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28 de fevereiro de 2007
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Música
O pó-de-arroz chegou lá

Blur, Gorillaz, The Good, the Bad & the Queen:
com seus três grupos, Damon Albarn
se candidata a ser um gênio do pop


Sérgio Martins

Damon Albarn é um gênio do pop? A julgar somente pelos anos 90, a resposta é não. Na movimentada história do rock inglês daquela década, ele e sua banda, o Blur, figuram para sempre como vices: foram derrotados pelo Oasis na disputa pelo primeiro posto em influência e popularidade. Nos últimos anos, contudo, Albarn conduziu sua carreira de maneira surpreendente – e muito bem-sucedida. Em vez de mergulhar no limbo como os outros integrantes do Blur (que está inativo, embora não oficialmente extinto), o cantor e compositor inglês de 38 anos encabeçou dois projetos arrojados. O primeiro, o Gorillaz, foi uma das idéias mais inusitadas da música pop em muito tempo. Transformados em personagens de animação, os integrantes do Gorillaz não mostram a cara. Com uma mistura de hip hop e rock, os dois discos da banda virtual venderam 12 milhões de cópias ao redor do mundo – algo que o Blur jamais fez. O segundo projeto é o The Good, the Bad & the Queen, cujo primeiro CD chega ao Brasil nesta semana. Trata-se de uma "superbanda", ou seja, um grupo que reúne músicos consagrados por outros trabalhos. Quem toca baixo é Paul Simonon, lendário integrante do The Clash. Na guitarra e na bateria encontram-se Simon Tong e Tony Allen, considerados grandes nomes de seus instrumentos. A produção é de Danger Mouse, mentor do grupo Gnarls Barkley e co-autor de Crazy, uma das canções mais tocadas de 2006. Mas, embora todos esses senhores tenham currículo respeitável, é mesmo Albarn quem comanda o espetáculo.

No auge do Blur, Albarn nunca despertou o tipo de frisson causado por seus rivais do Oasis, os irmãos Gallagher. Em parte, isso se deve à obsessão dos ingleses com questões de classe social. Filho de pais ricos e boêmios e aluno de escolas caras, ele era visto com desconfiança pelos roqueiros do mundo operário. Torcer para o time de futebol Chelsea (o que, no Brasil, equivaleria a ser "pó-de-arroz") e compor letras como Girls & Boys, uma espécie de hino à androginia, não melhorou seu cacife. Talvez falte a Albarn aquele tipo de carisma que transforma roqueiros em ídolos. Não deve ser à toa que suas vendagens mais expressivas tenham se dado sob o disfarce de 2D, o vocalista do Gorillaz. O que certamente não lhe faltam são qualidades para se reinventar.

Desde que deixou o Blur em segundo plano, Albarn investe em parcerias e elabora novos contextos nos quais projeta sua imagem e leva sua carreira adiante. Depois de criar um "avatar" e explorar o hip hop no Gorillaz, ele se dedicou a pesquisas e lançou Mali Music, um álbum com músicos africanos. Em The Good, the Bad & the Queen, ele ganha aura como líder de um grupo de virtuoses. Nas entrevistas de divulgação de The Good, the Bad & the Queen, Albarn disse que o disco presta homenagem a dois clássicos do pop inglês: Specials (1979), da banda homônima de ska, e Combat Rock (1982), do The Clash. Uma mistura de reggae, música africana e pop foi explorada nesses dois trabalhos e de fato se reflete nas canções compostas por Albarn. Outra referência inescapável é Parklife (1994), o melhor disco do Blur. Mas The Good, the Bad & the Queen também aponta para a frente. Ele traz novidades rítmicas, num passeio entre o pop inglês, o jazz, o hip hop americano e as batidas africanas. E, com isso, a idéia já não soa exagerada. Damon Albarn – quem diria – talvez tenha algo de genial.

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