Masuda
Sultan largou um casamento arranjado e hoje tenta melhorar a vida das afegãs
Jerônimo
Teixeira
Chester
Higgins Jr./NYT
Spencer Platt/Getty Images
Masuda
Sultan: a opressão das mulheres em comunidades muçulmanas
seja no Afeganistão, seja nos Estados Unidos (à dir.)
às vezes parte das mães, das sogras, das irmãs, das cunhadas...
Masuda
Sultan foi a primeira mulher divorciada de sua família. Em princípio,
esse pioneirismo nada teria de notável para quem cresceu na liberal Nova
York. Mas, antes de ser uma cidadã da maior metrópole americana,
Masuda é uma afegã, educada para seguir os preceitos estritos da
etnia pashtun: a mulher só fala com um homem quando este lhe dirige a palavra,
mantém os olhos baixos, sorri com discrição. Como boa menina
muçulmana, submeteu-se a um casamento arranjado por seus pais ainda na
adolescência. Nem sequer conhecia o noivo quando se acertou o noivado. Masuda,
hoje com 28 anos, abandonou o casamento e as tradições familiares
para perseguir uma bem-sucedida carreira acadêmica ela tem um mestrado
em administração pública pela Universidade Harvard
e para se embrenhar em uma dura militância pelos direitos da mulher no Afeganistão.
Em Minha Guerra Particular (tradução de Regina Lyra;
Nova Fronteira; 320 páginas; 32 reais), misto de livro de memórias
e ensaio sobre a condição feminina na cultura islâmica, Masuda
analisa a divisão cultural que marcou sua vida. "Em sociedades tradicionais
como a afegã, o que importa mais é a adesão aos valores da
família e da comunidade", disse Masuda em entrevista a VEJA, por telefone,
de Cabul. "Mas eu acredito na valorização das escolhas do indivíduo.
Nesse sentido, sou muito americana."
É
curioso que, em contrapartida, Masuda também valorize os laços comunitários
que perpassam a cultura afegã. Ela admira os grandes jantares em família
e lembra com carinho a atividade frenética na cozinha de sua casa sempre
que um hóspede era esperado. A família de Masuda mudou-se para os
Estados Unidos quando ela tinha 5 anos, fugindo da invasão soviética.
Na adolescência, ao contrário das colegas americanas, ela não
ia ao cinema com as amigas, muito menos namorava. Estava, afinal, prometida para
um homem catorze anos mais velho, um médico, considerado pela família
um excelente partido. O casamento foi selado quando Masuda tinha 16 anos, em uma
cerimônia islâmica tradicional no Paquistão onde a noiva
quase não viu o marido, mas passou os dias na companhia constante e opressiva
das parentas dele. Esse pesadelo doméstico é um dos aspectos mais
reveladores do livro: Masuda mostra como a opressão à mulher nas
sociedades islâmicas não é obra exclusiva do homem. Sogras,
mães, irmãs, cunhadas cumprem um papel fundamental na imposição
de limitações à liberdade de suas iguais.
De
volta aos Estados Unidos, a frustração do casamento conduziu Masuda
a uma tentativa de suicídio e, depois, a uma saída bem mais razoável:
o divórcio. Foi na perigosa condição de mulher divorciada
que Masuda retornou pela primeira vez a sua cidade natal, Kandahar, em 2001, alguns
meses antes dos ataques terroristas de 11 de setembro ou seja, em plena
vigência do regime talibã. O Afeganistão que ela descobriu
era um lugar pobre e oprimido, dilacerado por décadas de guerras civis.
Masuda, que chegou a votar em George W. Bush os muçulmanos americanos,
diz ela, se identificam com os valores conservadores do Partido Republicano ,
não engrossou o coro dos opositores à invasão americana no
Afeganistão. Mas denunciou excessos e crimes das forças invasoras
em particular, o bombardeio da aldeia de Chowkar-Karez, onde teriam morrido
dezenove parentes seus. "A posição oficial do Departamento de Defesa
é que aquela população civil era um alvo legítimo,
que ela dava apoio ao Talibã", critica Masuda.
Na recente "onda afegã" que tomou conta das livrarias brasileiras, a condição
da mulher tornou-se um tema central, como se pode constatar em O Livreiro de
Cabul, da jornalista norueguesa Asne Seierstad, e Mulheres de Cabul,
da fotógrafa inglesa Harriet Logan (e Khaled Hosseini, autor do best-seller
O Caçador de Pipas, já anunciou que seu próximo romance
será sobre mulheres afegãs). Minha Guerra Particular oferece
uma perspectiva mais íntima dos dramas femininos nas sociedades islâmicas.
Masuda não transige na sua vontade de mudanças "ocidentais" no Afeganistão.
Mas também é generosa com a cultura de seu país. "Sou uma
otimista", diz ela. "Não poderia trabalhar no Afeganistão se não
fosse."
CHESTER HIGGINS JR./THE NEW YORK TIME
"Não há país igual
aos Estados Unidos"
Masuda
Sultan divide seu tempo entre os Estados Unidos, onde cresceu, e o Afeganistão,
seu país natal, onde participa de movimentos pelos direitos das mulheres.
De Cabul, por telefone, falou a VEJA sobre
a situação do Afeganistão e sua experiência familiar,
temas do livro Minha Guerra Particular.
O
Afeganistão está melhor ou pior depois da invasão americana
e da queda do Talibã? O progresso tem sido lento. No que diz respeito
à segurança, nada melhorou. Mesmo assim, em Cabul se vêem
muitos prédios novos sendo erguidos, o que é alentador. O Afeganistão
está em um ponto no qual ou progride, com ajuda internacional, ou se precipita
ladeira abaixo.
O
que pode ser feito para que o país progrida? O Afeganistão
pode se tornar mais seguro e estável se houver crescimento econômico.
A ajuda internacional é essencial para isso. Infelizmente, os esforços
nesse sentido têm sido pequenos. O sul do país, em particular, está
muito abandonado. Essa falha criou a oportunidade para que o Talibã, os
fundamentalistas e os terroristas se restabelecessem. O modo desastrado como os
Estados Unidos conduziram os bombardeios na região, atingindo muitas vezes
a população civil, piorou as coisas. Se pelo menos houvesse ajuda
imediata às famílias atingidas nessas catástrofes, parte
do dano poderia ser revertida. Como isso não aconteceu, o espírito
local mudou. As pessoas dizem: "Os Estados Unidos e a comunidade internacional
não se importam conosco". Perdemos o coração e a mente daquela
população e hoje estamos enfrentando as conseqüências.
Quais são
seus sentimentos em relação aos Estados Unidos? Pode soar
tolo ou cafona dizer isso, mas os EUA são um grande país. Não
há outro lugar igual no mundo. Minha família prosperou nos Estados
Unidos. E eu, que nasci no Afeganistão, estudei em Harvard, com bolsas
do governo. Os americanos são tolerantes e valorizam a diversidade. E algo
que eu valorizo muito no país é a liberdade que eu tenho de criticá-lo.
Um casamento arranjado
como o que você viveu pode funcionar? Depende de uma série
de fatores. Nas sociedades tradicionais, há um papel claro para cada um.
O marido é o provedor da família e a mulher é responsável
pela administração da casa, pela educação dos filhos.
Com essas expectativas claras, todos sabem o que o casamento significa. Em uma
sociedade mais, digamos, moderna como a americana, os papéis não
são tão definidos e estão sempre sujeitos a mudanças.
Um casamento arranjado nessas condições como foi o meu
só pode gerar conflitos.
Como
foi seu dia-a-dia com um marido que mal conhecia antes de se casar? Não
havia muito sobre o que discutir, pois meu marido e eu não tínhamos
nada em comum. Falávamos do dia-a-dia da casa, da comida, das compras necessárias.
Às vezes, comentávamos as notícias mas, em geral,
eu só sabia da opinião dele sobre temas políticos quando
ele conversava com meu pai, nos encontros familiares.
O que a sua família achou de Minha Guerra
Particular? Minha irmã mais nova, de 13 anos, leu o livro.
Disse que o adorou.
E seus
pais? Não tenho certeza. Até onde sei, eles não leram
o livro. Mas não perguntei a respeito.
Seria
muito natural para uma filha perguntar aos pais se eles leram o livro dela. Por
que você que não fez essa pergunta? Na nossa cultura, falar
publicamente da vida privada é algo arriscado e inapropriado. Meu livro
fala da vida privada, e eu sei que meus pais não se sentem confortáveis
com isso. Por isso eu evito a discussão.