Desde
o dia em que frei Antonio de Sant'anna Galvão morreu, em 1822, toda a Capitania
de São Paulo, onde ele viveu sessenta dos seus 83 anos de vida, sabia que
um santo havia surgido. Ao seu velório, no Mosteiro da Luz, compareceram
mais de 3.000 pessoas, num tempo em que a população da cidade não
passava de 25.000 habitantes. Fiéis recortaram-lhe pedaços da batina
e retiraram pequenas pedras de seu túmulo para mergulhá-las na água
que dariam aos doentes na esperança de que fossem curados. Em vida, diversos
milagres foram atribuídos ao religioso, que, com sua única batina,
costumava percorrer a pé os vilarejos do interior de São Paulo,
pregando para os pobres. Por onde ele passava, multidões acorriam. No próximo
dia 11 de maio, a santidade de frei Galvão, há quase 200 anos anunciada,
será oficialmente reconhecida. Em missa a ser celebrada pelo papa Bento
XVI no Campo de Marte, em São Paulo, o frade franciscano vai se tornar
o primeiro santo genuinamente brasileiro.
Já não era sem tempo. Com o maior número de católicos
do mundo, o Brasil até hoje não tinha um único santo nativo
nos altares. Madre Paulina, canonizada em 2002, embora tenha vivido a maior parte
de sua vida nos estados brasileiros de Santa Catarina e São Paulo, nasceu
na Itália. Frei Galvão nunca saiu do Brasil. Criado em uma família
rica e poderosa o pai foi capitão-mor de Guaratinguetá, no
interior de São Paulo , ele deixou a casa paterna aos 13 anos para
estudar com os jesuítas na Bahia. Aos 21, ingressou na Ordem dos Franciscanos,
no Rio de Janeiro. Ordenado sacerdote, veio para São Paulo. Com incomum
(naquele tempo) 1,90 metro de altura e forte compleição muscular,
o religioso era descrito como um homem excepcionalmente bonito. "Lendo as poucas
correspondências que ele deixou, é possível perceber também
que era terno e que tratava a todos com grande delicadeza", conta a freira Célia
Cadorin, da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.
A religiosa dedicou os últimos dezesseis anos à missão de
transformar frei Galvão em santo. Em 1991, ela foi nomeada pelo então
cardeal dom Paulo Evaristo Arns postuladora da causa do frade franciscano. Espécie
de advogado do candidato à santidade, o postulador tem papel fundamental
num processo de santificação. É a ele que cabe providenciar
documentos e testemunhos que, enviados a Roma, deverão provar que o candidato
preenche os dois principais requisitos exigidos pelo Vaticano para ser alçado
ao panteão dos santos católicos: ter levado uma vida virtuosa e
realizado, ao menos, dois milagres reconhecidos pela Igreja e pela ciência.
A tarefa de comprovar a realização de um milagre é a etapa
mais difícil de um processo de canonização.
ERG
MIRACULADA Sandra
de Almeida e seu filho Enzo, nascido depois de uma gestação difícil:
milagre reconhecido pela Igreja e pela ciência
No
início da era cristã, diante da perseguição religiosa
e da profusão de mártires, bastava a aclamação do
povo para que um morto fosse feito santo. Foi só no século XII que
as canonizações passaram a ter de ser proclamadas pelo papa. A exigência
de comprovação dos milagres, com o aval da ciência, só
surgiu no século XVI, depois do Concílio do Trento. Ao longo do
tempo, a Igreja foi tornando o processo mais e mais rigoroso. Hoje, um milagre
só pode ser considerado como tal depois de passar por uma minuciosa investigação
que inclui, além dos depoimentos de familiares e amigos do suposto beneficiário
da graça, estudos médicos e exames de nomes complicados, como uma
histerossalpingografia, por exemplo. Um exame como esse, que avalia a anatomia
de um útero por meio de contrastes radiológicos, fez parte do processo
de santificação de frei Galvão. Para selecionar os milagres
que seriam submetidos à apreciação do Vaticano, irmã
Célia analisou mais de 4.500 relatos de supostas graças enviados
por devotos do religioso.
Um dos casos que mais lhe chamaram a atenção foi o da paulista Sandra
Grossi de Almeida, hoje com 37 anos. Havia muito tempo, Sandra sonhava em ser
mãe, mas, por causa de uma má-formação do útero,
já havia sofrido dois abortos espontâneos, um deles de gêmeos.
Quando, em 1999, engravidou pela terceira vez, os médicos a avisaram de
que o feto provavelmente não passaria do quinto mês. Desde o início
da gestação, Sandra começou a ter sangramentos. Diante da
perspectiva de mais uma perda, desesperou-se até que uma amiga levou
a ela três minúsculos pedacinhos de papel enrolados em forma de cânula.
Eram as pílulas de frei Galvão. Hoje reputadas como milagrosas,
elas surgiram entre 1785 e 1788. Nessa ocasião, reza a tradição
católica, o frade franciscano foi procurado por dois homens que lhe pediram
que intercedesse pela saúde de seus familiares: o marido de uma gestante
com problemas no parto e o pai de um menino que sofria de uma doença renal.
Como não podia ir até os doentes, o franciscano resolveu escrever
uma oração em um pedaço de papel, que cortou em três
pequenos pedaços e ofereceu aos homens, recomendando que fizessem os doentes
tomá-los como remédio. Tanto a gestante como o rapaz curaram-se,
de acordo com relatos do período. Desde então, a fama das pílulas
se espalhou pelo Brasil. Até hoje, no Mosteiro da Luz, treze freiras trabalham
na sua confecção: enrolam uma tira de papel de arroz em que está
impressa dezessete vezes a oração escrita pelo religioso
uma prece em latim dirigida à Virgem Maria e depois a cortam em
catorze pedaços para deixar as pílulas em formato de microcânulas.
Todos os dias, pela manhã, formam-se, diante do mosteiro, enormes filas
de pessoas em busca do remédio supostamente milagroso. Diariamente, as
irmãs produzem e distribuem mais de 5 000 pílulas aos fiéis.
Roberto Setton
OS FAMILIARES Theresa
e Tom Maia, descendentes de irmãos de frei Galvão, com a filha e
netos: guardiães das relíquias do santo
No caso de Sandra, o sangramento cessou no dia seguinte à ingestão
das pílulas e Enzo, hoje com 7 anos, é um menino saudável.
Depois de analisar uma bateria de exames de Sandra, a comissão médica
da Congregação para as Causas dos Santos, composta de cinco profissionais,
concluiu que um útero com as características do dela (chamado bicorne,
por se dividir em duas cavidades, ambas muito pequenas) não ofereceria
espaço suficiente para que um feto crescesse. Por unanimidade, atestou
que a ciência não tinha explicação para o fato de Sandra
ter concluído a gestação. Em 1998, o Vaticano já havia
chancelado um primeiro milagre do frei: a cura da menina Daniela Cristina da Silva,
que, em 1990, fora desenganada pelos médicos por causa de uma hepatite
aguda. O reconhecimento da primeira graça elevou o franciscano à
categoria de beato. Para alcançar a santidade, no entanto, era necessária
a comprovação de um segundo milagre. O do nascimento de Enzo foi
reconhecido pelo Vaticano em dezembro do ano passado.
A dificuldade de ter um milagre reconhecido não se limita à obtenção
de exames e análises médicas. Segundo os preceitos da Igreja, os
milagres, tanto o da fase da beatificação quanto o da santificação,
precisam ser "instantâneos, duradouros, perfeitos e de autoria indubitável".
Para garantir o cumprimento desse último requisito, a irmã Célia
enfrentou uma dificuldade um tanto prosaica: como, em São Paulo, um dos
maiores centros de devoção a frei Galvão, a Capela do Mosteiro
da Luz, fica a um quarteirão da Igreja de Santo Expedito, muitos dos fiéis
que iam solicitar a ajuda do franciscano acabavam aproveitando a viagem para reforçar
o pedido no santo vizinho. Dessa forma, quando alcançavam uma graça,
não podiam dizer com certeza quem era o seu autor. "Tive de abrir mão
de bons milagres por causa disso", conta a irmã Célia.
Fotos Roberto Setton
PÍLULAS MILAGROSAS A irmã Claudia Hodecker, uma das treze
freiras enclausuradas do Mosteiro da Luz que confeccionam as pílulas de
frei Galvão (à direita). Mais de 5 000 são distribuídas
diariamente aos fiéis que se enfileiram diante do mosteiro
Um processo de canonização
sai caro. Só para confirmar o segundo milagre de frei Galvão, a
freira calcula ter gastado 55.000 euros, entre viagens a Roma, exames, consultas
médicas e tradução de documentos. O dinheiro veio da doação
de fiéis e foi arrecadado, principalmente, pelo Mosteiro da Luz
idealizado e desenhado pelo religioso, que ajudou a erguê-lo junto com escravos.
A colher de pedreiro que ele utilizou nas obras está exposta lá.
Também na casa de Guaratinguetá em que o franciscano nasceu e passou
a infância há relíquias do novo santo: objetos pessoais, pedaços
de tecido de sua batina e imagens doadas por devotos. A historiadora Theresa Maia,
sexta geração de um dos nove irmãos do franciscano, é
responsável pela preservação do acervo e da casa, ao lado
do marido, Tom Maia ele também descendente de um dos irmãos
de frei Galvão e da filha Regina Maia. O número de visitas
à casa praticamente dobrou desde a aprovação do segundo milagre
do antigo morador. Agora, espera-se que a romaria aumente especialmente no dia
25 de outubro, data dedicada ao religioso no calendário litúrgico.
Embora intitulado oficialmente "patrono da construção civil", por
seu trabalho nas obras do Mosteiro da Luz e no Mosteiro de Sorocaba, religiosos
acreditam que o futuro santo deve se firmar mesmo como padroeiro das gestantes.
"O milagre que deu origem às pílulas, assim como o que o levou à
santificação, está relacionado a gestações
difíceis", diz a irmã Claudia Hodecker, do Mosteiro da Luz. "Por
causa disso, a maioria das cartas que chegam a nós, com pedidos para frei
Galvão, vem de grávidas."
Roberto Setton
DEVOÇÃO Túmulo do franciscano na capela do Mosteiro
da Luz: a maioria dos pedidos vem de gestantes
Por que países como o Japão, com pouca tradição católica,
têm santos às dezenas enquanto o Brasil, com 125 milhões de
seguidores da religião, passou tanto tempo sem ter um santo próprio?
A resposta é: sobretudo, por culpa do próprio Brasil. Até
recentemente, não havia no país religiosos com experiência
suficiente para atuar nas causas de canonização. "Os processos costumavam
ser tratados de maneira quase informal. Padres de pequenas paróquias cuidavam
das causas enquanto assumiam diversas outras funções", diz o padre
Cesar Augusto dos Santos, vice-postulador da causa de Anchieta. Irmã Célia,
hoje a principal especialista brasileira nessa área, foi a primeira postuladora
que conferiu maior profissionalismo ao processo. Além da falta de traquejo
nos meandros do Vaticano, outro fator, esse alheio ao país, atrasou o surgimento
do primeiro santo nacional. Até o fim dos anos 80, não havia, da
parte da Igreja Católica, nenhum empenho em aumentar a população
de canonizados no mundo. Essa situação mudou a partir do pontificado
de João Paulo II. Preocupado com a crescente expansão de outras
religiões no mundo, ele diminuiu as exigências para as canonizações
e, em 26 anos de papado, fez mais santos do que todos os seus antecessores juntos.
Somou nada menos do que 482 novos canonizados aos 302 proclamados por seus antecessores.
"Quanto mais familiar e palpável a relação com o sagrado,
mais fácil fica para o homem comum viver a religião. Nesse sentido,
a existência dos santos fortalece os laços dos fiéis com a
Igreja Católica", afirma o sociólogo Lísias Negrão,
da Universidade de São Paulo, especialista em religiosidade popular.
A importância dos santos, evidentemente,
não se limita à sua função, digamos, política
na Igreja. Santos servem para aproximar o homem de Deus. A espécie de cumplicidade
que os fiéis estabelecem com eles diminui o assombro diante da superioridade
divina e confere humanidade à transcendência. A grandeza de sua vida
diminui a pequenez dos homens. Agora, nesse altar de vidas grandiosas, estará
também o brasileiro frei Galvão.
COMO SE FAZ UM SANTO
Andrew Medichini/AP
ÚLTIMA PALAVRA Bento XVI: é dele a decisão final
Duas estradas podem levar
à santidade: a do martírio e a das virtudes. Ao fim do processo
que pode durar até mais de um século, a palavra final é dada
pelo papa, após consultas a bispos e cardeais. Ao lado, o passo-a-passo
de uma canonização
PRIMEIRA FASE SERVO DE DEUS
Um
processo de canonização só pode ser aberto pelo bispo da
diocese em que a pessoa viveu, cinco anos após a morte do candidato. Instalado
o processo, ele é alçado ao status de servo de Deus (caso de irmã
Dulce). Um postulador, espécie de "advogado" do santo, é designado
pela diocese para defender sua causa. O Vaticano, por sua vez, designa o "advogado
do diabo", responsável por apontar eventuais falhas no processo
Luizinho Coruja/Azul Press
SEGUNDA
FASE VENERÁVEL
Neste momento, o postulador precisa
provar a teólogos, historiadores e cardeais do Vaticano que o candidato
viveu de forma exemplar as virtudes cristãs ou que morreu em defesa da
fé. Se as virtudes ou o martírio forem comprovados, o candidato
ganha o título de venerável. É o caso, hoje, de madre Maria
Teodora Voiron, francesa que viveu no Brasil a maior parte de sua vida
Paulo Salomão
TERCEIRA FASE BEATO
Os mártires veneráveis
só precisam aguardar os trâmites burocráticos para, em seguida,
ser nomeados beatos. Os demais ainda precisam provar que realizaram um milagre.
A confirmação passa pelo crivo de médicos e teólogos
do Vaticano. O padre espanhol Mariano de La Matta, que viveu 52 anos no
Brasil, foi beatificado em São Paulo no ano passado
Divulgação
ÚLTIMA FASE SANTO
Para
que o beato vire santo, é necessário que se comprove que ele realizou
um segundo milagre e que esse milagre ocorreu depois de sua beatificação.
Isso comprovado, o candidato alcança a santidade. Madre Paulina,
italiana que viveu no Brasil por 67 anos, foi canonizada em 2002
Claudio
Rossi
Fontes:irmã Célia Cadorin
e padre Cesar Augusto dos Santos
O CASO ANCHIETA
À espera de um milagre. Essa é a situação do processo
de canonização do padre José de Anchieta. Embora nascido
nas Ilhas Canárias, pertencentes à Espanha, o religioso é
celebrado como o Apóstolo do Brasil, país onde viveu a maior parte
de sua vida. No ano de 1602, decorridos exatos cinco anos de sua morte, a Companhia
de Jesus, sua ordem religiosa, abriu o processo para levá-lo à santidade.
Quatro séculos depois, Anchieta ainda espera na fila a sua vez. Tamanha
demora se deve, em parte, ao fato de que, no período em que os jesuítas
foram expulsos do Brasil e perseguidos no mundo inteiro, seu processo foi suspenso
e ficou parado por 124 anos. Atualmente, no entanto, são problemas
de outra natureza que vêm emperrando o processo de Anchieta. A expectativa
era que, beatificado em 1980, ele se tornasse o primeiro santo do Brasil. Ocorre
que, desde então, o aguardado milagre, necessário para levar a cabo
todo o processo de canonização, não acontece.
A Associação Pró-Canonização de Anchieta, em
São Paulo, trabalha há cinco anos na divulgação da
causa, estimulando os devotos a pedir a intercessão do beato e, depois,
a narrar as eventuais graças alcançadas com a sua ajuda. Até
agora, porém, nenhuma história se encaixou nas exigências
do Vaticano. Não que haja má vontade por parte de Roma. Pelo contrário.
No processo de beatificação do padre, também não havia
um milagre documentado. Mesmo assim, Anchieta foi elevado à categoria que
antecede a dos santos. O papa considerou que o padre, que sempre teve fama de
milagreiro, merecia o título pelo "conjunto da obra". Agora, para a canonização,
nada indica que Anchieta vá ter a mesma facilidade.