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28 de fevereiro de 2007
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A muçulmana feminista

Masuda Sultan largou um casamento arranjado
e hoje tenta melhorar a vida das afegãs


Jerônimo Teixeira

 
Chester Higgins Jr./NYT
Spencer Platt/Getty Images

Masuda Sultan: a opressão das mulheres em comunidades muçulmanas – seja no Afeganistão, seja nos Estados Unidos (à dir.) – às vezes parte das mães, das sogras, das irmãs, das cunhadas...


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Trecho do livro

Masuda Sultan foi a primeira mulher divorciada de sua família. Em princípio, esse pioneirismo nada teria de notável para quem cresceu na liberal Nova York. Mas, antes de ser uma cidadã da maior metrópole americana, Masuda é uma afegã, educada para seguir os preceitos estritos da etnia pashtun: a mulher só fala com um homem quando este lhe dirige a palavra, mantém os olhos baixos, sorri com discrição. Como boa menina muçulmana, submeteu-se a um casamento arranjado por seus pais ainda na adolescência. Nem sequer conhecia o noivo quando se acertou o noivado. Masuda, hoje com 28 anos, abandonou o casamento e as tradições familiares para perseguir uma bem-sucedida carreira acadêmica – ela tem um mestrado em administração pública pela Universidade Harvard – e para se embrenhar em uma dura militância pelos direitos da mulher no Afeganistão. Em Minha Guerra Particular (tradução de Regina Lyra; Nova Fronteira; 320 páginas; 32 reais), misto de livro de memórias e ensaio sobre a condição feminina na cultura islâmica, Masuda analisa a divisão cultural que marcou sua vida. "Em sociedades tradicionais como a afegã, o que importa mais é a adesão aos valores da família e da comunidade", disse Masuda em entrevista a VEJA, por telefone, de Cabul. "Mas eu acredito na valorização das escolhas do indivíduo. Nesse sentido, sou muito americana."

É curioso que, em contrapartida, Masuda também valorize os laços comunitários que perpassam a cultura afegã. Ela admira os grandes jantares em família e lembra com carinho a atividade frenética na cozinha de sua casa sempre que um hóspede era esperado. A família de Masuda mudou-se para os Estados Unidos quando ela tinha 5 anos, fugindo da invasão soviética. Na adolescência, ao contrário das colegas americanas, ela não ia ao cinema com as amigas, muito menos namorava. Estava, afinal, prometida para um homem catorze anos mais velho, um médico, considerado pela família um excelente partido. O casamento foi selado quando Masuda tinha 16 anos, em uma cerimônia islâmica tradicional no Paquistão – onde a noiva quase não viu o marido, mas passou os dias na companhia constante e opressiva das parentas dele. Esse pesadelo doméstico é um dos aspectos mais reveladores do livro: Masuda mostra como a opressão à mulher nas sociedades islâmicas não é obra exclusiva do homem. Sogras, mães, irmãs, cunhadas cumprem um papel fundamental na imposição de limitações à liberdade de suas iguais.

De volta aos Estados Unidos, a frustração do casamento conduziu Masuda a uma tentativa de suicídio e, depois, a uma saída bem mais razoável: o divórcio. Foi na perigosa condição de mulher divorciada que Masuda retornou pela primeira vez a sua cidade natal, Kandahar, em 2001, alguns meses antes dos ataques terroristas de 11 de setembro – ou seja, em plena vigência do regime talibã. O Afeganistão que ela descobriu era um lugar pobre e oprimido, dilacerado por décadas de guerras civis. Masuda, que chegou a votar em George W. Bush – os muçulmanos americanos, diz ela, se identificam com os valores conservadores do Partido Republicano –, não engrossou o coro dos opositores à invasão americana no Afeganistão. Mas denunciou excessos e crimes das forças invasoras – em particular, o bombardeio da aldeia de Chowkar-Karez, onde teriam morrido dezenove parentes seus. "A posição oficial do Departamento de Defesa é que aquela população civil era um alvo legítimo, que ela dava apoio ao Talibã", critica Masuda.

Na recente "onda afegã" que tomou conta das livrarias brasileiras, a condição da mulher tornou-se um tema central, como se pode constatar em O Livreiro de Cabul, da jornalista norueguesa Asne Seierstad, e Mulheres de Cabul, da fotógrafa inglesa Harriet Logan (e Khaled Hosseini, autor do best-seller O Caçador de Pipas, já anunciou que seu próximo romance será sobre mulheres afegãs). Minha Guerra Particular oferece uma perspectiva mais íntima dos dramas femininos nas sociedades islâmicas. Masuda não transige na sua vontade de mudanças "ocidentais" no Afeganistão. Mas também é generosa com a cultura de seu país. "Sou uma otimista", diz ela. "Não poderia trabalhar no Afeganistão se não fosse."

CHESTER HIGGINS JR./THE NEW YORK TIME

"Não há país igual aos Estados Unidos"

Masuda Sultan divide seu tempo entre os Estados Unidos, onde cresceu, e o Afeganistão, seu país natal, onde participa de movimentos pelos direitos das mulheres. De Cabul, por telefone, falou a VEJA sobre a situação do Afeganistão e sua experiência familiar, temas do livro Minha Guerra Particular.

O Afeganistão está melhor ou pior depois da invasão americana e da queda do Talibã?
O progresso tem sido lento. No que diz respeito à segurança, nada melhorou. Mesmo assim, em Cabul se vêem muitos prédios novos sendo erguidos, o que é alentador. O Afeganistão está em um ponto no qual ou progride, com ajuda internacional, ou se precipita ladeira abaixo.  

O que pode ser feito para que o país progrida?
O Afeganistão pode se tornar mais seguro e estável se houver crescimento econômico. A ajuda internacional é essencial para isso. Infelizmente, os esforços nesse sentido têm sido pequenos. O sul do país, em particular, está muito abandonado. Essa falha criou a oportunidade para que o Talibã, os fundamentalistas e os terroristas se restabelecessem. O modo desastrado como os Estados Unidos conduziram os bombardeios na região, atingindo muitas vezes a população civil, piorou as coisas. Se pelo menos houvesse ajuda imediata às famílias atingidas nessas catástrofes, parte do dano poderia ser revertida. Como isso não aconteceu, o espírito local mudou. As pessoas dizem: "Os Estados Unidos e a comunidade internacional não se importam conosco". Perdemos o coração e a mente daquela população e hoje estamos enfrentando as conseqüências.  

Quais são seus sentimentos em relação aos Estados Unidos?
Pode soar tolo ou cafona dizer isso, mas os EUA são um grande país. Não há outro lugar igual no mundo. Minha família prosperou nos Estados Unidos. E eu, que nasci no Afeganistão, estudei em Harvard, com bolsas do governo. Os americanos são tolerantes e valorizam a diversidade. E algo que eu valorizo muito no país é a liberdade que eu tenho de criticá-lo.  

Um casamento arranjado como o que você viveu pode funcionar?
Depende de uma série de fatores. Nas sociedades tradicionais, há um papel claro para cada um. O marido é o provedor da família e a mulher é responsável pela administração da casa, pela educação dos filhos. Com essas expectativas claras, todos sabem o que o casamento significa. Em uma sociedade mais, digamos, moderna como a americana, os papéis não são tão definidos e estão sempre sujeitos a mudanças. Um casamento arranjado nessas condições – como foi o meu – só pode gerar conflitos.  

Como foi seu dia-a-dia com um marido que mal conhecia antes de se casar?
Não havia muito sobre o que discutir, pois meu marido e eu não tínhamos nada em comum. Falávamos do dia-a-dia da casa, da comida, das compras necessárias. Às vezes, comentávamos as notícias – mas, em geral, eu só sabia da opinião dele sobre temas políticos quando ele conversava com meu pai, nos encontros familiares.

O que a sua família achou de Minha Guerra Particular?
Minha irmã mais nova, de 13 anos, leu o livro. Disse que o adorou.

E seus pais?
Não tenho certeza. Até onde sei, eles não leram o livro. Mas não perguntei a respeito.  

Seria muito natural para uma filha perguntar aos pais se eles leram o livro dela. Por que você que não fez essa pergunta?
Na nossa cultura, falar publicamente da vida privada é algo arriscado e inapropriado. Meu livro fala da vida privada, e eu sei que meus pais não se sentem confortáveis com isso. Por isso eu evito a discussão.

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