E já que o futebol é, como todos sabem, o ópio do povo, e,
como poucos percebem, o narcotráfico da mídia, é impossível
não falar dele, de vez em quando. De vez em quanto.
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Pois o futebol fortalece o caráter,
sobretudo a quem não o tem.
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O futebol tem
origens remotas e populares, mas foi implantado é pelos grã-finos
ingleses. No Brasil, trazido pelos marinheiros do navio "Criméia", também
só triunfou quando nossa upper-crust começou a jogá-lo.
Com camisa de seda, écharpes coloridas na cintura, até gravatas.
Logo o futebol voltou naturalmente ao povo, pela própria facilidade do
jogo bastavam uma bola e um terreno baldio (ainda existem?). Seduzidos
pela visível possibilidade de ascensão social e econômica,
centenas de brasileiros pobres se mostraram craques extraordinários, dominando
mundialmente o esporte na segunda metade do século XX. Socialismo é
acesso.
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Alguém
aí ainda sabe quem foi Coelho Netto, o pequeninho escritor "acadêmico"
que, no início do século (o outro, o XX), disputando cadeira na
Academia Brasileira de Letras com o "nobre" Graça Aranha, gritava, no ombro
dos colegas, seu slogan de campanha: "Sou o último dos helenos!"?
Torcedor do Fluminense, morando ali perto da sede do clube (onde mais tarde moraria
toda a família de Nelson Rodrigues), era pai de João Coelho Netto,
o Preguinho, atacante imortal do glorioso tricolor. Preguinho foi o maior
atleta do seu tempo, campeão, além do futebol, de pólo aquático,
basquete, voleibol, saltos ornamentais, atletismo, natação, remo
e... hóquei sobre patins!
Tudo amador.
Pois nós, do Flu, somos assim. Enquanto
o torcedor do Flamengo se orgulha de ser "Flamengo doente", nós fazemos
questão de provar que somos fluminenses saudáveis.
E aperte o cinto, Romário: Preguinho marcou 187 gous. Nessa época!
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Aí, como
sói (sói, Millôr, é isso mesmo?), vieram cartolas,
bicheiros, políticos, nacionalismos, ganâncias sem fim (no que vestem
os craques, no que bebem, no que fumam, nas campanhas políticas e até
no uso das próprias mães), osteopatas, banheiras hidrostáticas,
paparicos suspeitos. E a coisa degringolou. Deu no que deu e, sobretudo, no que
não deu. O futebol estagnou, presa de táticas estranhas à
realidade, à beleza do jogo, técnicos projetando verdadeiras engenharias
de trânsito no campo, até a geometria exotérica tipo quadrado
mágico, pra marcar (não marcar) um gol. Paradoxalmente, enquanto
Vôlei e Basquete se modernizavam, aumentavam a emoção das
disputas e seu público, a Fifa, desde que surgiu, em 1904, só fez
duas modificações nas regras do jogo. Uma com relação
ao impedimento.
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Antes que eu
me esqueça: existe coisa mais idiota do que uma regra chamada IMPEDIMENTO?
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Mas sempre sobrou
a glória criativa do bestialógico filosófico: "Tanto na minha
vida futebolística quanto na minha vida de ser humano..." Nunes
(atacante do Flamengo)