Não
se passa uma semana sem que surjam evidências dos efeitos desastrosos do
aquecimento global no planeta. Caso não se diminuam as emissões
de gases tóxicos que aumentam o efeito estufa, dizem as previsões,
as catástrofes se tornarão cada vez mais freqüentes e devastadoras.
Agora, pela primeira vez, será possível saber qual será o
impacto específico do aquecimento global nas diversas regiões do
Brasil. Nesta terça-feira, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe) vão apresentar as previsões climáticas para
o país até 2100, resultado de um estudo bancado pelos governos brasileiro
e inglês. As notícias não são alvissareiras. Ao longo
do século, a temperatura média no país poderá aumentar
até 4 graus, com efeitos desastrosos para a agricultura, a pecuária
e a biodiversidade de várias regiões. No caso da Amazônia,
onde vivem e se reproduzem mais de metade das espécies biológicas
do planeta, as previsões são particularmente sombrias. O aumento
da temperatura pode chegar a 8 graus, transformando nacos da floresta tropical
em cerrado. Dezenas de espécies podem desaparecer no Pantanal Mato-Grossense.
O aumento no nível do Oceano Atlântico pode destruir construções
à beira-mar no Rio de Janeiro, no Recife e em Salvador.
O relatório sobre o clima brasileiro oferece dois tipos de cenário
para o futuro, um mais pessimista e outro menos pessimista. No primeiro cenário,
considera-se que a atividade humana no planeta continuará a lançar
quantidades crescentes de dióxido de carbono (CO2)
na atmosfera, agravando o aquecimento global. O segundo leva em conta que o esforço
conjunto dos países para diminuir as emissões de CO2
nas próximas décadas seja bem-sucedido. Em ambos os cenários,
as conseqüências provocadas pelo efeito estufa no Brasil serão
as mesmas, o que muda é a intensidade com que os desastres se abaterão
sobre o país. Para elaborar o relatório, os pesquisadores usaram
uma metodologia semelhante à do Painel Intergovernamental de Mudança
Climática (IPCC) das Nações Unidas, divulgado há um
mês, recheado de previsões pessimistas em escala global. Programas
de computador transformam os fenômenos naturais em equações
matemáticas, avaliando dados como variações de temperatura,
ventos e regime de chuvas. Cruzando-se as equações, é possível
antecipar como o clima de uma região se comportará no futuro. Esse
modelo de pesquisa permite também que se anteveja como as transformações
numa região podem afetar outra. Se o aquecimento da Amazônia se confirmar,
por exemplo, o calor provocará períodos de estiagem no sudeste e
no sul do país.
Ao
cruzar as equações climáticas, o estudo do Inpe mostra que
o aquecimento da atmosfera afetará o nível de açudes e rios,
o que pode comprometer a produção de energia e as obras de infra-estrutura.
A transposição das águas do Rio São Francisco, por
exemplo, uma das bandeiras do governo Lula, pode ficar comprometida em poucas
décadas. "Fazer uma obra desse tipo sem considerar as futuras mudanças
climáticas é perigoso, pois parte da água pode desaparecer
com o aumento da temperatura e com a redução das chuvas", diz José
Antonio Marengo, pesquisador do Inpe e coordenador do estudo. As previsões
do relatório contemplam também o impacto do aquecimento global na
saúde da população brasileira. Num país mais quente,
insetos que transmitem doenças encontram um ambiente mais favorável
para a sua reprodução. Por isso, aposta-se que as alterações
climáticas aumentem o risco de incidência de malária, dengue
e febre amarela. A redução das chuvas e uma atmosfera mais quente
e seca provocarão mais incêndios em florestas da Amazônia e
do cerrado, o que aumentará a ocorrência de doenças respiratórias
provocadas pela fumaça. Diante desse quadro, o que podem os brasileiros
fazer? Individualmente, muito pouco. Apenas exigir que o governo se preocupe com
o assunto e procure soluções para amenizar os efeitos do aquecimento
global no país.