Ler
não serve para nada
Ilustração
Pepe Casals
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Como tornar o Brasil uma nação letrada? É
o título de um documento de Ottaviano Carlo De Fiore,
secretário do Livro e Leitura. Honestamente, eu nem
sabia que o Ministério da Cultura tinha um secretário
do Livro e Leitura. Mas tem. Sua principal tarefa é
"acompanhar, avaliar e sugerir alternativas para as políticas
do livro, da leitura e da biblioteca". Foi exatamente o que
Ottaviano Carlo De Fiore tentou fazer em seu documento, estudando
maneiras de aumentar o interesse por livros no Brasil. Cito
um trecho: "É fundamental que nos meios de massa, políticos,
estrelas, sindicalistas, professores, religiosos, jornalistas
(através de depoimentos, conselhos, testemunhos) propaguem
contínua e perenemente a necessidade, a importância
e o prazer da leitura, assim como a ascensão social
e o poder pessoal que o hábito de ler confere às
pessoas".
Não pertenço a nenhuma das categorias mencionadas
por Ottaviano Carlo De Fiore. A rigor, portanto, meu depoimento
não foi solicitado. Dou-o mesmo assim, ainda que
tenha plena consciência de minha falta de prestígio
e incapacidade de influenciar as pessoas. Se digo que meu
escritor preferido é Rabelais, por exemplo, ninguém
sente o irrefreável impulso de entrar numa livraria
e comprá-lo. Se, por outro lado, Rubens Barrichello
recomenda os relatos de reencarnação de Muitas
Vidas, Muitos Mestres, do americano Brian Weiss ("depois
que o li, o medo que tinha da morte foi embora"), é
bastante provável que consiga vender quatro ou cinco
exemplares a mais.
Minha experiência, ao contrário do que afirma
o documento de Ottaviano Carlo De Fiore, é que o
hábito da leitura constitui o maior obstáculo
para a ascensão social e o poder pessoal no Brasil.
Não é um acaso que aqueles que vivem de livros
os escritores se encontrem no patamar mais
baixo de nossa escala social. Muito mais baixo do que políticos,
estrelas, sindicalistas, professores, religiosos ou jornalistas.
De fato, basta entrar no Congresso, num estúdio de
TV, numa universidade ou numa redação de jornal
para ver que todos os presentes têm verdadeira aversão
por livros. Eles sabem que livros não ajudam a conquistar
poder, dinheiro, respeitabilidade. Livros só atrapalham.
Criam espíritos perdedores. Provocam isolamento,
frustração, resignação. Desde
que comecei a ler, virei um frouxo, um molenga. Com o passar
dos anos, foram-se embora todas as minhas ambições.
Tudo porque os livros me colocaram no devido lugar. Nada
disso, claro, tem a ver com o temperamento nacional, tão
afirmativo, tão voraz, tão animal. É
contraproducente tentar convencer os poderosos a prestar
depoimentos sobre a importância dos livros em suas
carreiras, simplesmente porque é mentira, e todo
mundo sabe que é mentira. Dê uma olhada nas
pessoas de sucesso que aparecem nas páginas desta
revista. É fácil perceber que nenhuma delas
precisou ler para subir na vida. A melhor receita para o
sucesso, no Brasil, é o analfabetismo.
Por mais bem-intencionado que seja Ottaviano Carlo De Fiore,
duvido que um dia o Brasil venha a se tornar uma nação
letrada. Se por acaso isso acontecer, certamente lerá
os livros errados. Se calhar de ler os livros certos, só
dirá bobagens sobre o que leu.
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