Artigo:
Reinaldo Azevedo O politeísmo de um Deus
só
"Os homens estavam
acostumados a se relacionar
com deuses, no plural. Foi a própria Igreja quem
estimulou esse caminho de mediação entre o homem
e a crença cristã por meio da 'santidade'. Ou
seja,
emprestou ao seu monoteísmo uma característica
politeísta, para angariar um maior número de
adeptos"
Os santos católicos
e coloquemos de lado, aqui, o que é matéria
de fé para nos atermos à conformação
das mentalidades religiosas exercem um papel semelhante
àquele desempenhado pelos deuses no paganismo clássico.
Há até mesmo um "Olimpo" católico, em
que vigora uma rígida hierarquia. Eles são produtos
e instrumentos de uma permanente adaptação do
cristianismo às culturas com as quais foi se relacionando
e disputando a hegemonia. Nesse processo, o catolicismo tentou
preservar um núcleo doutrinário que está
longe de ser plenamente compreendido sem o amparo de uma complexa
cultura filosófica. E nisso não se distingue
de nenhuma outra religião: todas elas tiveram e têm
seus sacerdotes e seus intérpretes.
A Igreja Católica conta
hoje com 33 Doutores, seus "deuses" maiores, todos eles santos,
que se tornaram notáveis graças a sua entrega
à vida religiosa e por sua produção doutrinária.
Destes, quatro ocupam um lugar especial: Santo Agostinho (354-430),
Santo Ambrósio (340-397), São Jerônimo
(347-420) e São Gregório Magno (540-604). Eu
reivindicaria um quinto: Santo Tomás de Aquino (1225-1274),
um gigante da teologia e da filosofia. Se um dia você
quiser ao menos uma explicação plausível,
inteligente, culta, que concilia a fé e a razão,
a crença e a ciência, leia o que for possível
ler da Suma Teológica, de Santo Tomás.
Esse catolicismo dos Doutores foi fundamental para consolidar
o aparelho da Igreja sem o qual não haveria
o resto , mas ele só conta parte da história.
As quatro "divindades" de primeira
grandeza, não por acaso, se dedicaram, de alguma forma,
a sustentar a existência da Santíssima Trindade,
manifestações distintas Pai, Filho e
Espírito Santo de um só Deus e feitas
da mesma substância. Observe: essa questão não
está posta nos Evangelhos. Jesus Cristo não
se atreveu a explicá-la. Ela foi adquirindo importância
capital na Igreja à medida que esta se expandia e se
confundia com o próprio poder secular, terreno
paralelamente ao qual, se bem se lembra, havia nascido: o
Messias não queria saber dos assuntos que eram de César;
o reino de seu Pai não era deste mundo.
Mas o da Igreja Católica
era. E sua teologia pode ser acusada de tudo, menos de ser
simples ou simplista. Tanto quanto um grego ou romano comuns
conheciam pouco da cosmogonia pagã, um cristão
do povo pouco entendia desse Deus a um só tempo tripartido
e uno, matéria de acalorados debates teológicos.
Ele não bastava para responder a todas as angústias
humanas. Observe que o monoteísmo havia encontrado
a sua tradução mais acabada o judaísmo
num povo minoritário e dominado. E nada ocupado
em seduzir outras culturas. Os homens estavam acostumados
a se relacionar com deuses, no plural. Foi a própria
Igreja, desde o seu primeiro mártir Santo Estêvão
, quem estimulou esse caminho da mediação
entre o homem e a crença cristã por meio da
"santidade". Ou seja, emprestou ao seu monoteísmo uma
característica politeísta, para angariar um
maior número de adeptos.
Cada dia no ano, por exemplo,
é dedicado a um santo e, às vezes, a
mais de um. Contam-se, pois, mais de 365 "divindades" que
servem de intermediárias entre a vontade de Deus e
os desejos dos homens. A exemplo de frei Galvão, são
inúmeros os casos em que o culto popular precede o
reconhecimento oficial da Igreja. Padre Cícero, por
exemplo, cuja intercessão miraculosa não é
reconhecida, tem, não obstante, seu culto tolerado.
Quando o aparelho resiste ao fato consumado, a população
erige seus próprios deuses. O sentido da santidade
é conferir um lugar especial aos cristãos que
viveram plenamente o Evangelho e, por essa razão, foram
distinguidos com a capacidade de operar um evento miraculoso,
antes só a Deus, em qualquer uma de suas formas, reservado.
Não foi, por exemplo,
a Igreja a fazer de São Judas Tadeu, um dos apóstolos,
o "Santo das causas difíceis" "impossíveis",
em algumas versões. Foram os fiéis. Nada em
sua biografia justifica o epíteto. Santo Antônio
é conhecido por dois cultos populares: o pão
distribuído pelos crentes aos pobres, e isso se explica
por sua vida dedicada à caridade, mas também
por ser o santo casamenteiro, o que se deve inteiramente à
tradição não teológica. Na iconografia
popular, Santa Luzia, que protege contra doenças oculares,
traz os olhos arrancados num prato. Uma das orações
a ela dedicadas refere-se ao episódio, provavelmente
falso.
A semelhança entre os
santos católicos e o politeísmo greco-romano
se dá em meio a diferenças nada desprezíveis.
Os deuses pagãos eram exemplos das virtudes do homem,
mas também de seus defeitos: mostravam-se egoístas,
ciumentos, violentos e injustos. Já os católicos
são encarnações da renúncia e
do sacrifício. Os pagãos expõem os limites
humanos; os católicos buscam ultrapassá-los.
Os primeiros decidem entre eles o destino dos mortais e fazem
valer a sua sentença; os outros são um exemplo
de retidão, um norte ético.
Falou-se aqui de semelhanças
e se evidenciam diferenças? Nos dois casos, visões
de mundo complexas tanto a pagã como a católica
encontram nessas "divindades" canais de expressão
para se comunicar com o homem comum e lhe fazer duas ofertas
sem as quais não existe uma religião: uma idéia
de totalidade ("o mundo é assim") e a superação
da morte. Aqui uma observação rápida:
"superar a morte" pode compreender tanto a promessa da imortalidade
da alma ou a vida eterna quanto a educação
para um fim decoroso, integrando-se a uma espécie de
cosmos universal.
Estudiosos que se dedicaram
a comparar religiões diversas encontram nelas elementos
comuns que a história sempre pode explicar. Quer um
exemplo corriqueiro? A luta essencial do homem, até
agora, se deu contra a ditadura da natureza, e é preciso
garantir o pão para que se tenha espírito. Toda
religião tem, por exemplo, alguma forma de celebrar
a colheita. Tanto quanto na natureza, no mundo da cultura
nada se perde. Tudo se transforma ou se transmuda.
Para o crente, só a revelação
interessa. Para quem vê nas religiões também
um elemento da cultura, elas constituem uma das teorias do
conhecimento. "Primus in orbe deos fecit timor": "Foi
o medo que primeiro fez os deuses", escreveu o poeta latino
Estácio (45-96). Ele não foi o único
antigo a duvidar das divindades e da imortalidade da alma.
A militância anti-religiosa é tão antiga
quanto a religião. O mais antigo erro que o pensamento
cético costuma cometer é justamente este: supor
que as religiões existem para explicar o que o homem
não pode compreender racionalmente.
As religiões seriam,
assim, uma construção negativa, entranhada na
ignorância, que tenderia a desaparecer, ou a resistir
como aberração, à medida que avançasse
o pensamento científico. O caso é bem outro.
Elas se ocupam do que na vida é corriqueiro, regular,
não dos eventos excepcionais. Quase todas elas, é
fato, são dotadas de alguma escatologia, do evento
finalista, que remete ao fim dos tempos. Mas isso costuma
ficar fora do culto cotidiano. Não serve para organizar
a vida.
Quando Bento XVI formalizar
a santidade de frei Galvão, o intérprete privilegiado
dos Doutores estará abrindo, de novo, as portas da
Igreja àquela humanidade intercessora que dá
vida à doutrina. Pode não provar a existência
de Deus, mas prova a existência da história.
E é ela que importa aqui. Os marxistas quiseram a religião
como "o ópio do povo", ao que lhes respondeu, ainda
que com outras palavras, o intelectual francês Raymond
Aron (1905-1983): "Certo, mas nenhuma outra doutrina criou
no homem, como o marxismo, tal ilusão da onipotência.
Por isso, ele é o ópio dos intelectuais". As
ambições de Deus são mais modestas...