Dois
dias antes do Natal, o Conselho de Segurança das Nações Unidas
deu o prazo de sessenta dias para o Irã atender a três exigências:
paralisar seu programa de enriquecimento de urânio, interromper os projetos
de água pesada e começar a cooperar com a Agência Internacional
de Energia Atômica (AIEA). O prazo venceu na quarta-feira passada e a resposta
iraniana foi renovar o desafio: em lugar de congelar, o Irã acelerou o
programa nuclear, de acordo com o relatório da AIEA. Mais 326 centrífugas
para enriquecimento de urânio foram instaladas nos subterrâneos da
fábrica de Natanz, elevando o total em funcionamento para 700. Quando estiver
completamente equipada, Natanz terá 3.000 centrífugas e produzirá
material suficiente para montar uma bomba nuclear por ano. A ambição
dos aiatolás é chegar a 54.000 centrífugas. Com tantas máquinas,
o Irã teria o necessário para montar vinte bombas nucleares por
ano.
A idéia de um arsenal nuclear
nas mãos do presidente Mahmoud Ahmadinejad é assustadora. Uma combinação
de fanático religioso e populista, o presidente iraniano não parece
ser do tipo que hesitaria em apertar o gatilho nuclear. Como a comunidade internacional
deve reagir à intransigência iraniana? Os Estados Unidos e seus aliados
europeus anunciaram a intenção de recorrer à ONU com uma
proposta de novas sanções internacionais. Um passo diplomático
óbvio, mas fútil. "O Irã não vai recuar um só
passo em seu projeto nuclear", garantiu Ahmadinejad na semana passada. Mesmo
dispondo do urânio, é complicado construir um artefato nuclear operacional.
Técnicos pessimistas acreditam que os aiatolás possam testar a primeira
bomba dentro de três anos. Os israelenses estimam a demora em seis anos.
É para breve, portanto.
Anthony
Devlin/AP
Andrew
Medichini/AFP
Blair
em fim de mandato: menos ingleses no Iraque
Romano
Prodi, da Itália: apoio aos EUA derrotado no Parlamento
Teerã
sustenta que seus esforços nucleares são pacíficos. Oficialmente,
o urânio será enriquecido a apenas 5%, potência suficiente
para acionar usinas geradoras de energia elétrica, mas bem abaixo dos 90%
exigidos para armar uma bomba. Mas a tecnologia empregada em ambos os casos é
a mesma e o programa nuclear iraniano é suspeito desde o início.
Sua existência foi mantida em segredo durante dezoito anos, até ser
denunciada por dissidentes em 2002. Pela retórica do presidente iraniano,
um alvo prioritário de ataque nuclear poderia ser Israel ele já
disse que basta uma bomba para varrer o Estado judeu do mapa. Os israelenses,
porém, são difíceis de derrotar. Têm seu próprio
arsenal nuclear e iriam retaliar de modo arrasador. Os pequenos países
do Golfo Pérsico estão convencidos de que estarão entre os
primeiros alvos de um ataque iraniano e se preparam para isso. "Eles temem
a expansão da ideologia iraniana de revolução islâmica
e por isso estão atrás de armamentos e tecnologia para enfrentá-la",
diz o americano Ilan Berman, especialista em segurança regional do Conselho
Americano de Política Externa, em Washington.
Geralmente
discretos em assuntos militares, os países do Golfo estão se armando
às claras. A Arábia Saudita, o Kuwait, Omã e os Emirados
Árabes Unidos devem gastar 60 bilhões de dólares em armas
só neste ano. Em setembro, o Egito anunciou planos de adquirir três
reatores para retomar um programa de energia nuclear estagnado desde os anos 60.
A Arábia Saudita pode entrar de sócia no projeto egípcio
e estuda seu próprio programa nuclear. A força por trás da
corrida por armas convencionais e nucleares está na divisão étnica
e política no Oriente Médio. O Irã é um país
persa e xiita, com ambições de hegemonia na região. O Egito
e a Arábia Saudita são árabes e sunitas, ramo majoritário
do Islã. "Esses países não querem cair para o terceiro
lugar na linha de poder da região, depois de Israel, que já tem
a bomba, e do Irã", diz o americano Sammy Salama, analista de Oriente
Médio do Centro para Estudos de Não-Proliferação,
de Monterey, na Califórnia.
A
facilidade com que os aiatolás estão se preparando para entrar no
clube das potências nucleares é um golpe fatal no tratado contra
a proliferação nuclear que funcionou bem durante a Guerra Fria.
De uma hora para outra, a Índia, o Paquistão e até a Coréia
do Norte, país que nem sequer consegue alimentar seus habitantes, exibem
arsenais atômicos. A bomba iraniana iria escancarar as portas da proliferação
sobretudo porque parte da tecnologia pode ser comprada no mercado negro.
Dessa forma, os aiatolás colocam um novo fio num emaranhado de dimensões
globais. Os americanos podem perfeitamente atacar as instalações
nucleares iranianas e acabar com a ameaça no nascedouro o envio
recente de uma segunda frota para a região do Golfo Pérsico reforça
a idéia de que os planos de ataque estão prontos. É duvidoso,
contudo, que Washington tenha ânimo para uma empreitada militar dessa magnitude
antes de se livrar da encrenca no Iraque e no Afeganistão.
Outra
complicação seria encontrar aliados para uma nova guerra no Oriente
Médio. Por falta de opção, os países árabes
do Golfo Pérsico iriam ajudar. Os russos criariam problemas. No momento,
estão furiosos porque os americanos querem instalar sistemas antimíssil
na Polônia e na República Checa (oficialmente para defender a Europa
dos mísseis iranianos). Moscou acha que é uma provocação
e ameaça apontar mísseis nucleares para a Europa, numa reedição
requentada da Guerra Fria. Na semana passada, o primeiro-ministro inglês
Tony Blair, que deixa o cargo em breve, anunciou planos para retirar 1.600 dos
7.100 soldados ingleses no Iraque. É uma tentativa de deixar um legado
mais do agrado do eleitorado. Na quarta-feira passada, o primeiro-ministro italiano
Romano Prodi renunciou depois de ver sua política externa ser derrotada
no Parlamento. Dois pontos estavam em discussão: as tropas italianas no
Afeganistão e a ampliação da base militar americana em Vicenza,
no norte da Itália. De Vicenza podem partir ataques aéreos contra
o Oriente Médio. Alguns deputados são contra a política americana,
outros temem atrair ataques terroristas islâmicos para a Itália.
O inimigo comum de americanos e europeus deveria ser o Irã e o fanatismo
islâmico mas a guerra no Iraque acabou virando muita coisa de cabeça
para baixo.
Acharam as armas químicas no Iraque
Ali
Jasim/Reuters
Atentado
com gás: nova arma do terror
Não
é exatamente o que os Estados Unidos procuravam quando invadiram o Iraque,
em 2003. Mas, afinal, encontraram armas químicas no país. Nada a
ver com o arsenal sofisticado citado nas justificativas para depor Saddam Hussein.
São armas rudimentares, improvisadas pelas milícias empenhadas em
massacrar membros de etnias rivais e atacar as tropas americanas. Na semana passada,
os Estados Unidos descobriram, na cidade de Karma, a 40 quilômetros de Bagdá,
uma fábrica clandestina de armas químicas e carros-bomba em que
havia cilindros de cloro e tanques de gás propano. No último mês,
houve três atentados com caminhões carregados de gás cloro,
matando 23 civis e deixando mais de 200 feridos ou envenenados. O gás cloro
é extremamente tóxico e foi usado pelas tropas alemãs contra
os ingleses na I Guerra Mundial. Irrita a pele e os olhos e, se inalado em alta
concentração, causa queimaduras internas e pode matar. Os autores
dos atentados têm utilizado o gás de uma forma pouco eficiente. Eles
queimam a maior parte do cloro. Para matar mais gente, bastaria que abrissem as
latas e deixassem que o gás se espalhasse com o vento. Os insurgentes estão
mudando suas táticas, mas a estratégia continua a mesma. "Eles
não querem apenas matar. Eles querem difundir o medo na sociedade iraquiana",
diz Wayne White, ex-vice-diretor do Escritório de Inteligência do
Oriente Médio do Departamento de Estado americano. Segundo White, o gás
cloro é fácil de fabricar, mas difícil de difundir numa forma
que seja altamente letal. O efeito psicológico de difundir o pânico,
porém, é o mesmo.