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Edição 1997

28 de fevereiro de 2007
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Ciência
Em busca da inteligência artificial

A construção de um cérebro digital promete elucidar os
mistérios que envolvem a consciência e o raciocínio


Leoleli Camargo

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Nesta reportagem
As conexões do raciocínio

A ciência fez notáveis avanços no conhecimento do cérebro na última década, principalmente devido ao uso da tomografia computadorizada e da ressonância magnética. Hoje já se sabe onde nascem as emoções e a memória. Descobriram-se as regiões onde se processam o aprendizado e o prazer. As grandes questões relativas ao cérebro, porém, continuam sem resposta. Como se produz a consciência? De que forma surge o raciocínio? Um grupo de 35 pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, desenvolve atualmente um projeto destinado a elucidar esses enigmas. Com a ajuda de um dos computadores mais potentes do mundo, capaz de realizar 23 trilhões de cálculos por segundo, a equipe dedica-se a construir uma réplica digital do cérebro humano. A máquina será capaz de reproduzir de forma artificial os mecanismos cerebrais da inteligência. Para isso, será preciso simular a ação dos 100 bilhões de neurônios cerebrais. Os cientistas, liderados pelo biólogo sul-africano Henry Markram, esperam completar a tarefa em duas décadas. No fim do ano passado, o grupo comemorou a conclusão da primeira etapa do projeto, na qual se chegou à cifra de 10.000 neurônios digitais interagindo no supercomputador.

Os 10.000 neurônios digitais já estocados pelo projeto correspondem a uma coluna neocortical, emaranhado de células do tamanho de uma cabeça de alfinete que existe no cérebro de todos os mamíferos. Um milhão dessas estruturas formam o neocórtex cerebral humano. A escolha dessa porção do cérebro para a pesquisa não foi aleatória. As colunas neocorticais estão envolvidas em vários processos fisiológicos, entre eles a visão, a audição, o raciocínio abstrato e a criatividade. "São cérebros em miniatura", define Markram. Para a montagem da coluna neocortical digital, os cientistas usaram cérebros de ratos. Os impulsos elétricos dos neurônios dos roedores são enviados através de sensores ao supercomputador, que os replica em forma digital. O cérebro artificial de Lausanne já simula a troca de sinais elétricos, mas não a complexa interação química entre os neurônios. Segundo os pesquisadores, isso será feito mais à frente.

Para tocarem o projeto, os cientistas apostam no desenvolvimento de chips cada vez mais possantes. Hoje, o supercomputador usado no projeto tem o tamanho de quatro geladeiras colocadas lado a lado. Com a tecnologia atualmente disponível, para digitalizar os 100 bilhões de neurônios do cérebro seria preciso um computador do tamanho de quatro estádios do Maracanã. O desenvolvimento de máquinas que reproduzam a inteligência, capazes de raciocinar por si próprias, é um antigo sonho do ser humano – e também um de seus pesadelos recorrentes. Quando a ficção científica trata da inteligência artificial, quase sempre ela se volta contra os humanos que a criaram na forma de robôs insubordinados – como no filme Eu, Robô, do diretor Alex Proyas – ou de computadores rebeldes, caso de HAL 9000 no clássico 2001 – Uma Odisséia no Espaço. A psicologia explica que essa vilania atribuída pelo homem às máquinas que pensam é resultado do temor inconsciente de que um dia elas o substituam. Os cientistas de Lausanne, aparentemente, não sofrem dessa síndrome.

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