o programa Bolsa-Escola. Nos dois anos anteriores, somados, o ministro da Educação fez apenas quatro cadeias de rádio e televisão – contra dezoito de Serra. Para aprovar sua única cadeia nacional deste ano com Andrea Matarazzo, Paulo Renato teve dificuldades. Em São Paulo, o ministro gravou um pronunciamento de quatro minutos. Ao examiná-lo, Matarazzo não gostou. Disse que estava muito longo e tinha de ser cortado. Uma semana depois, Paulo Renato voltou ao estúdio e produziu um programa com um minuto a menos.

Com suas aparições freqüentes, Serra tem colhido efeitos positivos para sua imagem, embora não tanto para sua área de atuação, a saúde. A área do governo mais bem avaliada numa pesquisa recente é a educação, com 39% de aprovação. A saúde tem um desempenho bom, mas inferior, com 24%. No entanto, de todos os ministros, o mais lembrado pela população é Serra, com 21% das menções, seguido por Pedro Malan, da Fazenda, com 5%, e Paulo Renato, com apenas 3%. A atuação de Matarazzo tem sido útil ao ministro da Saúde. Nos fins de semana, em sua espetacular mansão em São Paulo, no bairro do Morumbi, Matarazzo tem recebido uma turma que mescla empresários, artistas e políticos – e a conversa costuma girar em torno da candidatura de Serra, que muitas vezes aparece para explicar o que fará com o Brasil. A dedicação de Matarazzo a Serra é notável. No ano passado, quando a Saúde discutia a regulamentação da propaganda de cigarro na imprensa, Matarazzo achou o tema tão importante que se dedicou pessoalmente a ele. Abriu as portas de seu casarão para receber um grupo de empresários do ramo de comunicação. A primeira visão que os convidados têm ao cruzar os portões da mansão no Morumbi é de uma bandeira do Brasil hasteada, fincada no jardim. Outra, que compõe o ar de imponência, é de uma estátua de bronze, esculpida em tamanho natural, em homenagem a um dos Matarazzo.

A batalha de Tasso Jereissati, José Serra e Paulo Renato pelo coração de FHC tornou-se mais ferrenha quando foram disputadas a presidência do Senado e a da Câmara, em fevereiro passado – e os senadores Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalhães começaram uma troca sanguínea de insultos. Na ocasião, o PSDB de Serra aliou-se à turma do PMDB para, numa troca de apoios, eleger o tucano Aécio Neves na Câmara e o peemedebista Jader Barbalho no Senado. A estratégia deu certo, mas os desdobramentos estão começando a assombrar o Palácio do Planalto. A base aliada – cuja solidez é fundamental na hora de discutir a sucessão presidencial – está cada vez mais parecida com uma geléia em terremoto. Na semana passada, depois de mais uma troca de insultos, em que Jader comparou ACM a uma "velha prostituta pregando castidade" e ACM rebateu dizendo que "as prostitutas só fazem o que fazem porque não assaltaram os cofres públicos", o presidente do Senado resolveu assinar o pedido de CPI para investigar 27 casos de corrupção – em dois dos quais se suspeita da conduta do próprio Jader. Exigiu que a lista fosse acrescida de outros oito casos, todos destinados a pegar o senador Antonio Carlos Magalhães.

 
Alan Marques/Folha Imagem
Dida Sampaio/AE
Jader Barbalho, que resolveu assinar a CPI da corrupção: plataforma P-36 ACM topou que a CPI investigue oito casos contra si

O apoio de Jader à CPI deixou o presidente Fernando Henrique irritado e causou mais um salseiro na base aliada, com outras vozes dizendo que também iriam apoiar a CPI. Jader desculpou-se, afirmando que seu gesto não era partidário, mas pessoal, pois se não assinasse a CPI estaria fazendo uma confissão de culpa. Sua situação, de qualquer modo, está cada vez mais precária. Até agora, Jader não conseguiu explicar os cheques do Banpará que foram parar em sua conta pessoal e na de familiares. Tudo que disse foi que não se lembrava de operações bancárias feitas na década de 80. Também não consegue uma única explicação plausível de como ergueu uma fortuna pessoal de, no mínimo, 30 milhões de reais. Sua incapacidade para se defender já começou a causar, dentro da cúpula do PMDB, certa impressão de que Jader pode ser a versão humana da plataforma P-36. Ele pode afundar, mas o risco é que, no repuxo do mar, leve junto seus colegas de partido, que também têm sido alvo de denúncias – e talvez não saibam nadar.

 

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