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28 de fevereiro de 2007
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Educação

A lição do Piauí

A escola campeã no ranking do MEC segue uma cartilha
que deu certo em outros países: investe nos professores


Monica Weinberg e Marcos Todeschini

 
Luis Mota


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Fica no Piauí a melhor escola de ensino médio do Brasil, de acordo com o recém-divulgado resultado do Enem – exame aplicado a 2,7 milhões de estudantes pelo Ministério da Educação (MEC). De 21.000 escolas públicas e privadas avaliadas no Brasil inteiro, o Instituto Dom Barreto, uma particular da capital, Teresina, destacou-se como exemplo de excelência. A campeã de Teresina surpreendeu os especialistas por duas razões. Em primeiro lugar, por ter sido revelada num estado paupérrimo, cujas escolas – públicas e particulares – costumam ficar entre as piores do Brasil nesse tipo de exame. No Enem, enquanto os piauienses patinaram numa nota ainda mais baixa do que a brasileira – 38,7 em 100, contra uma média nacional de 42,5 –, o Instituto Dom Barreto sobressaiu com a nota 74. Em segundo lugar, o que chamou atenção nessa escola foi o fato de ela ter reproduzido com sucesso no Piauí idéias que provaram ser eficientes em países onde a educação funciona, como Finlândia e Coréia do Sul. Diz a especialista Maria Inês Fini: "O problema no Brasil é que as escolas estão atrás de algo que não existe: uma fórmula mágica para o bom ensino". Não tem dado certo, como comprovou o Enem.

O bom desempenho do Instituto Dom Barreto deve-se, em boa parte, ao investimento na formação e atualização dos professores. Eles não lecionam sem antes assistir a aulas com os próprios autores dos livros didáticos, contratados pela escola para ensiná-los a fazer o melhor uso do material. São obrigados também a reservar uma hora do dia à confecção de um detalhado roteiro para a aula. Uma visita ao Dom Barreto revela um fato ainda mais incomum: longe das lamúrias típicas da classe, os professores de lá se declaram satisfeitos – 80% estão na escola há mais de uma década. Outro termômetro do contentamento geral vem de relatos como o da coordenadora Terezinha Ferreira, 42 anos, há dezoito no colégio. Ela conta que teve duas especializações e um mestrado patrocinados pela escola. Detalhe: ao longo de quatro anos, sua carga horária foi suavizada para que conseguisse dar conta dos cursos. "Eu relatava essa história a colegas de outras escolas e eles achavam que eu estava mentindo", lembra Terezinha. Os professores do Dom Barreto também concorrem a um prêmio anual, dado ao melhor profissional em sala de aula, com base nas notas dos alunos. O campeão deste ano receberá uma viagem à Europa. Ao contrário do que ocorre na maioria das escolas do país, o mérito é reconhecido – e estimulado. Os maus resultados, por sua vez, ficam em evidência.

 
RJ

A número 1 no Enem reforça, portanto, a eficácia de um tripé consagrado pela experiência internacional: combina metas curriculares bem estabelecidas, professores preparados para executá-las e um sistema desenhado para cobrar resultados. Não espanta pela originalidade, mas, sim, pelo pragmatismo – uma qualidade ainda distante das escolas brasileiras. A aplicação disciplinada de fórmula semelhante também ajuda a esclarecer o sucesso das escolas técnicas federais no ranking oficial. Na lista das 100 melhores na prova do MEC, treze se enquadram nessa categoria, entre elas a Escola Politécnica Joaquim Venâncio. Além do currículo básico, elas preparam os estudantes para exercer um ofício de nível médio. São uma espécie de elite na rede pública: com mais dinheiro, atraem os melhores alunos e professores. Resume o especialista Claudio de Moura Castro: "Elas estão voltadas para os resultados – não têm espaço para conversa fiada nem discurso ideológico". Em comum, os estudantes das escolas técnicas federais e da campeã Dom Barreto permanecem oito horas em sala de aula – o dobro da média nacional (no caso do Piauí, paga-se mensalidade de 500 reais pelo pacote, até um terço do que cobram as melhores escolas de São Paulo). É no período extra que os alunos assistem a aulas de xadrez, grego antigo e geografia do Piauí, descritas com entusiasmo pelos alunos. Esticar a jornada de estudos contribuiu nas últimas décadas para a melhoria do ensino nos países desenvolvidos. O Enem indica que pode funcionar também no Brasil.

As escolas de sucesso na prova do MEC são exceção num universo marcado por maus exemplos. Num patamar que se situa entre o "ruim" e o "péssimo", aparecem instituições como o Colégio de Vila Gustavo, na periferia da capital paulista – a última colocada entre as particulares urbanas do estado de São Paulo, com média 30,62 numa escala de 0 a 100. Sim, a melhor escola brasileira está no Piauí, um dos estados mais pobres do país, e uma das piores localiza-se em São Paulo, o mais rico. A diferença entre elas, no entanto, é muito maior. No Colégio de Vila Gustavo, as salas vivem vazias – professores e alunos têm o hábito de matar aula. O geógrafo Carlos Ribeiro, há um ano diretor da escola, reconhece o desânimo geral, problema que ele atribui às aulas, "monótonas" e baseadas na "decoreba". "É uma vergonha", admite Ribeiro. Outras comparações entre a escola de Teresina e a da periferia de São Paulo ajudam a jogar luz sobre o abismo que as separa. Enquanto no Dom Barreto os professores utilizam uma lousa eletrônica para apresentar aos alunos formas geométricas, no Vila Gustavo o laboratório de computação está desativado. A escola do Piauí possui a maior biblioteca do estado. Na escola de São Paulo, os livros ficavam alojados, até pouco tempo atrás, num porão que espantava as pessoas por ser escuro e malcheiroso – agora estão encaixotados à espera de uma nova biblioteca. No Piauí, exige-se dos estudantes a leitura de vinte livros por ano. Em São Paulo, os alunos é que escolhem se lêem – ou não. E é claro que a maioria não lê nada.

 
Gabriel De Paiva/Ag. Globo

Da experiência do Instituto Dom Barreto depreende-se ainda a importância de um diretor que, além de assumir as tarefas administrativas, esteja engajado na vida acadêmica. O matemático Marcílio Rangel de Farias – que em 1983 assumiu o comando da escola, de propriedade de uma ordem de freiras holandesas, e a dirigiu até a sua morte, no ano passado – nunca pegou um avião para ir à Coréia do Sul ou à Finlândia, mas tinha os livros sobre a experiência desses países como uma espécie de bíblia. As três irmãs de Rangel, que o sucederam na direção, continuam a acompanhar tudo o que se passa na rotina escolar. Professores que costumam esticar o expediente contam que é comum vê-las debruçadas sobre os boletins dos 2.400 estudantes (do ensino infantil ao médio) que freqüentam a escola. Diante de notas baixas, as irmãs Rangel convocam professores e alunos para diagnosticar o problema – e traçar metas para sua solução.

Com o relatório do Enem nas mãos, as diretoras do Instituto Dom Barreto ficariam apavoradas. Criado em 1998 para medir o nível dos estudantes ao final do ciclo escolar, o exame do MEC revelou que, além de sofrível, a qualidade do ensino ainda experimenta uma trajetória de queda desde 2002. A prova, que testa a capacidade do aluno de aplicar o saber teórico a situações práticas, mostrou que os estudantes brasileiros estão a léguas de distância disso: enquanto 98% dos alunos da escola campeã do Piauí conseguem vaga nas melhores universidades do país, quase metade dos jovens no Brasil ainda empaca na leitura de um texto simples. Diz o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza: "A educação brasileira só vai deixar de ficar em último lugar quando for implantado no país um sistema que premie as melhores escolas e penalize as que oferecem ensino de terceira linha". Por enquanto, o Enem serve apenas para revelar exemplos solitários de sucesso, como o Instituto Dom Barreto – e dar a dimensão do desastre nacional.

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