A
ciência fez notáveis avanços no conhecimento do cérebro
na última década, principalmente devido ao uso da tomografia computadorizada
e da ressonância magnética. Hoje já se sabe onde nascem as
emoções e a memória. Descobriram-se as regiões onde
se processam o aprendizado e o prazer. As grandes questões relativas ao
cérebro, porém, continuam sem resposta. Como se produz a consciência?
De que forma surge o raciocínio? Um grupo de 35 pesquisadores da Universidade
de Lausanne, na Suíça, desenvolve atualmente um projeto destinado
a elucidar esses enigmas. Com a ajuda de um dos computadores mais potentes do
mundo, capaz de realizar 23 trilhões de cálculos por segundo, a
equipe dedica-se a construir uma réplica digital do cérebro humano.
A máquina será capaz de reproduzir de forma artificial os mecanismos
cerebrais da inteligência. Para isso, será preciso simular a ação
dos 100 bilhões de neurônios cerebrais. Os cientistas, liderados
pelo biólogo sul-africano Henry Markram, esperam completar a tarefa em
duas décadas. No fim do ano passado, o grupo comemorou a conclusão
da primeira etapa do projeto, na qual se chegou à cifra de 10.000 neurônios
digitais interagindo no supercomputador.
Os 10.000 neurônios digitais já estocados pelo projeto correspondem
a uma coluna neocortical, emaranhado de células do tamanho de uma cabeça
de alfinete que existe no cérebro de todos os mamíferos. Um milhão
dessas estruturas formam o neocórtex cerebral humano. A escolha dessa porção
do cérebro para a pesquisa não foi aleatória. As colunas
neocorticais estão envolvidas em vários processos fisiológicos,
entre eles a visão, a audição, o raciocínio abstrato
e a criatividade. "São cérebros em miniatura", define Markram. Para
a montagem da coluna neocortical digital, os cientistas usaram cérebros
de ratos. Os impulsos elétricos dos neurônios dos roedores são
enviados através de sensores ao supercomputador, que os replica em forma
digital. O cérebro artificial de Lausanne já simula a troca de sinais
elétricos, mas não a complexa interação química
entre os neurônios. Segundo os pesquisadores, isso será feito mais
à frente.
Para tocarem
o projeto, os cientistas apostam no desenvolvimento de chips cada vez mais possantes.
Hoje, o supercomputador usado no projeto tem o tamanho de quatro geladeiras colocadas
lado a lado. Com a tecnologia atualmente disponível, para digitalizar os
100 bilhões de neurônios do cérebro seria preciso um computador
do tamanho de quatro estádios do Maracanã. O desenvolvimento de
máquinas que reproduzam a inteligência, capazes de raciocinar por
si próprias, é um antigo sonho do ser humano e também
um de seus pesadelos recorrentes. Quando a ficção científica
trata da inteligência artificial, quase sempre ela se volta contra os humanos
que a criaram na forma de robôs insubordinados como no filme Eu,
Robô, do diretor Alex Proyas ou de computadores rebeldes, caso
de HAL 9000 no clássico 2001 Uma Odisséia no Espaço.
A psicologia explica que essa vilania atribuída pelo homem às máquinas
que pensam é resultado do temor inconsciente de que um dia elas o substituam.
Os cientistas de Lausanne, aparentemente, não sofrem dessa síndrome.