Em
Notas sobre um Escândalo (Notes on a Scandal, Inglaterra,
2006), desde sexta-feira em cartaz no país, Judi Dench subtrai todos os
aspectos ligeiros e espirituosos que habitualmente imprime às suas personagens
para interpretar Barbara Covett, professora de uma escola pública de Londres,
solteirona, reprimida e intolerante e também uma homossexual enrustida,
com a cabeça cheia de fantasias românticas. Barbara escreve um diário
no qual destila, todas as noites, observações crudelíssimas
sobre os colegas de trabalho. Inclusive sobre Sheba (Cate Blanchett), a sílfide
loira e meio riponga que começa a dar aulas de arte na mesma escola. Barbara
escarnece das boas intenções da novata (ela é do tipo que
trabalha não porque precise, mas porque quer "fazer alguma diferença"),
ri da maneira como homens que não têm a menor chance tentam se aproximar
dela e se diverte com a falta de autoridade da moça perante os estudantes.
Até o dia em que Sheba dá atenção a ela. Aí
a paixão é fulminante mas nem de longe correspondida. De
tanto andar nos calcanhares de Sheba, Barbara descobre que ela está tendo
um caso com um aluno. E, depois de uma breve confrontação, na qual
se dá conta da confusão da amiga ("ele vai fazer 16 anos em maio",
e "é muito maduro", diz ela), Barbara enxerga a sua grande oportunidade:
enquanto posar de confidente de Sheba e de sua grande aliada no propósito
de evitar que o escândalo estoure, terá franqueado o acesso ao seu
objeto de desejo. E aí, imagina, como uma adolescente sonhando com o príncipe
encantado, terá Sheba inteira para si.
Notas
sobre um Escândalo é adaptado de um romance de sucesso da inglesa
Zoë Heller e muito bem adaptado, pelo veterano diretor de teatro e
televisão Richard Eyre e pelo roteirista Patrick Marber (indicado ao Oscar,
juntamente com a música de Philip Glass e os desempenhos de Judi e Cate).
A dupla não apenas muda o desfecho, tornando-o ainda mais venenoso, como
descarta todas as subtramas. O que interessa a eles é apenas o essencial:
as relações predatórias protagonizadas por Sheba e por Barbara,
que diretor e roteirista tratam num admirável ritmo de suspense e em 92
minutos de economia exemplar. Como em todo drama inglês, esta é primeiro
uma história de classes sociais e de aspirações sepultadas.
E, no momento em que atinge seu ponto crítico, passa a ser também
uma demonstração de uma característica a franqueza
que, praticada à moda britânica, deixa no chinelo as contrapartidas
de outras nacionalidades. Mais importante, porém, é o que Notas
mais uma vez confirma: para atrizes dispostas a tudo, nunca há de faltar
trabalho. Bom trabalho.