As
princesinhas estão por toda parte. De coroa dourada e saias coloridas,
elas vão à escola, ao playground e ao dentista. "Quando descem para
brincar no prédio, todas as meninas vão com roupa de princesa",
diz a carioca Fernanda de Oliveira e Silva, advogada de 34 anos e mãe de
Bruna. Em fevereiro, sua filha comemorou o aniversário de 3 anos com um
vestido feito sob medida. O tema escolhido da festa foi Barbie em As 12 Princesas
Bailarinas, nome de um desenho animado. No bufê infantil Espaço Encantado,
na Barra da Tijuca, onde foi comemorado o aniversário, seis de cada dez
festas têm as princesas como tema.
A moda princesinha cresce sem parar desde 2001, quando o americano Andy Mooney,
o chefe da divisão de produtos de consumo da Disney, notou meninas vestidas
de princesa na platéia de um espetáculo de patinação
no gelo. Mooney percebeu que havia um público potencial para personagens
de contos de fadas e lançou um pacote com oito bonecas de princesas (custam,
em média, 75 reais). "O gosto pelas princesas é inerente às
meninas", disse Mooney a VEJA. "Elas adoram os finais felizes e pensam que são
princesas de verdade." As bonequinhas venderam como mágica. A Disney, que
licencia a marca para 25.000 itens, multiplicou por dez o faturamento com o produto.
No ano passado, foram 3 bilhões de dólares. A Mattel embarcou na
onda também em 2001 e desde então lança a cada ano um filme
em que a boneca Barbie "interpreta" uma princesa. No ano passado, Barbie em
As 12 Princesas Bailarinas serviu para colocar uma dúzia de modelos
diferentes nas lojas. O apelo das princesas decorre de serem brinquedos com conteúdo.
Mais do que bonecas bonitinhas, elas fazem parte de uma história tradicional
ou vista em DVD. "Elas dão às meninas a oportunidade de vivenciar
as narrativas que elas já conhecem", diz Isabel Patrão, gerente
de marketing de meninas da Mattel, fabricante da Barbie.
O fascínio é compartilhado pelas mães. "Eu gostava muito
das princesas quando era criança, mas não havia todas essas coisas
para comprar", diz a empresária paulista Susana Koln, 32 anos, mãe
de Helena, 1 ano, e Sofia, 3. Em sua casa há castelos, barracas, pratos,
toalhas de banho, mamadeiras, telefone e um aparelho de DVD com as princesas estampadas.
A família está agora na Disney World, nos Estados Unidos, para que
as meninas possam conhecer as princesas ao vivo. No consultório de Andrea
Goldmann, odontopediatra de São Paulo, garotas sentam-se na cadeira de
dentista vestidas a caráter e escolhem a fantasia da dentista, que tem
seis vestidos de princesa no armário. O tratamento começa quando
a paciente agita uma varinha de condão. "As meninas ficam encantadas e
esquecem que estão no consultório", diz Andrea.
Daniel
Arataney
A
dentista Andrea, com sua paciente, a Branca de Neve: varinha de condão
Algumas feministas
americanas, naturalmente preocupam-se com conceitos retrógrados
que possam ser transmitidos pelas bonequinhas. Branca de Neve, em especial, surgiu
num desenho animado de 1937. O modelo feminino da época era o da menina
prendada, sem grandes iniciativas e cujo principal atributo era a beleza. As meninas
deveriam ser guardadas em casa até ser escolhidas por um príncipe
encantado. Preocupam-se à toa. No pacote Disney há princesas para
todos os gostos e temperamentos. Branca de Neve, Aurora (Bela Adormecida), Cinderela
são do tipo tradicional, à espera do Príncipe Encantado.
Mas a chinesa Mulan se veste de homem para ir à guerra em defesa do reino
e a sereia Ariel tem comportamento independente, tipicamente moderno.
O modismo das princesas se deve, de certa forma, a sua conexão com valores
e sentimentos que as mulheres já trazem consigo. "O romantismo e a vaidade
são valores femininos, que independem da época ou do lugar em que
a mulher vive", diz a psicóloga Sara Kislanov, da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro. A fase princesa começa por volta dos
3 anos. Nessa idade, a criança fica encantada pelo mundo mágico,
embora já saiba distinguir a realidade da ficção. "As meninas
não se perguntam sobre o que é ser princesa ou acreditam que, se
brincarem tantas vezes disso, se tornarão uma", diz a pedagoga Leni Vieira
Dornelles, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. "O importante
é terem a possibilidade de brincar e interagir com amigos e com a magia
que só a brincadeira possui." A fase princesa mais intensa se prolonga
até os 6 ou 8 anos, quando os interesses da criança começam
a mudar. As princesas então se despedem junto com o Papai Noel e o coelho
da Páscoa.