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28 de fevereiro de 2007
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Ambiente
Como o calor vai afetar o Brasil

Estudo inédito prevê o impacto do aquecimento
global no país até o fim deste século


Leoleli Camargo

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Em Profundidade: Aquecimento Global

Não se passa uma semana sem que surjam evidências dos efeitos desastrosos do aquecimento global no planeta. Caso não se diminuam as emissões de gases tóxicos que aumentam o efeito estufa, dizem as previsões, as catástrofes se tornarão cada vez mais freqüentes e devastadoras. Agora, pela primeira vez, será possível saber qual será o impacto específico do aquecimento global nas diversas regiões do Brasil. Nesta terça-feira, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) vão apresentar as previsões climáticas para o país até 2100, resultado de um estudo bancado pelos governos brasileiro e inglês. As notícias não são alvissareiras. Ao longo do século, a temperatura média no país poderá aumentar até 4 graus, com efeitos desastrosos para a agricultura, a pecuária e a biodiversidade de várias regiões. No caso da Amazônia, onde vivem e se reproduzem mais de metade das espécies biológicas do planeta, as previsões são particularmente sombrias. O aumento da temperatura pode chegar a 8 graus, transformando nacos da floresta tropical em cerrado. Dezenas de espécies podem desaparecer no Pantanal Mato-Grossense. O aumento no nível do Oceano Atlântico pode destruir construções à beira-mar no Rio de Janeiro, no Recife e em Salvador.

O relatório sobre o clima brasileiro oferece dois tipos de cenário para o futuro, um mais pessimista e outro menos pessimista. No primeiro cenário, considera-se que a atividade humana no planeta continuará a lançar quantidades crescentes de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, agravando o aquecimento global. O segundo leva em conta que o esforço conjunto dos países para diminuir as emissões de CO2 nas próximas décadas seja bem-sucedido. Em ambos os cenários, as conseqüências provocadas pelo efeito estufa no Brasil serão as mesmas, o que muda é a intensidade com que os desastres se abaterão sobre o país. Para elaborar o relatório, os pesquisadores usaram uma metodologia semelhante à do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC) das Nações Unidas, divulgado há um mês, recheado de previsões pessimistas em escala global. Programas de computador transformam os fenômenos naturais em equações matemáticas, avaliando dados como variações de temperatura, ventos e regime de chuvas. Cruzando-se as equações, é possível antecipar como o clima de uma região se comportará no futuro. Esse modelo de pesquisa permite também que se anteveja como as transformações numa região podem afetar outra. Se o aquecimento da Amazônia se confirmar, por exemplo, o calor provocará períodos de estiagem no sudeste e no sul do país.

Ao cruzar as equações climáticas, o estudo do Inpe mostra que o aquecimento da atmosfera afetará o nível de açudes e rios, o que pode comprometer a produção de energia e as obras de infra-estrutura. A transposição das águas do Rio São Francisco, por exemplo, uma das bandeiras do governo Lula, pode ficar comprometida em poucas décadas. "Fazer uma obra desse tipo sem considerar as futuras mudanças climáticas é perigoso, pois parte da água pode desaparecer com o aumento da temperatura e com a redução das chuvas", diz José Antonio Marengo, pesquisador do Inpe e coordenador do estudo. As previsões do relatório contemplam também o impacto do aquecimento global na saúde da população brasileira. Num país mais quente, insetos que transmitem doenças encontram um ambiente mais favorável para a sua reprodução. Por isso, aposta-se que as alterações climáticas aumentem o risco de incidência de malária, dengue e febre amarela. A redução das chuvas e uma atmosfera mais quente e seca provocarão mais incêndios em florestas da Amazônia e do cerrado, o que aumentará a ocorrência de doenças respiratórias provocadas pela fumaça. Diante desse quadro, o que podem os brasileiros fazer? Individualmente, muito pouco. Apenas exigir que o governo se preocupe com o assunto e procure soluções para amenizar os efeitos do aquecimento global no país.

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