Blur, Gorillaz, The
Good, the Bad & the Queen: com seus três grupos, Damon Albarn
se candidata a ser um gênio do pop
Sérgio
Martins
Damon Albarn é um gênio do
pop? A julgar somente pelos anos 90, a resposta é não. Na movimentada
história do rock inglês daquela década, ele e sua banda, o
Blur, figuram para sempre como vices: foram derrotados pelo Oasis na disputa pelo
primeiro posto em influência e popularidade. Nos últimos anos, contudo,
Albarn conduziu sua carreira de maneira surpreendente e muito bem-sucedida.
Em vez de mergulhar no limbo como os outros integrantes do Blur (que está
inativo, embora não oficialmente extinto), o cantor e compositor inglês
de 38 anos encabeçou dois projetos arrojados. O primeiro, o Gorillaz, foi
uma das idéias mais inusitadas da música pop em muito tempo. Transformados
em personagens de animação, os integrantes do Gorillaz não
mostram a cara. Com uma mistura de hip hop e rock, os dois discos da banda virtual
venderam 12 milhões de cópias ao redor do mundo algo que
o Blur jamais fez. O segundo projeto é o The Good, the Bad & the Queen,
cujo primeiro CD chega ao Brasil nesta semana. Trata-se de uma "superbanda", ou
seja, um grupo que reúne músicos consagrados por outros trabalhos.
Quem toca baixo é Paul Simonon, lendário integrante do The Clash.
Na guitarra e na bateria encontram-se Simon Tong e Tony Allen, considerados grandes
nomes de seus instrumentos. A produção é de Danger Mouse,
mentor do grupo Gnarls Barkley e co-autor de Crazy, uma das canções
mais tocadas de 2006. Mas, embora todos esses senhores tenham currículo
respeitável, é mesmo Albarn quem comanda o espetáculo.
No auge do Blur, Albarn nunca despertou o tipo de frisson causado por seus rivais
do Oasis, os irmãos Gallagher. Em parte, isso se deve à obsessão
dos ingleses com questões de classe social. Filho de pais ricos e boêmios
e aluno de escolas caras, ele era visto com desconfiança pelos roqueiros
do mundo operário. Torcer para o time de futebol Chelsea (o que, no Brasil,
equivaleria a ser "pó-de-arroz") e compor letras como Girls & Boys,
uma espécie de hino à androginia, não melhorou seu cacife.
Talvez falte a Albarn aquele tipo de carisma que transforma roqueiros em ídolos.
Não deve ser à toa que suas vendagens mais expressivas tenham se
dado sob o disfarce de 2D, o vocalista do Gorillaz. O que certamente não
lhe faltam são qualidades para se reinventar.
Desde que deixou o Blur em segundo plano, Albarn investe em parcerias e elabora
novos contextos nos quais projeta sua imagem e leva sua carreira adiante. Depois
de criar um "avatar" e explorar o hip hop no Gorillaz, ele se dedicou a pesquisas
e lançou Mali Music, um álbum com músicos africanos.
Em The Good, the Bad & the Queen, ele ganha aura como líder de um grupo
de virtuoses. Nas entrevistas de divulgação de The Good, the
Bad & the Queen, Albarn disse que o disco presta homenagem a dois clássicos
do pop inglês: Specials (1979), da banda homônima de ska, e
Combat Rock (1982), do The Clash. Uma mistura de reggae, música
africana e pop foi explorada nesses dois trabalhos e de fato se reflete nas canções
compostas por Albarn. Outra referência inescapável é Parklife
(1994), o melhor disco do Blur. Mas The Good, the Bad & the Queen também
aponta para a frente. Ele traz novidades rítmicas, num passeio entre o
pop inglês, o jazz, o hip hop americano e as batidas africanas. E, com isso,
a idéia já não soa exagerada. Damon Albarn quem diria
talvez tenha algo de genial.