Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
humor lúgubre que domina o país
A retomada do projeto de um trem veloz entre Rio e São Paulo é
uma boa notícia, mas... dá para levar a sério?
Excelente
notícia. A Valec, empresa estatal que administra a liquidação
da Rede Ferroviária Federal, recebeu do Ministério dos Transportes
a tarefa de preparar e realizar licitação internacional para enfim
tornar realidade o velho sonho de um trem de alta velocidade ligando Rio de Janeiro
e São Paulo. Pelo menos para isso a crise do transporte aéreo serviu
tirou da letargia o projeto de unir as duas cidades mais populosas do país
por um moderno sistema de trens. A idéia, no governo, é ter o trem
em funcionamento ainda antes do fim do governo Lula.
A notícia foi dada na quarta-feira pelo jornalista Xico Vargas, em sua
coluna no site NoMínimo. O percurso deverá ser feito em não
mais que duas horas. Considerando-se que viajar de trem dispensa os rituais de
embarque e desembarque nos aeroportos, a opção pela via férrea
tomará o mesmo tempo, ou quase ou muito menos, quando o tráfego
aéreo enlouquece , que a opção pelo avião. Com
isso, espera-se uma queda considerável na linha aérea que é,
de longe, a mais movimentada do país. Jornalista bem informado e sagaz,
Xico Vargas acrescentava uma pimenta a suas informações. Dizia que
a obra, segundo se comentava em Brasília, alimentava "o irrefreável
desejo do PMDB de voltar ao Ministério dos Transportes". Não é
de duvidar. Mas, independentemente disso, a notícia de que o trem-bala
RioSP pode realmente estar nos trilhos em quatro anos é de comemorar.
Ou não?
Não. Dos mais de
sessenta comentários à notícia postados no site até
a noite de quinta-feira, a maioria esmagadora era de dúvida, descrença
ou pura esculhambação. "Será o trem bala... perdida", dizia
um deles. Outro acrescentava, no mesmo veio: "Se esse trem é bala mesmo,
deve começar pelo vidro, à prova de bala". Um terceiro afirmava
ser impossível um trem que desenvolva alta velocidade num país em
que as vacas pastam livres pelas estradas. E se o trem se encontrar com uma delas?
Na mesma tecla dos desastres, um quarto dizia: "Já consigo antever o documentário
no Discovery sobre o pior acidente ferroviário do mundo". Mas para haver
desastre é preciso imaginar a linha em operação, o que precipitou
a objeção de um quinto comentarista: "E você acha que vai
chegar a funcionar, para ter acidente?".
Grande parte dos comentários assentava-se na desconfiança de que
obscuras transações são inseparáveis de um empreendimento
desse gênero. "Desta vez então o PMDB enrica de vez", dizia um deles.
Outro: "A obra será orçada em mil, antes do seu início já
terá custado dois mil, antes de um décimo ter sido realizado já
terá consumido cinco mil e em seguida será paralisada por 'falta
de verba'". Outro ainda: "Quando assentarem o último trilho, já
roubaram os outros". E mais um: "Continuo com a suspeita de que é melhor
pagar logo a comissão aos interessados e não fazer nada do que arcar
com micos e mais micos". Houve um comentarista que, dado o porte da iniciativa,
defendeu a criação de um ministério exclusivo para cuidar
dela. "Esse ministério poderia estar na cota do PMDB, que teria, por exemplo,
no Newton Cardoso, um nome experiente e capaz de tocar o projeto."
A irresistível atração do atual governo pela marquetagem
foi lembrada. "O governo Lula não passa uma semana sem um factóide",
dizia um comentário. Outros externavam seu ceticismo com base nas experiências
passadas. "Alguém aí lembra do Trem de Prata?" Ou: "Vai ser a nova
Ferrovia do Aço". Havia quem enveredasse pelas razões técnicas.
Se o Rio está no nível do mar e São Paulo a uma altitude
de 700 metros, "como imaginar uma linha, se não reta, ao menos próxima
disso, para permitir a velocidade de um trem digno de ser 'bala'?". Uma questão
cultural também foi levantada: "Posso afirmar que esse tipo de tecnologia
(a dos trens europeus de alta velocidade) é conseqüência
de uma cultura ferroviária madura, de uma extensa malha funcionando impecavelmente
por gerações". Enfim, houve o comentarista que preferiu ser direto,
brutal e rasteiro: "Duvido!!!!!!!!! Tamo é precisando construir presídios,
milhares".
O pequeno mundo dos comentários
do NoMínimo é um resumo do que vai pela cabeça dos brasileiros.
Se há alguma coisa em que o país evoluiu é no conhecimento,
pelo público ou pelo menos pelo público que acompanha as
notícias , de como as coisas funcionam. Sabe-se hoje que raramente
há iniciativa governamental que já não saia do forno tisnada
pela tentação da marquetagem. Sabe-se que dificilmente haverá
obra sem propina e negociata. Sabe-se que obras que começam nem sempre
terminam e que mesmo as que terminam não necessariamente terminam bem.
Acrescente-se que, no momento, um clima lúgubre toma conta do país.
Olha-se para Brasília e vê-se o governo enredado na mesquinha questão
da partilha de cargos. Olha-se para as ruas e depara-se com o caso do menino arrastado
por um carro em movimento até a morte. Vai se apagando a expectativa de
dias melhores. Reina a descrença quanto à possibilidade de os governantes
resolverem alguma coisa, qualquer coisa.