O japonês Hiroo Onoda é um homem obstinado. Há 32 anos,
quando chegou ao Brasil, queria tornar-se pecuarista mesmo sem entender nada do
assunto. Enriqueceu trabalhando até a madrugada. Hoje, quando passeia por
sua fazenda, a 70 quilômetros de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, o
que vê é um rebanho gordo, com 1.700 cabeças de gado. Mas
não é esse o principal exemplo de sua tenacidade. Antes de chegar
ao país, Onoda foi tenente do Exército japonês. Movido pela
certeza de que estava cumprindo o seu dever, lutou durante 29 anos nas selvas
de uma pequena ilha, sem nenhum descanso, e também sem suspeitar que a
guerra já havia acabado. Ele e sua reduzida guarnição mataram
trinta pessoas e feriram mais de 100, ação pela qual Onoda foi perdoado
pelo presidente das Filipinas em 1974, quando se rendeu. No jargão militar,
o ex-tenente é um holdout, termo usado para designar alguns poucos
militares japoneses que, alheios ao fim do conflito, continuaram lutando depois
da II Guerra até a última bala, ou enquanto sua espada estivesse
inteira.
Onoda, que se refugiou
no Brasil porque muitos conterrâneos na época o consideraram maluco,
não foi o holdout que permaneceu mais tempo em combate. Entretanto,
foi o que se tornou mais famoso e o único que ainda hoje colhe frutos de
sua experiência singular. Onoda já escreveu cinco livros sobre o
tema. O primeiro deles, Os Trinta Anos de Minha Guerra, teve uma pequena
tiragem no Brasil e foi traduzido para dezessete países. Além disso,
mantém no Japão a Fundação Onoda, que ensina jovens
estudantes a sobreviver na selva com recursos naturais e que espantosamente
consegue atrair turmas de até oitenta jovens por temporada. Também
profere anualmente uma média de cinqüenta palestras sobre sua experiência.
Cobra 50.000 ienes por palestra, algo em torno de 900 reais, o que não
é muito, mas, no conjunto, significa um extra de 45.000 reais por ano e
ajuda a propagar a sua história. Por causa dessa farta atividade, além
dos prósperos negócios em Mato Grosso do Sul, o ex-combatente construiu
uma casa de seis andares em Tóquio, algo incomum para os padrões
japoneses, e passa dois terços do ano por lá.
Fotos
Anderson Schneider
Passeio
a cavalo pela fazenda: 1 700 cabeças de gado no Brasil
Onoda
não tem porte típico de militar mede 1,59 metro e pesa 48
quilos. Prestes a completar 85 anos, traz no rosto um sorriso fácil e afável,
mas até hoje não aprendeu a falar português. Mal parece o
protagonista de uma das histórias mais dramáticas e inusitadas da
literatura militar. Em 1944, quando tinha 22 anos, foi enviado para sua primeira
missão na Ilha de Lubang, nas Filipinas. Tinha ordens de não se
render sob nenhum pretexto, e as levou a cabo. Mesmo depois que os americanos
tomaram a ilha, permaneceu combatendo escondido na mata. No ano seguinte, quando
a guerra terminou, aviões soltaram panfletos alertando os resistentes de
que deveriam cessar fogo. Treinado em atividades de espionagem e guerrilha, Onoda
não deu crédito ao recado concluiu tratar-se apenas de um
embuste do inimigo. Sem nenhum equipamento de rádio, nos anos seguintes
ele e outros três soldados levaram adiante diversas ações
de guerrilha e sabotagem. A ilha era então habitada por 5.000 filipinos,
que sentiram na pele cada manobra dos japoneses. "Defendemos uma faixa de terra
onde era mais fácil o nosso Exército entrar. Quem se aproximasse
levava tiro. Ficamos ali esperando reforços, que nunca apareceram", diz
Onoda.
Entrega
da espada ao presidente das Filipinas: em 1974, a rendição
Um de seus companheiros decidiu entregar-se poucos anos depois. Os outros dois
comparsas morreram em tiroteio com residentes locais. Sozinho, Onoda se esquivou
de qualquer novo golpe do "inimigo". Sinais externos sugeriam a ele que o conflito
permanecia. De tempos em tempos, nuvens de aviões americanos cruzavam o
céu, e, então, o tenente disparava seu rifle contra aeronaves a
caminho da Guerra da Coréia e, mais tarde, do Vietnã. Depois de
ser dado como morto na década de 60, foi descoberto por um jornalista japonês
em 1974. Apesar da insistência, não quis se render até que
um superior seu fosse levado à ilha para dar ordens de entregar as armas.
Onoda tinha então 52 anos, trazia ainda o uniforme completo e o velho rifle
funcionando. "Foram trinta anos sem nenhum motivo de alegria. Também não
havia tempo para ficar lamentando, o dia inteiro era preciso pensar na sobrevivência",
diz Onoda, que se alimentava de caça e bananas. Até hoje a causa
militar parece persegui-lo. Parte de suas terras em Mato Grosso do Sul é
usada para treinamento da Força Aérea Brasileira. Semanalmente,
helicópteros baixam em seus pastos para manobras diversas. Nada, é
claro, capaz de assustar Hiroo Onoda.